A análise (pessimista) de Santana Castilho hoje no Público tem a sua dose de lógica mas esquece o fundamental: a política, em especial entre nós, nunca foi dada a lógicas.

A urgência de resolução dos milhentos problemas que tornam a vida nas escolas num inferno, e que estão longe de ser os mais importantes de um sistema de ensino sério, dependeria muito mais dos novos inquilinos da 5 de Outubro que de compromissos e programas. Mas com este resultado, a visão estalinista que orientou a Educação nacional não vai mudar. Vai apenas adoçar-se com protagonistas presumivelmente mais delicados, que continuarão a senda de transformação de cada professor num simples funcionário que ensine pouco, preencha cada vez mais papéis, relatórios e fichas, registos de toda a espécie, grelhas, actas e matrizes programadoras de todos os comportamentos, projectos e planos educativos, individuais ou de grupo. Com este resultado, os professores portugueses também não escapam à dicotomia dos resultados: ganharam, tendo perdido.

E agora?

Vamos entrar em jogos complexos que se arrastarão no tempo. Ao desanuviamento antecipável não vão corresponder soluções céleres. O PS perdeu a maioria absoluta mas os professores não se livraram de Sócrates que, agora delicadamente, continuará a querer vergá-los.

Porque a maioria absoluta se foi, a divisão da carreira não desaparecerá facilmente, muito menos a razão de cariz económico (entretanto reforçada com um défice maior que o de 2005) que determinou as quotas. Porque o PS ganhou, Sócrates vai persistir nesta gestão das escolas e nesta avaliação do desempenho, que classificou de instrumentos centrais das suas políticas. Porque Sócrates perdeu a maioria absoluta, Sócrates não pode perder outras coisas. Não pode perder, por exemplo, o sucesso estatístico que fabricou. Não pode, por isso, abrir mão de tudo o que promova resultados sem saber. Não abrirá mão do estatuto do aluno e da indigência que promove, na qual se inscreve a farsa do ensino profissional. A precariedade imposta ao exercício da profissão docente e a sistemática retirada de direitos aos professores não foram meros instrumentos conjunturais. Foram, outrossim, pilares de uma política que será excluída, liminarmente, do pacote de cedências para consumo parlamentar, que o PS estará já a preparar.

Sócrates vai ter que negociar muito sobre muitas coisas. A Oposição não lhe pode impor tudo. E no jogo das trocas, a Educação será sempre um elo fraco. Excepto para ele que deu, pessoalmente, demasiado a cara pelas desastrosas reformas feitas.

Posso estar errado, mas espero que isto não seja a preparação para uma desculpabilização do PSD, no caso de não assumir os seus compromissos nesta matéria.

Não é aceitável que o que se afirmava ir-se fazer caso se fosse Governo, se deixe de tentar fazer enquanto Oposição.

Ou talvez seja.

Se a política entre nós não obedece à lógica, também não obedece à honorabilidade. Mesmo em nome da Verdade.

Eu sei que os compromissos em política são meros circunstancialismos e dificilmente alguém desconfiará mais da vontade dos políticos para cumprirem promessas pré-eleitorais,l mas por aqui passa um aroma de pré-desculpabilização.

Como se alguém se sentisse aliviado por poder lançar o ónus da culpa para os outros, livrando-se das suas responsabilidades.

A este respeito será interessante analisar as posições dos opinadores mais próximos do PSD e se também enveredam por esta pré-disposição para desculpar