Antes que alguém dispare já, em termos profissionais passei – mesmo se não de forma muito alongada – pelo sector privado, fui durante muito tempo profissional liberal, só deixando de o ser quando me decidi dedicar praticamente em exlusivo à docência. Por isso, acho lamentável este tipo de carreiras feitas exclusivamente em aviário, com a fidelidade partidária a ser recompensada à custa do Estado. quando aparecem a criticar os profesores por serem pagos pelos impostos de todos, o que dirão desta camada de gente que muito menos fez, muito mais ganha, e é paga pelo erário público em troca de serviços prestados no âmbito das lutas partidárias?

Salvar o país deste Estado, e o Estado deste governo

Portugal gosta de viver à sombra do Estado, mas raras vezes um governo quis controlar tanto o Estado como o que temosOntem de manhã fui ao Portal do Governo, abri um por um os perfis profissionais de todos os membros do Governo, e confirmei uma suspeita: nenhum deles trabalhou a maior parte da vida no sector privado. A maioria nunca o fez. Alguns, poucos, exerceram vagamente a advocacia, mas há muito que não têm “escritório”.

Duas ministras terão ganho mais em direitos de autor do que com os proventos dos lugares que mantêm na administração pública. E até a “sindicalista” nunca trabalhou numa empresa, começou logo como funcionária da UGT. Considerando o conjunto dos ministros, o número total de anos passados no Parlamento ou em gabinetes ministeriais não deve ser muito diferente do acumulado a dar aulas em universidades públicas. Perguntar-se-á: mas porquê a minha suspeita? E será que podemos tirar alguma ilação desta constatação? Na verdade não há mal intrínseco em se ter feito toda a carreira no sector público. Nem de tal se pode tirar qualquer ilação, sobretudo se pensarmos nos que dão aulas nas universidades.

Contudo… Contudo estamos perante um sinal dos tempos: o melhor (?) que o país foi capaz de produzir para depois lhe entregar a responsabilidade de o governar foi um grupo de quadros que nunca correu os riscos associados à actividade privada e sempre cresceu no ambiente protegido – mesmo que nem sempre glorioso – da administração pública. Sucede com este Governo, como poderia suceder com um governo liderado pelo PSD, talvez com pequenas nuances, e não deve surpreender ninguém: o sonho da maioria dos portugueses é, há décadas, há séculos, acolher-se no regaço protector do Estado. De preferência como seu servidor, se necessário como seu subsidiado.

Hoje, no Público, sem link.