José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues bem podem avançar com a sua propaganda, afirmando que tudo se trata de trabalho, imenso trabalho e políticas acertadas.

De acordo com a versão oficial, o insucesso escolar caiu a pique nos últimos 12 anos (a escolha do início da série não foi inocente, mesmo se crucifica de novo o governo de Guterres pelo caminho) devido às seguintes razões:

Os percursos alternativos, os cursos de educação e formação, os planos de recuperação e acompanhamento e outros apoios educativos, especialmente dirigidos a alunos com percursos escolares marcados pela repetência, foram algumas das medidas lançadas que visam proporcionar às escolas meios efectivos de combate ao abandono e ao insucesso escolares.

As medidas de combate ao abandono e ao insucesso escolares permitiram, nos últimos quatro anos,  aumentar o número de estudantes e melhorar os resultados, invertendo uma tendência estável de perda de alunos matriculados e de diminuição do número de alunos a concluir a escolaridade obrigatória, que se registava desde 1995.

Trabalhando com base nos números do ME, da forma como ele os gosta de apresentar de modo linear, podemos ser levados à ilusão da versão oficial ser a correcta e única possível.

Mas para quem conheça rudimentos muito primários de estatística, um pequeno trabalho adicional pode ser feito para perceber a que ritmo se deu a redução do insucesso e quais foram os anos críticos para tal redução. Detectando esses momentos, podemos ir em busca das medidas específicas aplicadas nesse ano e correlacionáveis com essa evolução.

O que eu fiz de forma muito simples – neste caso para o Ensino Básico – foi analisar a evolução do insucesso sobre o ano anterior, sendo o valor de cada ano lectivo a evolução sobre o valor 100.

Os valores encontrados são os seguintes:

Insucesso

O que encontramos aqui? Na maior parte dos anos a evolução do insucesso pautou-se por ganhos de 5 a 10 pontos sobre o ano anterior, excepto no final do período guterrista em que aumentou.

O início do período Barroso/Portas (2002/03 e 2003/04) não é muito diferente, nesse plano, do início do período Sócrates (2005/06 e 1006/07).

Observando bem até é em 2003/04 que se dá uma quebra maior no insucesso (quase 8 pontos em relação ao ano anterior).

Em que momento se dá uma queda abrupta? Em 2007/08, o ano de todos os milagres no nosso sistema educativo, aquele em que até a média dos exames de Matemnática ia ultrapassando os cumes do Himalaia.

E o que podemos encontrar nesse ano lectivo de tão maravilhoso, para além da enorme manifestação de 8 de Março?

Se puxarem um pouco pela cabeça encontrarão uma lei extraordinária de potencial, a Lei 3/2008 de 18 de Janeiro de aplicação imediata a meio do ano lectivo e com efeitos retroactivos, reactivos e pró-activos.

A lei em causa foi o novo Estatuto do Aluno, aquele diploma maravilhoso que tornou parte do abandono estatisticamente indetectável e quase eliminou administrativamente os chumbos por faltas. Para não falar da rebaldaria disciplinar que ia institucionalizando em termos de assiduidade e indisciplina. Nada para que se não tivesse avisado logo.

Claro que a aprovação do Estatuto do Aluno não foi a única razão para a multiplicação dos diplomazinhos e das aprovações, mas lá que é uma coincidência interessante é.

Aliás, como sempre quando os avanços são enorme, repare-se como no presente ano lectivo, a curva já está em inversão (fiz em cor-de-rosa só para chatear).

Insucesso2

A minha proposta para o próximo mandato seria – obviamente – a aprovação de mais um Estatuto do Aluno se possível banindo de vez o conceito de falta e punindo com perdas salariais os Directores de Turma que instaurassem processos disciplinares ou permitissem retenções nos seus Conselhos de Turma.

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