Velho de mais para trabalhar e novo de mais para a reforma

Já não procura trabalho. “Para quê? Tenho 55 anos. Sou velho demais para trabalhar e demasiado novo para ir para a reforma”. É quase a primeira coisa que Joaquim Nogueira diz, mal se senta à mesa na sala de jantar de sua casa, numa rua de Matosinhos chamada do Baixio, uma boa descrição da maneira como o encarregado de obra, emigrado tantos anos pela Europa fora, encara o futuro.

No final da conversa, chama a mulher, Maria das Dores, que estava lá dentro a ver televisão. Foi o sorriso quem deu as boas-vindas, já que da sua boca não saiu uma palavra. Nem para o JN nem para os médicos da Junta convocada pela Previdência para ver se podia trabalhar, apesar do AVC que lhe tirou a fala, o uso da mão direita e todo o atractivo para quem dá emprego. “Como é que uma costureira assim pode trabalhar?”.

Naquela tarde, no centro de saúde, ficaram sentados, ela e o marido, enquanto os altifalantes repetiam o nome. “Eu não disse nada, não era por mim que chamavam, era por ela”. Maria das Dores não falou, claro, como podia?, e foi declarada inválida a troco de nem 300 euros por mês.

Joaquim estava algures na Europa quando soube do acidente cardiovascular. Tinha 46 ou 47 anos, não se lembra bem. A família resume-se a uma filha militar, prestes a embarcar para o Líbano, e um filho em Paris. E Maria das Dores, incapaz sequer de descascar uma batata. Voltou a Portugal, ainda teve um ou outro emprego, aleijou-se numa caldeira, foi trabalhar para a Guarda (“levei a minha mulher comigo”), o contrato acabou, não foi renovado, nunca mais arranjou outro.

Com um sorriso, mas de desalento, encadeia as cenas que o trouxeram até hoje. Trabalha desde os 16 anos, primeiro como servente e agora sem serventia. Recebe subsídio de desemprego e garante que “desistir é que não”. Mas nos seus olhos nem se adivinha luz ao fundo do túnel.