Segunda-feira, 18 de Janeiro, 2010


Florence and the Machine, Kiss with a Fist

Eu ando há dias a dar voltas e voltas à ideia de fazer um post mais ou menos elaborado sobre a cartografia das posições sobre o acordo lavrado pela meia noite de 7 para 8 de Janeiro entre Ministério da Educação e sindicatos.

No fundo, as posições são simples: a maior parte dos sindicatos está a favor, assim como a generalidade dos partidos com asssento parlamentar, em conjunto com o Ramiro Marques e os bloggers mais apróximos do movimento sindical e em particular da Fenprof (Francisco Santos, Miguel Pinto). Contra estão os movimentos independentes como a APEDE, o MUP e o PROmova, em especial através do Octávio Gonçalves, e bloggers como o Mário Carneiro. Pelo meio, assim na área da análise dos cinzentos, aceitando o acordo como algo que era necessário como base para posteriores desenvolvimentos, mas criticando várias das suas soluções, parece-me estar o MEP, estou eu e outros elementos da blogosfera, como o Paulo Prudêncio.

Desculpem-se se as referências são poucas, mas é apenas um esboço, não o produto final.

Só que, ao tentar ler o que anda a ser escrito, e felizmente é muito porque eu gosto desta fase em que se parte muita pedra, deparei com uma acusação recorrente que é a de protagonismo.

Não fiz o inventário de todas as referências (nem vou começar aqui a alinhavar links atrás de links), mas é notório que, em especial dos lados mais entrincheirados do debate, um dos epítetos mais usados é aquele.

A partir dos sindicatos acusam-se os líderes dos movimentos independentes de protagonismo, por quererem aparecer a fomentar a insatisfação com muitas das soluções do acordo e a capitalizar o desagrado que existe em muitos docentes.

Do lado dos movimentos há quem acuse os líderes sindicais de terem aceite o acordo para se manterem na ribalta das negociações.

Dos dois lados, conforme a brisa, acusam-se os bloggers, em especial os menos alinhados, de também quererem protagonismo com as suas opiniões.

No meu caso acho que, neste contexto e em outros, não é por aqui que passa nada de muito relevante. Aparecer a gritar que o outro só quer é protagonismo é um acto de protagonismo. Quem não quer protagonismo não tenta ser protagonista, não fala, não age, não nada.

Portanto, somos todos, cada um no seu cantinho, no seu nicho, à sua escala, protagonistas desta peça em exibição já há uns quantos anos e ainda com público.

Se com isso ficam mais satisfeitos e se vos poupo trabalho, vou desde já acusar-me a mim mesmo de protagonismo. Porque se eu não quisesse andar por aí em bicos de pés, desistia de dar opiniões, de responder a perguntas e de escrever aqui no blogue. Porque opque eu quero é protagonismo, que é coisa que dá de comer à descendência, alimenta o ego, faz crescer pêlos nas mãos e é um poderoso afrodisíaco, fora o facto de me ter feito perder mais ou menos meia hora a escrever isto.

(no meu caso é mais o diâmetro…)

É raro fazer digressões pela boa blogosfera mas, por tique que me ficou há uns meses, de quando em vez espreito o Câmara Corporativa para ver o que diz o establishment sobre quem o contesta, mas sempre com a capa de serem anti-corporativos e tal.

Hoje dei com este post de João Magalhães, supostamente baseado neste artigo do New York Times. Quem ler de forma distraída o post poderá ficar com a ieia que nos EUA se está a discutir uma reforma da avaliação do desempenho dos professores vagamente parecida com a nossa.

Nada de mais errado, para isso bastando ler o que está escrito, percebê-lo, e depois comparar com a nossa tristonha realidade.

Mas, ainda antes disso, tema  sua graça usarem o modelo americano como exemplo do que não funciona, depois de levarem anos a martelarem-nos com as enormes vantagens dos sistemas anglo-saxónicos, em particular o americano, na promoção da excelência educativa.

Enfim… adiante. Concentremo-nos no essencial.

  • O modelo em vigor por lá é criticado por ser formalista e basear-se, em termos de prática pedagíogica, apenas num par de aulas observadas (isto toca-lhes alguma campaínha?).
  • As propostas de mudança pretendem ter em conta não os resultados dos alunos, mas a sua progressão, ou seja, aquela tese do valor acrescentado de que já aqui falei várias vezes (as propostas do ME passam por aqui? Not really!!!).
  • Por lá pretendem-se identificar os professores pouco eficazes e promover a entrada de novos professores com qualidade (por cá quer criar-se uma prova de ingresso na profissão que torna quase estanque a entrada sem aumento dos quadros, sendo que os contratados, não fazem a dita prova).

Em resumo, de algum modo, o que pelos EUA se abandona é um sistema de avaliação do desempenho docente muito parecido com o que cá o ME tem tentado implementar, querendo adoptar-se um modelo cujas características em nada se parecem com as propostas pelo ME.

Que o autor do post do Câmara Corporativa não tenha percebido isso é caso para pensar que, talvez, fosse bom fazer uma prova de ingresso na blogosfera ou, em alternativa, não ter feito uma leitura do artigo do NYT ao nível do Emgalês Téquenico.

Continuam a ser feitas análises cada vez mais apuradas dos efeitos perversos de algumas das normas decorrentes da pressa com que foi feito o acordo.

A quem de direito – e não só – recomenda-se uma leitura atenta e críticas ou contributos acerca deste assunto.

Acordo permite que docentes do índice 299 ultrapassem docentes do índice 340

Transição na carreira

Foto da Armanda

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