Sábado, 9 de Janeiro, 2010


Gary Moore, Walking by Myself

Mais do que saber se assinaríamos ou não o acordo, se os sindicatos isto e aquilo, é desmontar os equívocos que estão inscritos em diversos pontos do acordo. Se possívelo usando exemplos concretos, mas com a visão da forma como se inscrevem em falhas globais ao nível da operacionalização do que é proposto. Não na pespectiva da queixa pela injustiça pessoal (que as há e eu tenho sempre evitado ir por esse caminho e muito teria a falar em termos pessoais, familiares ou de amigos), mas sim de falha do sistema.

Eu exemplifico, recuperando o tema de um post anterior e de uma conversa com o Pedro Castro:

  • Como é possível aceitar que as avaliações deste ciclo avaliativo contem para posteriores progressões quando as escolas usaram critérios muito diferentes para a atribuição de Bons (e não só)? Há escolas onde só conhecem números inteiros, alegando que a aplicação do ME só permite isso (e então os Bons com 7,5 são transformados em 8, equivalentes a M. Bom), outras onde as classificações estão até às décimas como se prevê na legislação) e outras onde se deram ao requinte de chegar às milésimas? É que isto não é nada irrelevante porque numa graduação de Bons para eventual progressão, um 7,001 valerá mais do que um 7,4 arredondado para 7. Assim como um 7,5 arredondado para 8 valerá mais do que um 7,8. Acham que isto não irá provocar imensas confusões, distorções e injustiças? Basta os professores da escola A (corridos a 7 por arredondamento por defeito) saberem que foram ultrapassados pelos da escola B porque tiveram classificação até às décimas.
  • Mas não é apenas este caso. O que dizer de professores com classificação de 9 e 10, mas que tiveram Bom por não se terem submetido a aulas assistidas ou ausência de quota para tal menção, a serem ultrapassados por M. Bons com classificação de 8 só porque deram abrigo a um avaliador renitente ou contrariado em duas aulas ao longo de num ano lectivo? Será esse o sistema justo de recompensa pelo mérito?

Repito o que já escrevi e disse ontem à TSF (parece que sem direito a transmissão e eu percebo porquê…): o acordo foi apressado, foi feito à pressão, ao que parece sob pressão e contém muitas coisas equívocas, ambíguas ou, o que é pior, geradoras de potenciais confusões e distorções. É importante denunciar tudo isso, o mais rapidamente possível. Ou aqui em comentários (e não se percam em fait-divers, pf) ou por mail para eu postar.

No espírito do post que hoje coloquei no blogue, eis uma série de dúvidas:

A – Deverá ser, ou não, absolutamente inadmissível que os sindicatos aceitem que as classificações do 1º ciclo de avaliação tenham qualquer tipo de consequência, beneficiando ou prejudicando quem quer que seja e no que quer que seja?
B – É ou não verdade que este novo estatuto irá beneficiar muito mais quem está próximo do topo da carreira?
C – É ou não verdade que, com este estatuto, pode acentuar-se ainda mais a desigualdade de tratamentos salariais entre aqueles que fazem igual trabalho?
D – O que vai acontecer a quem está no índice 218 (actual 4º escalão e antigo 7º)? Não irá essa imensa massa de gente ser a mais penalizada?
E – Irá ser suficientemente garantida a isenção e igualdade de tratamento no processo avaliativo futuro em todas as escolas do país? Será isso viável?
F – Já está claro que parâmetros de avaliação vão ser tidos em conta? Já alguém percebeu o que distingue o B do MB? O que é um professor (qualquer profissional) Excelente?
G – E se de repente todos começarem a pedir aulas assistidas?
H – E se de repente todos, a partir do 3º escalão, resolverem que querem ser avaliadores e adquirem formação específica: quem, e em que condições, lha dará?   ou E se ninguém, ou muito poucos (era giro, mas não acredito!) quiserem ser avaliadores?
I – É ou não verdade que a carreira docente corre o grande risco de tornar-se cada vez menos atractiva, e daqui a poucos anos só entrará nela  quem não “tiver onde cair morto”?
J – A Escola, por este andar, está ou não condenada definitivamente a tornar-se uma empresa, ficando completamnete descaracterizada?
L – Alguma vez, por este andar, será possível ambicionar que “a paz volte às escolas“?
CVC

Ainda ninguém se lembrou de fazer um trocadilho com as obras da ministra da Educação e o nome do seu secretário A. Ventura?

Isto é o que me acontece depois de ler – fassinado uma notícia sobre os orgasmos da Clara Pinto Correia, assunto a que espero voltar amanhã, depois do efeito dos três Guronsans que acabei de tomar para desnausear.

Acordo histórico com os professores impede Ministra de dar reguadas aos mal comportados

A Ministra da Educação ficou impedida de dar reguadas aos professores que se portam mal, bem como de se referir a eles como “essa gentinha” ou “essa corja de preguiçosos”, como fazia a anterior ministra, enquanto cuspia para o chão.
Com este acordo, os professores com nota de “Excelente”, “Muito Bom” e “Perdido de bom” vão progredir mais rapidamente no coração da Ministra e na carreira, mas continua a haver quotas para ambos.
Já os professores com nota “Bom”, “Bom, ninguém o atura” e “Bom era ele ir plantar couves”, vão continuar a poder atingir o topo da carreira, pelo menos ao fim 40 anos de docência, após o que continuarão a ser internados em Centros de Descanso Mental para Professores, com as suas reformas chorudas.
A divisão da carreira docente em duas categorias (professor titular e professor no banco) acabou, mas a proposta dos professores de organizar a carreira em “Tudo ao Molhe e Fé em Deus” não foi aceite. A carreira passa a estar dividida em dez escalões (do 1 ao 10) e três designações (de professor fixe a grandessíssimo filho-da-pauta).

Diário do Minho, 7 de Janeiro de 2010

AS MINHAS DUAS DORES

Ontem deitei-me com uma dor de cabeça que ainda me está aqui a moer. E não me livrarei dela  tão cedo. Pelo menos enquanto me lembrar da irritante genuflexão sindical que fizeram os principais dirigentes dos professores, perante um governo continuamente altivo (e discretamente agradecido). Com efeito, aqueles senhores dos sindicatos, mais pareciam reis magos ajoelhados junto da “Santa Senhora” ( Dra Alçada), oferecendo incenso e mirra q.b., para continuarem no “trono”, pelo menos até à próxima “natalidade”.

Hoje, ao levantar-me, fui surpreendido por outra dor, talvez mais aguda e passageira:

O Correio da Manhã informava  quem o quisesse ler, que  Sócrates, o eterno dono deste país, acabava de nomear a ex-governante de sucesso, e “competentíssima”, Maria de Lurdes Rodrigues, para  a chefia de um organismo exclusivamente dedicado a vários tipos de bolsas.

Não, não estou a falar das lojas de acessórios de nenhum “Freeport”. Refiro-me àquelas bolsas que, numa pequena parte, são atribuídas a quem gosta de investigar a sério um certo domínio do saber;  e noutra, (na maior) parte, “oferecidas” a quem copia ideias dos outros e as adopta – perdão, adapta –  num estilo próprio, muito rebuscado e sibilino para parecer grande coisa.

Assim, o grosso das bolsas da FLAD ( Fundação Luso Americana , talvez para o Desenvolvimento ) já se está mesmo a ver  para quem vão…

Não está?!

Cunha Ribeiro

Desde ontem vou quase em 30 posts e não consigo, nem de perto, nem de longe, dar conta do correio e textos chegados para divulgação, notícias e opiniões relevantes a destacar, análises próprias que gostaria de fazer, etc, etc.

Que uns me chamem revolucionário e outros papa, apenas quer dizer que dos dois lados da barricada há gente incomodada por este se ter tornado um blogue de massas e não de ma$$as, contra todas as expectativas.

Sei que o retorno em matéria de audiência é caloroso (está a ser difícil ultrapassar o Gaijas da TV…), mas agora vou ali e já venho daqui a umas horas que há vida para além disto.

Peneiras? Obviamente!

Lamento se tenho apenas 2 braços e 2 mãos, cada uma com 5 dedos e dias com 24 horas. Não dá para ir fazendo actualizações mais depressa. Ontem foram 18 posts e muita coisa continua por divulgar:

As Minhas Leituras

Clube dos Pensadores

Origem das Espécies

Professores Asfixiados

Professores sem Quadro

(Re)Flexões

A luta não acabou

UMA TRAIÇÃO ANUNCIADA

À LUTA DOS PROFESSORES PORTUGUESES

A celebração hoje, dia 8 de Janeiro, de um “acordo de princípios” entre o Governo e as direcções dos principais sindicatos de professores, merece da Organização de Professores do PCTP/MRPP, tendo em atenção o respectivo conteúdo, a seguinte apreciação e denúncia:

1. O “acordo de princípios” representa, por parte das organizações signatárias, o culminar de uma traição à luta que os professores portugueses travaram nos dois últimos anos, traição essa que começou logo a seguir às eleições legislativas de 27 de Setembro último quando, caçado o voto dos professores, as principais direcções sindicais e os partidos que as suportam se apressaram a legitimar a farsa e o ataque à profissão e à dignidade docente que foi o chamado “primeiro ciclo avaliativo” e os seus resultados, dando assim ao segundo Governo Sócrates as condições necessárias para desencadear uma nova ofensiva contra a escola pública e contra os professores portugueses.

2. Os pruridos que ainda se manifestaram há dois meses, por parte das direcções sindicais e dos partidos da oposição parlamentar, em dar por bom e validado o chamado “primeiro ciclo avaliativo” e as suas consequências para efeitos de progressão na carreira, deixaram agora totalmente de existir, na medida em que o “acordo de princípios” não coloca, sobre tais consequências, qualquer espécie de restrição.

3. Em termos de carreira docente e respectiva progressão, assim como em termos das bases fundamentais do modelo de avaliação do desempenho docente, o “acordo de princípios” hoje assinado representa um claro retrocesso e agravamento, relativamente às disposições legais existentes na anterior legislatura. Com efeito, tanto no que diz respeito às quotas e aos estrangulamentos na carreira, como no que diz respeito à não contagem do tempo de serviço no período em que houve congelamento nas carreiras, a situação ficou igual ou pior do que estava.

Do mesmo modo, todos os princípios em que assentava o anterior modelo de avaliação – os ciclos de dois anos, a instituição de uma competição sem freio entre os professores por um número escasso de lugares, a carga burocrática e a sobrecarga de trabalho, as notas dos alunos e a valoração dada pelos encarregados de educação como critérios de avaliação do desempenho docente –, tudo isso permanece intocado e até agravado no “acordo de princípios” (atente-se, por exemplo, na competição exacerbada que se pretende promover entre os professores classificados com “bom”, dado uma simples milésima poder determinar, nestes casos, a progressão ao escalão seguinte).

4. Representando o “acordo de princípios” hoje celebrado entre o Ministério da Educação e as organizações sindicais uma versão agravada do “memorando de entendimento” de má memória celebrado entre os mesmos protagonistas na Primavera de 2008, o mesmo deve merecer da generalidade dos professores e das organizações e movimentos que combateram este último, igual atitude de repúdio e de oposição. É preciso dar voz e suporte à revolta e à indignação que o “acordo de princípios” hoje assinado certamente irá suscitar entre a maioria dos professores portugueses.

Lisboa, 8 de Janeiro de 2010

A Organização de Professores

do PCTP/MRPP

Isto está muito complicado de entender porque há uma razoável desnorte em matéria de balanço do que significará o acordo de princípios entre o ME e a fatia mais significativa dos sindicatos de professores.

O que resulta directamente do carácter híbrido desse mesmo acordo, algo que resulta de uma negociação, onde foi necessário haver cedências de parte a parte, sendo que politicamente o governo, o PS, o Parlamento e os partidos da oposição escapam, por agora, a um imbróglio dos grandes e os sindicatos e os professores ganham alguma coisa, mesmo que curtinha, em matéria de progressão para além do 5º escalão.

Existem, portanto, aqueles que acham que o ME capitulou perante os professores (um texto muito mau de um outrora mais estimulante João Pereira Queque, desculpem, Coutinho ou a posição da maior parte dos partidos), os que acham os sindicatos capitularam e que o PS e o governo é que ganharam com este aparente final de conflito (editorial do Público, por exemplo, assim como posições de alguns movimentos de professores) e aqueles que acham que haver acordo é, só por si, algo de positivo (João Marcelino no DN, a maior parte dos professores seleccionados para surgirem em algumas peças dos jornais de hoje).

Na blogosfera as reacções também são discordantes, não se detectando um padrão muito claro, excepção feita a alguns espaços demasiado alinhados com o movimento sindical. Mesmo na área do PS existem reacções discordantes, uns lamentando um acordo que cede a algumas pretensões dos sindicatos e outros achando que foi uma grande vitória de Sócrates, desculpem, de Isabel Alçada.

E há aqueles que ainda não sabem bem o que hão-de achar, em busca da brisa mais forte.

Eu sou obrigado a dizer que acho um acordo fraquinho, arrancado em condições que acho estranhas, não tendo elementos suficientes ou convincentes para perceber porque tinha de ser obtido naquele lugar, naquela hora.

Acho que o acordo tem alguns pontos positivos – poucos, mas tem – e alguns negativos ou propícios a provocar enormes confusões.

Se eu o assinaria?

Não sei, o mais certo é que o não assinaria porque nunca estaria em situação de o assinar. Para isso teria de pertencer a uma organização com assento nas negociações e estar naquela situação concreta. Percebo que o Ilídio, o Octávio e o Ricardo, enquanto líderes de movimentos de professores, tenham uma opinião mais clara sobre isso. No meu caso, só posso dizer que o que certamente não faria era aceitar era estar ali fechado horas a fio, sem me poder movimentar (e alimentar, já agora) à minha vontade.

Tenho escassa vocação para refém.

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Maria de Lurdes Rodrigues na presidência da FLAD

A mesma fonte referiu que o primeiro-ministro, José Sócrates, assinou sexta-feira um despacho em que nomeia a antecessora de Isabel Alçada para o cargo anteriormente ocupado por Rui Machete. Maria de Lurdes Rodrigues assume a presidência do conselho executivo da FLAD a 1 de Maio deste ano.

A que horas é que o primeiro-ministro lhe telefonou a dar os parabéns?
Logo que se soube que havia acordo. Por volta da meia-noite e meia.

E o que lhe disse?
Que era muito importante termos finalmente obtido este acordo com os sindicatos.

Acabo de comprar quase toda a jornalada toda do dia. Juntamente com o que vi ontem na televisão concluo que quem estava desesperado por um acordo era o PS. E que Isabel Alçada deu a volta por cima, ao fazer reféns na 5 de Outubro umas dezenas de dirigentes sindicais. Mas daí a entrar na linguagem do Octávio Gonçalves e do PROmova que pelos vistos também gostam da terminologia da traição à distância quando fazem mesuras pela frente vai um grande – enorme – caminho. E já agora, tecnicamente, o dia da “traição sindical” foi 8 de Janeiro, porque o acordo já foi depois da meia-noite.

Análise do abundante noticiário do dia mais afiante.

Público e Expresso, 9 de Janeiro de 2010

Turner, Norham Castle, Sunrise (c. 1845)