Sábado, 19 de Dezembro, 2009


Duran Duran, Girls on Film

Como dizia há pouco tempo o Simon Le Bon, este foi o primeiro vídeo soft-core dos anos 80.

Quem diria que tão menosprezados pela critica, em seu tempo, se tornariam banda de culto?

A páginas 18 do Expresso de hoje vem uma peça sobre Alexandre Ventura, o ex-presidente do CCAP e actual secretário de Estado da Educação que já foi DJ mas não gosta do ruído dos blogues.

A inversão de estratégia e imagem em relação ao sorumbático Jorge Pedreira é quase total, mesmo se pelas últimas conferências de imprensa Alexandre Ventura revele ainda alguma dificuldade em fazer-se entender.

Ao contrário do que se passou no anterior mandato em que a rispidez, incivilidade e confronto eram as chaves para as negociações e para a conquista a opinião pública, agora vive-se um período em que da 5 de Outubro se pretende transmitir uma imagem de serenidade, simpatia e tolerância.

Talvez por isso se sucedam declarações como aquela que termina o artigo em causa onde se lê que:

Para já, e apesar do muito que ainda os separa [ME e sindicatos], Ventura está mesmo “convencido” de que o acordo com os sindicatos é possível.

Este tipo de atitude pode ser encarado de duas formas:

  • Ou como uma sincera vontade de fazer a Educação regressar a um clima de acalmia e não crispação.
  • Ou como uma estratégia destinada a transmitir para a opinião pública a ideia que do lado do Ministério tudo é simpatia e que, a haver desacordo, a culpa será dos intransigentes professores e sindicalistas.

Como escreve Isabel Leiria mesmo a finalizar o artigo «As próximas semanas o dirão».

Que prenda de Natal Isabel Alçada entregará aos professores?

A ideia foi do Miguel e o Paulo desafiou-me, pelo que responderei. No entanto, por questões certamente transcendentais, vou eximir-me do dever de desafiar cinco bloggers para darem o seu testemunho. Acho mais interessante que quem o queira fazer, faça de moto próprio. Ou então que o façam os comentadores do Umbigo.

  • Eu já… estive muitas vezes errado, mas isso não impede que em todos os momentos defenda aquilo que acho estar certo.
  • Eu nunca… consigo perceber os defensores da tolerância que praticam a intolerância militante.
  • Eu sei... que a realidade é mutável, muitas verdades transitórias, muitas certezas simples convicções, mas que em cada momento devemos acreditar no que fazemos.
  • Eu quero… continuar a acreditar que é sempre possível lutar por aquilo que acreditamos, mesmo quando isso não parece o mais recomendável.
  • Eu sonho… com o dia em o mundo não seja a preto e branco para muita gente e que o maniqueísmo dicotómico entre puros e impuros  não seja substituído necessariamente pelo pragmatismo acrítico dos cinzentos, mas pela capacidade de reflectir sobre as circunstâncias particulares de cada contexto.

Uma edição que tenho em pdf (14 mb) graças ao Livresco, mas que vou tentar encontrar em papel pela sua qualidade e actualidade.

Destaco aqui, por exemplo, as declarações de Arne Duncan, o secretário de estado para a Educação da administração Obama sobre a ligação entre pagamento por mérito e resultados dos alunos:

Toda a entrevista aqui.

Ainda mais do que de habilitações académicas, a população portuguesa padece de um défice enorme e antigo de literacia funcional. Mesmo quando completa a escolaridade básica, parte importante da população portuguesa tem graves lacunas para entender instruções de preenchimento de impressos, de utilização de medicamentos ou vários tipos de equipamentos ou para fazer cálculos razoavelmente básicos. Há poucos dias, desesperava eu para ser atendido quando cliente e funcionária procuravam entender-se sobre um troco, mesmo com recurso à máquina de calcular, porque a operação não era apenas x-y.

A relação de muita gente com a compreensão do discurso escrito, com operações matemáticas básicas ou com a estruturação de um raciocínio lógico é algo que se aproxima do santo graal.

Por isso é utópico tentar encontrar nos sistemas educativos actuais dos países mais avançados as panaceias para o nosso atraso. Pelo contrário, é preciso saber analisar o trajecto histórico da Educação nesses países, para perceber como se construiu o sucesso. Não para o replicar – há soluções diferentes, consoante os contextos – mas para entender que o sucesso é o resultado de um processo longo, por vezes já enraízado há muitas gerações na sociedade, não o efeito como que mágico e instantâneo de uma qualquer fórmula.

Embora seja aparentemente pessimnista esta minha visão, acho que, ao contrário do que se possa pensar, foram feitos ganhos enormes com a democratização do ensino até perto do final do século XX, mesmo tendo em conta os muitos erros cometidos.

O que me parece é que neste arranque do século XXI se aposta cada vez mais numa ausência de memória e num olhar sincrónico que toma por causa o que é consequência.

“Avaliação” de Professores – o Epílogo de uma Farsa

Está agora a produzir efeitos, depois de um processo cheio de peripécias, a chamada “Avaliação do Desempenho Docente” do primeiro módulo, que era para ter sido de 2007 a 2009 mas que, efectivamente, se resumiu ao ano lectivo de 2008-2009.

Depois de várias “simplificações” e aberrações sobre uma aberração, visto que o que “nasce torto, tarde ou nunca se endireita” e após terem sido estabelecidos vários “simplexes”, que pretenderam avaliar o trabalho dos professores mesmo sem observar aulas, (imagine-se!), chegámos ao epílogo do processo com a “saída” das classificações.

Atente-se que estas são condicionadas por quotas nas menções mais elevadas de “Muito Bom” e “Excelente”e é neste exercício que se verifica um conhecido aforismo brasileiro acerca da pragmática da lei, que reza assim:

“A lei serve para beneficiar os amigos, prejudicar os inimigos e aplicar aos otários”- e nada mais acertado para caracterizar este processo.

Temos de tudo: Escolas onde a quota de Excelente não foi utilizada mesmo tendo profissionais sido notados a esse nível, reservando “naturalmente” os Directores para si, em exclusivo, essa menção; Escolas onde faltaram lugares disponíveis nas quotas e Escolas onde sobraram lugares nas quotas, por escassez de concorrentes e se atribuíram menções de “Muito Bom”, a desempenhos próximos da indigência.

Em geral predominou a “martelagem” dos números para atingir os resultados convenientes para a tutela, numa escala que ultrapassou a da indecência face aos desempenhos reais, quer para cima, quer para baixo.

Isto, claro, dentro da maior das “autonomias”, pois à falta de um quadro nacional de referência o Ministério da Educação já nos habituou a mascarar de “autonomia” a maior das bandalheiras, que foi precisamente o que aconteceu.

Nestas coisas, quando “ não há rei, nem roque”, costumam beneficiar os apaniguados, os attachés e os protegés e prejudicar as personas non gratas, através do poder absoluto das Direcções das Escolas, mais concretamente dos/as Directores/as, que num país em que por norma toda a gente abusa do poder que tem, mesmo que mínimo, e a este propósito posso contar a história da senhora do bengaleiro, que tem por incumbência dar as chaves, mas que para certas pessoas nunca lá está.

Ora, as quotas foram aplicadas, não em função do mérito absoluto dos profissionais, mas em função de disponibilidades e conveniências e tudo “ foi como teria que ser”, em conformidade com os desígnios burocráticos dos poderes de turno que fazem por ignorar as pessoas e o seu mérito real, mas configuram uma farsa político-administrativa que tem por base apenas condicionalismos de natureza financeira, sem dúvida respeitáveis, mas que o seriam mais se não vivêssemos num país em que as “caixas de robalos” e os “equipamentos do Sporting Clube de Espinho” (e isto para não irmos mais longe, que o comboio ainda não chegou ao Samouco) pesam demasiado no Orçamento.

Num sistema de quotas corrente, digamos assim, será “normal” que quem tendo sido notado de “Excelente”, por exemplo, ao não ter vaga nessa menção seja desclassificado para a menção imediatamente inferior; mas já não será tão “normal” que seja desclassificado para dois patamares abaixo.

Assim e por essa “lógica”, se a menção de “Bom” tivesse quotas, alguém classificado de “Excelente” poderia por falta de lugares disponíveis em função das quotas, ser classificado de “Não Satisfaz” e como a decisão administrativa é a que prevalece, poderemos ver alguém classificado com 20 valores, acabar por ser notado com 4 valores para efeitos de carreira. Absurdo? Não!, “Socrático”!

Enfim, para que se perceba, suponhamos que alguém tem 20 valores num exame, mas por não haver vagas no patamar dos vintes, passa para catorze; ora, poderíamos dizer que esta situação configura um absurdo, mas com esta gente que nos desgoverna desde 2005, passou a não haver absurdos!

Esta denominada “Avaliação de Professores” daria vontade de rir se se resumisse a ter sido uma comédia, mas como de facto é uma farsa, acaba por ter resultados verdadeiramente trágicos na vida das pessoas que são mais do que números e que deveriam merecer respeito, para não estivessem confinadas a processos kafkianos desta natureza em que o grau de arbitrariedade e o índice atrabiliário é de tal ordem, que os torna praticamente inomináveis mas com esta gente no poder, tudo é de esperar, menos que façam alguma coisa com um mínimo de seriedade e de decência. Como poderia fazê-lo quem se “licenciou” a um domingo e fez cadeiras por fax? E não vale a pena “pôr mais na carta”, porque os actos ficarão com quem os praticou.

Enfim e como dizia o poeta: “ Sigamos o cherne” – porque se o comermos, ainda nos arriscamos a morrer de indigestão.

António José FerreiraProfessor

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