Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2009


Não é propriamente uma contra-proposta. É mais uma apreciação à proposta do Ministério da Educação. Não aponta propriamente soluções alternativas.

Apesar disso, está globalmente correcta e é equilibrada. Não noto grandes diferenças de princípios em relação à da Fenprof.

Já agora, para quando sabemos se a Plataforma Sindical feneceu de vez?

É que a última coisa que gostaríamos de ver era 2 ou 3 micro-sindicatos assinarem qualquer coisa em troca de lentilhas, dando ao ME argumentos para avançar com qualquer coisa menos própria.

Pelo menos enquadrados na Plataforma existia uma posição comum que limitava as variações

Vou dar de barato que é inútil esperar que ele responda às questões que não as suas e voar, de forma planante, pelos remoques variados que nos últimos dias distribuiu em várias direcções, fazendo-me parecer um rapaz calmo e cordato.

Mas pergunta o Octávio Gonçalves:

  • Reconhecem a competência e a seriedade suficientes ao processo de avaliação do 1º ciclo avaliativo para empreender diferenciações objectivas e justas entre os professores de cada escola/agrupamento, de forma a que essas classificações possam introduzir penalizações e vantagens em termos de concursos e de progressões na carreira?
  • Consideram que o Ministério da Educação disporia de força negocial idêntica à que possui actualmente se o modelo de avaliação e o consequente processo de avaliação do 1º ciclo já tivessem sido suspensos pelo Parlamento?

As questões são daquelas tão longas e elaboradas, com condições apriorísticas que condicionam qualquer resposta, que ou se responde curto e grosso ou tem de se ser um pouco mais elaborado na resposta, caso queiramos viver fora do casulo.

A preto e branco as respostas são assim:

  • Não.
  • Não sei.

No mundo real, onde as questões da semântica e da estratégia contam, talvez mais do que compromissos rasgados pelos amigos, e não são ficções, as respostas precisam de ser elaboradas de forma diferente.

Aliás, julgo que os visitantes do Umbigo não aparecem por aqui para ver uma história de bons e maus à moda do bushismo ou de um qualquer revolucionarismo fundamentalista, mas sim para tentarem entender o mundo em que nos vemos para além dos simplismos argumentativos.

Portanto, as respostas reais, perante as condições concretas, são as seguintes:

  • O processo de avaliação não foi desenvolvido com seriedade ou competência para que as classificações obtidas possam ser consideradas como factores diferenciadores a nível de concursos ou de progressão na carreira. Por isso acho que os efeitos para concurso não podem ser admitidos em nenhum caso. Para  progressão na carreira só com uma segunda avaliação coincidente é que os Excelentes ou Muito Bons produzem efeitos, pelo que a questão se coloca de forma menos premente e pode ser solucionada em sede de revisão do ECD e não necessariamente no contexto da ADD. Para além disso, depois de atribuídas as classificações, nem que seja para as emoldurarem, sem efeitos práticos, acho errado que essas classificações sejam anuladas. É a minha opinião. Atire sobre mim quem quiser. Não concorri a nenhuma classificação de mérito, nem espero nunca concorrer, mas não me assarapanta quem o faz. Não faço caça às bruxas, não sei se estou do lado certíssimo da História, nem tenho a pretensão de ser o mais puro entre os puros. Acho que é fácil colocarmo-nos no reduto dos que não cedem em nada, mas que depois se queixam se ninguém lhes dá atenção.
  • Se o Parlamento tivesse suspendido o 1º ciclo de avaliação em meados de Novembro não sei se o ME teria mais ou menos força negocial. O que sei é que o primeiro-ministro teria mais teimosia negocial e, como a revisão do ECD depende do Governo e não do Parlamento, teríamos o imbróglio do artigo 37º por resolver, assim como uma eventual investida de bloqueio das negociações por parte do ME. Perante isso, e sem que tal signifique qualquer incoerência insanável com as minhas posições anteriores, acho que neste momento há um clima negocial bem mais desanuviado e menos tenso do que teríamos em outras condições. Se há quem se alimenta da guerra permanente, eu não. Se há quem prefira o confronto permanente, com o objectivo de ter sempre razão, em vez de resolver os problemas concretos, eu não. Se há quem prefira que as suas posições iniciais sejam as vencedoras em toda a linha, eu não. Se há coisa que desejo é que tudo isto se resolva, desaparecendo a carreira dividida e as quotas para a progressão. Para mim, os Xalentes e Munta Bons são detalhes irrisórios. Talvez como não tenha receio de comparar o meu desempenho concreto – que não depende de validações externas, mas da minha consciência – tudo isso me parecem relativas minudências de quem quer encontrar um rastilho a todo o custo.

Mas agora terminaria eu este post com uma questão ao Octávio Gonçalves e a todo o seu purismo e coerência de posições e princípios:

  • Estará o Octávio em condições de assumir as loas públicas que dirigiu aos líderes da Fenprof e FNE, enquanto grandes faróis da luta dos professores, naquela 4ª feira em que o PSD promoveu uma audiência pública sobre os assuntos da Educação e em que o até-há-pouco-grande-amigo Aguiar Branco prometeu o que depois não fez?

É que se esse elogio era sincero, não se percebe tantas críticas do Octávio à direcção que levam as negociações em que Mário Nogueira e João Dias da Silva têm o papel mais visível enquanto representantes dos professores.

Ou os elogios foram apenas semântica para consumo público, quiçá um acto estratégico para ficar nas boas graças de?

Retirado daquele longo artigo sobre Isabel Alçada que saiu no Público de há uns dias, alongando a sugestão do Mário Silva:

Há dias, em Torres Novas, Ana Maria Magalhães foi almoçar com professores de uma escola onde tinha ido falar dos livros que escreve com Isabel Alçada. Numa mesa próxima estavam sentados docentes de outro estabelecimento de ensino. Um deles não perdeu a oportunidade: “Diga à sua amiga que acabe depressa com os professores titulares, porque eu dou aulas há 30 anos e sempre tive amigos, mas desde que sou titular só tenho inimigos.”

Convidadas por outros professores, as duas autoras tornaram-se uma presença habitual nas escolas. Por causa dos seus livros da série juvenil Uma Aventura e também, desde 2006, no caso de Isabel Alçada, por ser, a convite de Maria de Lurdes Rodrigues, a comissária do Plano Nacional de Leitura (PNL), criado para reconciliar crianças e jovens com a palavra escrita.

Nos últimos anos, ambas foram testemunhas das feridas abertas nas escolas por algumas das medidas aplicadas pela anterior ministra. Como aquela de que se queixava o professor de Torres Novas. Pela primeira vez, a carreira docente foi dividida em duas categorias hierárquicas e no acesso àquela que é superior, a dos titulares, privilegiou-se o exercício de cargos, em detrimento da qualidade na sala de aula.

Aposentada há poucos anos, Ana Maria Magalhães respira de alívio: “Não tive de aturar o que se passou.” Só que agora a sua amiga Isabel Alçada é ministra da Educação. É a primeira vez que este cargo é ocupado por uma professora do ensino básico, mais precisamente do 2.º ciclo. Foi um deles e esta é uma condição que os professores não vão deixar esquecer.

Ana Maria Magalhães assegura que transmitiu o recado de Torres Novas “exactamente” como lhe foi dito. Não foi o primeiro, nem terá sido o último. Diz que “não é possível fazer nada com os agentes de ensino revoltados”. Está disponível: sempre que receber um recado das escolas por onde andar, há-de fazê-lo chegar à ministra. “E ela quererá ouvi-lo”, tem a certeza.

(c) Vandinha