Comprei ontem este livrinho por um euro nos saldos da Bucholz. É uma publicação de 1977 e simboliza muito do que foi um movimento pedagógico típico dos anos 70 que, depois das denúncias da década anterior (Bourdieu, Althusser e não só) acerca do papel da educação formal e da escola na reprodução das desigualdades e da ordem social, económica e política do capitalismo, avançaria de forma destemida em defesa de pedagogias de carácter emancipatório contra os aparelhos ideológicos do estado liberal, burguês e – obviamente – capitalista e ainda algo colonialista.

Sou sincero: ler Illich e Freire é sempre algo que, mesmo para os não crentes, lava a alma pelo seu vigor, pela dignidade dos objectivos, pela grandiosidade de algumas passagens e – confessemo-lo – pelo carácter inovador destas abordagens naquele contexto histórico.

E é aqui que radica parte do problema. Em especial em relação a Freire há uma parte da sua teorização que mantém sempre alguma actualidade e outra que é muito o fruto de um contexto histórico, cultural e mesmo geográfico localizado.

É uma pedagogia claramente virada para países terceiro-mundistas e para classes sociais oprimidas, afastadas do acesso a qualquer tipo de cultura mais erudita em tempo real, com défice de informação e muitos outros handicaps.

O problema é que a validade de parte destas abordagens caiu em larga escala com a evolução tecnológica e cultural vivida nas últimas duas décadas. Actualmente, ao contrário de quem afirma que há uma homogeneização cultural opressora, o que se constata é que graças às novas tecnologias, nunca foi tão fácil manter ou (re)criar culturas minoritárias de resistência.

Se ainda há zonas do mundo e bolsas sociais desfavorecidas nos países mais avançados onde esta pedagogia da emancipação e exaltação do self-empowerment faz algum sentido, como teorização pedagógica para consumo global o freirismo acaba por transforma-se ou num multiculturalismo vulnerável a muitos equívocos ou numa das modalidades mais daninhas do eduquês, quando não mistura tudo num caldinho de cultura herdado do é proibido proibir e daquelas experiências teóricas algo psicadélicas (com grande popularidade naqueles Fóruns Sociais Mundiais em que o nosso B. S. Santos é um dos maiores gurus) em que a mezinha do indígena da Amazónia vale tanto como a penicilina.

E o seu maior perigo foi a instrumentalização a que foram submetidas as suas abordagens, algo que foi feito de modo muito consciente a partir de meados dos anos 70, como os autores explicitamente admitem:

Para lá deFreire e Illich , o que nos interessa é a elaboração de uma pedagogia política. As críticas que formulámos não significam que tenhamos, em relação a eles, opções ou um quadro teórico mais bem definidos. O que pretendemos simplesmente sublinhar é que, graças a Freire e a Illich, a pedagogia não pode continuar a fechar-se dentro da escola. É chamada a revelar as suas opções políticas, isto é, a definir-se em relação às forças produtivas, ao poder político e à ideologia dominante. (pp. 55-56)

Esta forma de combater a instrumentalização da pedagogia com mais instrumentalização da pedagogia tem dado resultados muito nefastos. A apropriação da pedagogia pela política, seja pelo chamado neoliberalismo, seja pelo neomarxismo, tem sempre efeitos perversos e não é nada de espantar que um Sócrates e um Chávez confluam em torno do Magalhães, esse pequeno aparato democratizador que Freire – como um Bono antes do tempo – não hesitaria em considerar uma ferramenta emancipatória poderosa.

Aliás, se olharmos sem sequer ser necessário muito de perto, o entusiasmo que transborda de uma prosa de Carlos Zorrinho ou outro apologista do novo tecno-mundo não difere muito desse outro entusiasmo que animou tantos dos nossos eduqueses (Benavente, Stoer, Magalhães, Pacheco) da geração de 70.

Desenganem-se aqueles que olharem para as actuais políticas educativas e nelas só encontrarem traços de Direita. De uma forma enviesada, mas nem sempre assim tanto, neste esforço nivelador que é transversal às políticas educativas das últimas décadas, de promoção do sucesso a todo o custo, do discurso virado para a escola para todos e a tempo inteiro, é fácil encontrar o fruto desta sementes de uma Esquerda bem-pensante que, cheia de boas intenções, tornou a escola, em algumas situações, uma antecâmara do inferno (salvo as devidas proporções para o de Dante).