POSTAL AO PAI NATAL

(De um funcionário público)

Caro Pai Natal,

Começo por pedir desculpa por não te tratar por “Querido..”. Sucede que, infelizmente, já não sou nenhuma criança ( digo “infelizmente porque agora, como sou adulto, e sou funcionário público, já não vivo à custa de outros… os outros é que vivem à custa de mim…). Além disso, não pertenço àquele movimento dos…daquele grupo que…, bem, adiante…

Como és a única personalidade no mundo em quem eu ainda acredito,( vá lá, há mais duas – Obama e o Papa – a quem ainda  dou o benefício da dúvida ),  queria fazer-te três pedidos, correspondentes aos três presentes que espero receber este ano de Ti. ( Por favor, não digas que é demais… Jesus não era “corrupto” e recebeu, pelo menos, os mesmos três…).

Então, esses presentes eram  os seguintes:

O PRIMEIRO ( vai ser difícil… eu sei… mas não deixa de ser o mais fácil de conseguires, entre os três) são sete mil e quinhentos euros para comprar um carro ( em segunda mão, por causa da crise…). Bem sei que não usas carteira, nem tens dinheiro no banco ( por isso é que és tão boa pessoa, ó Pai Natal…). Mas há solução:  se não te importasses, quando chegasses da Lapónia, via Lisboa, passavas pela casa “daquele Senhor” que “congelou” ( vê bem, Pai Natal, “congelou”!… Quando, pela lógica, só tu, que vives no Pólo Norte, é que podias congelar…) o meu salário ( há quatro anos!…). Entravas ( sem ser pela chaminé…) e pedias-lhe “o dinheiro que me está a dever” ( e olha que ele deve-me pelo menos tanto, como o que te peço…). Um aviso de amigo, Pai Natal: Não te deixes enganar! Ele é capaz de cobrar uma percentagem por o ter “guardado”, durante quatro anos, alegando que os seus amigos banqueiros fazem o mesmo, e que é legal…( Nota que ele tem a mania de invocar a lei pra tudo e pra nada …Para ele a Lei está primeiro, e a Justiça, depois…).

O SEGUNDO PEDIDO consiste em aproveitares essa visita para sugerires a “esse Senhor”, que o stress é capaz de lhe estar a fazer mal à saúde, e que lhe estão a fazer falta umas férias…( dir-lhe-ás que o Carnaval seria a altura ideal para o respectivo descanso. Até lhe podias indicar uma ida ao Brasil… Podia ser que gostasse daquele calor – e do samba!… caramba! – e prolongasse as férias “sine die”…pelo menos até ser dado como desaparecido….).

O TERCEIRO PEDIDO é bem mais difícil de o conseguires realizar. Mas mesmo assim vou-te pedir que faças tudo para o consumares. Pedia-te, pois, que, caso o segundo pedido não tenha sucesso, que passasses por Belém ( aproveitavas para ver “o menino”…) e apelavas ao “Chefe da casa…” para imitar um ex-Colega, que ele conhece bem, e desalojasse de vez o tal Senhor de que já te falei, a ver se, ele próprio, começava a dormir mais sossegado …

É tudo, por este ano,

Um abraço da única pessoa adulta que ainda pensa que existes…

Cunha Ribeiro