Já lá vai mais de uma dezena de anos que escrevi este estudo (QHOM2), de que nem sei se esta é a versão final, pois já dei cabo de 3 computadores e vários discos rígidos desde então. À época o objectivo era fazer parte de um volume de uma ambiciosa obra colectiva sobre a História do Quotidiano em Portugal que nunca chegou a ser publicada, mesmo se a editora em causa me pagou rigorosamente os artigos produzidos (num total de sete, de que nãoa cho rasto de alguns)

Sei que fiz uma revisão há coisa de uma mão-cheia de anos quando me deram a entender que talvez pudesse ser publicado como artigo numa revista de gender studies, mas como o tema da revista é principalmente feminino, nada se concretizou. Mais recentemente disponibilizei-o a uma jornalista que abordou o tema na revista dominical do Público.

Porque este blogue também era para isso aqui fica a introdução do artigo e o texto completo no link mais acima, onde estão disponíveis as referências bibliográficas que se notam restritas ao final da década de 90.

AS FACES DE ADÃO:

A Construção da Masculinidade Contemporânea em Portugal

O tema da masculinidade contemporânea, dos seus valores, das suas rotinas e dos seus atributos, tem vindo a estar afastado da investigação histórica e sociológica, permanecendo um quase exclusivo do domínio da Antropologia. Focando basicamente as comunidades humanas ditas “primitivas” e os seus rituais de iniciação e passagem à idade adulta, a antropologia anglo-saxónica produziu um amplo espectro de leituras que não teve, de forma alguma, equivalente comparável no campo da produção historiográfica. As razões para esta atitude radicaram na crença largamente espalhada, e longamente interiorizada como correcta, de que as definições e manifestações históricas da masculinidade constituem um dado adquirido, que tornaria redundante qualquer tipo de abordagem. A elaboração da História ao longo dos séculos seria uma longa descrição da construção/experiência da História no masculino que se pretendia passar como a história da Humanidade. A “voz dos homens” contra o “silêncio das mulheres” na História tem vindo a ser a teoria das enérgicas análises feministas que surgiriam em defesa da Mulher, enquanto sujeito invisível de um passado reconstituído de forma parcial e quase exclusivamente masculina. Assim, ao defender-se o direito à diferença para a vivência feminina da História, o Homem passou a ser definido pela negativa, como contraponto, esboçando-se a traço grosso os atributos dessa masculinidade repressora.

Os anos 70, em especial nos países anglo-saxónicos, experimentaram o nascimento e proliferação dos chamados Feminist Studies que, com a sua crescente aceitação académica procuraram apresentar-se de forma menos activista, se transmutaram gradualmente em Women’s Studies ou Gender Studies, e se foram divulgando pelas principais historiografias europeias. As últimas décadas permitiram a consolidação deste campo de investigação nas ciências sociais e humanas, a nível europeu e mundial, recuperando para a existência histórica e para a “visibilidade”, aquela grande minoria que é a população feminina. Desta forma, se procurou combater a injustiça que durante décadas ou mesmo séculos sacrificou o papel da Mulher na Sociedade e na História, apresentada como sujeito menor, discriminado na vivência quotidiana e no tratamento que sobre ele os investigadores sociais e historiadores dedicaram, reduzindo-a a estereótipos.

O avanço da investigação sobre a experiência histórica feminina (e já não tanto feminista), justificou, há já uma década, os primeiros esforços de história global (Anderson e Zinsser 1990 e Duby e Perrot 1992), e tem vindo a ocupar um número crescente de trabalhos e investigadores, em acelerado esforço de reabilitação de uma injustiça secular. Verificamos, contudo, que até há bem pouco, isso acarretou uma consequência negativa simétrica da anteriormente criticada. Ou seja, o sujeito dominador, opressor e responsável pela discriminação – o Homem -, passou ele próprio a ser objecto do tratamento que antes dispensava ao universo feminino: agora é ele que, em muitos estudos sobre a Mulher, surge definido pelo esboço, pela redução caricatural e arquetípica.

Recuperaram-se parcialmente, com diversos graus de aprofundamento e sistematização, as experiências femininas do acesso à educação, dos rituais envolvendo a sua juventude, de entrada no mercado de trabalho, da vida familiar e conjugal, da maternidade, do ciclo de vida biológico feminino, etc, etc; foi dado especial destaque à sua intervenção cívica e política e à sua participação em movimentos de carácter sindical e de contestação social, enquanto menor relevância mereciam outros temas como as expectativas sociais perante o nascimento de elementos do sexo feminino, o envelhecimento ou mesmo a preparação para a morte (áreas mais circunscritas ao domínio da Antropologia Social). Em falta ficaram os estudos simétricos para o caso masculino. Os exemplos em contrário constituem aquelas excepções que, pelo seu isolamento, acentuam ainda mais o seu desenquadramento das tendências dominantes do momento. É o caso de trabalhos percursores como algumas tentativas de história da  paternidade  em  França (Delumeau e Roche 1990) e nos E.U.A (Griswold 1993), resposta a esforço com uma década de avanço para a maternidade (Knibiehler e Fouquet 1980).

No entanto, a partir de meados dos anos 80, com um claro reforço na última década do século XX, começou a surgir uma vaga, com epicentro essencialmente nos E.U.A., de estudos sobre os fundamentos da masculinidade tradicional que, finalmente, pareceu começar a ser posta em causa, quer na sequência das críticas exteriores como de uma reformulação interna dos valores masculinos (vejam-se, entre outros, Cornell 1995, Horrocks 1994, McInnes 1998, Messner 1997 ou Segal 1990). Resultado de mutações visíveis em diversos campos da cultura, mais ou menos popular, como o cinema, as séries televisiva, a publicidade, em que a representação do Homem começa a adquirir contornos e atributos diversos dos tradicionalmente associados à masculinidade, de onde ressalta uma fragilização da sua imagem e, em simultâneo, uma sua abertura a valores e rotinas a que anteriormente se mostrava avesso e empurrava para o domínio exclusivo da Mulher. Ao ponto de alguém perguntar o que quererão os homens, na abertura de um pequeno estudo-guia em torno das leituras possíveis sobre a “crise de identidade masculina”  nos nossos dias (Shweder 1994).

As questões que se pretendem levantar nestas páginas são, em suma, as que se relacionam com o significado, no concreto, do “ser-se homem” (macho dominador, insensível, defensor acérrimo dos seus privilégios e ser intrinsecamente não igualitário, na visão mais radical do feminismo contemporâneo) no século XIX, na sociedade ocidental. Que atributos definiam a masculinidade?  As meras, embora estruturais, questões de ordem biológica, ou algo mais?  Que sinais exteriores definiam o modelo masculino dominante e como evoluíram até ao início do século XX?  Que espaços se podiam considerar característica e exclusivamente masculinos?  Quais os seus rituais específicos, como se entrava para o universo masculino adulto?  Quais as suas diversões, os seus hábitos de leitura? Como se deveria processar o seu relacionamento com o sexo oposto? Quais os valores que conscientemente assumiam em oposição, contraposição ou sobreposição aos do universo feminino? Que ameaças sentiram à sua identidade?

Curiosamente, apesar das aparências, tudo isto continua por responder.