A evolução do posicionamento de alguns opinadores e articulistas relativamente às questões da Educação, em geral, e carreira e avaliação dos docentes, em particular, tem por vezes contornos curiosos.

Um desses casos é o Fernando Madrinha no Expresso. Apoiante inicial das politicas do PS de que Maria de Lurdes Rodrigues foi testa-de-ferro, a sua opinião foi flutuando ao longo do tempo sem ter sempre um rumo definido que não fosse a estranha sensação de que ele estava do lado daqueles que se acham primus inter pares na docência. Alguns dias atrás tive a possível explicação para o facto, através de algumas informações facultadas por uma pessoa amiga.

Claro que isso não chega para fazer qualquer processo de intenções. Mas chega para compreender a crónica de hoje em que Fernando Madrinha atropela sem dó os factos para erigir uma defesa dos professores titulares em topo da carreira. Deixo em seguida o excerto em causa, para não dizerem que descontextualizo a análise.

Vamos lá agora por partes.

  • É absolutamente falso que os professores titulares sejam sacrificados na conversão da anterior carreira de titular/professorzeco numa carreira contínua, visto que mantêm o seu índice salarial inalterado (340 para o actual topo) e, pelo contrário, até ganham um novo escalão de progressão que antes não existia (índice 370).
  • É de uma enorme desonestidade intelectual afirmar que, por passar a existir um novo escalão acima do anterior topo, os docentes que estavam no anterior 10º escalão (na estrutura pré-2007) descem por agora passarem para o 9º escalão da nova carreira única. Se o opinador encartado fosse sério, seria obrigado a admitir que no ECD aprovado em 2007 a carreira tinha 4 escalões de professor e 3 de professor-titular e que após a revisão do último Verão ficou um emaranhado estranho com 7 escalões para os professores e 4 para os titulares, sendo que no 4º de professor titular ainda não se encontra ninguém. Isto significa qu fazer conversões directas entre o ECD de 1998 e a proposta ministerial de 2009 é algo que não pode ser feito com a ligeireza que Madrinha usa para defender os topos de carreira.
  • Em nenhum momento esta proposta, por si só, corresponde à compra da paz nas escolas. Mas se assim fosse, já não era pouco. Só que não é, porque é insuficiente. A nova proposta beneficia objectivamente quem já está como titular, porque as contingentações propostas para a progressão ficam todas abaixo desse patamar (actual índice 245), enquanto, em contrapartida, surge mais um escalão para a progressão. A proposta prejudica, objectivamente e muito, os professores em início de carreira e até cerca de metade da mesma devido à tentativa de criação de três garrotes na progressão. Por isso, a paz está longe.
  • Aquilo a que Fernando Madrinha dá voz, se ele o quisesse admitir, é ao interesse micro-corporativo de um grupo de professores que já estavam instalados no topo da carreira, sem necessidade de se esforçarem mais para nada, que o anterior ME considerou terem chegado a esse topo sem mérito, e que se sentiam já no direito de comandar e avaliar todos os outros como uma casta de acesso reservado. Agora aparece-lhes mais um escalão para progredirem, perdem o exclusico do poder de mando, e a vida subitamente perde aquele remanso em que já se sentiam. No fundo, Fernando madrinha apreenta-se como o porta-voz de uma facção dentro da classe docente, uma facção que nada tem a perder com a nova carreira única, mas que sentem terem-lhes beliscado o estatuto simbólico de mandantes.

Se Fernando Madrinha quisesse ser objectivo e rigoroso na sua análise faria uma declaração de interesses acerca do tipo de análise que elabora com alguma falta de rigor, não por desconhecimento de causa, mas exactamente pelo contrário.