Direcção do PS tenta fazer pazes com os professores

Membro da direcção do PS critica “atitude hostil” da ministra e advoga “nova forma de relacionamento” do ministério com os professores.

Dez meses depois de António Costa, n.º 2 do PS, ter reconhecido que a actuação governamental no sector da educação tinha implicado uma “ruptura afectiva” do PS com parte importante do seu eleitorado (os professores), podendo até custar-lhe a renovação da maioria absoluta, Marcos Perestrello, ex- -vice de Costa na Câmara de Lisboa, membro do Secretariado Nacional (SN) do partido e agora candidato socialista à Câmara de Oeiras, vem dizer que “o ministério da Educação falhou” na tarefa de “motivar e mobilizar” os professores e os “profissionais não docentes para “as novas exigências escolares”, que “dependem muito do seu empenhamento”.

Num artigo no Expresso, Marcos Perestrello (com dois elles) afirma que “foi uma atitude hostil” da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que “deu aos professores um pretexto mobilizador, acabando por transformar uma luta profissional numa luta também política”.

A recente manobra de aproximação do actual PS aos professores peca por tardia, por surgir após diversas manobras habilidosas da actual equipa do Ministério da Educação (lançamento das candidatura a candidato a titular e prolongamento do simplex, por exemplo) , por se estarem à vista de todos os cordelinhos manipulatórios e por ter sido entregue, por enquanto, a uma figura de segunda linha, uma espécie de plastic man da direcção do PS ainda em busca do seu lugar na hierarquia da cadeia alimentar em torno do poder.

Marcos Perestrello surge agora a desdizer o que disse ao longo dos últimos anos. Interessante ainda é como recupera como boa uma frase que Maria de Lurdes Rodrigues repetidamente afirmou não ter proferido – a tal de ter perdido os professores, mas ter ganho a opinião pública – acabando por dar razão directa aos professores na forma como se sentiram injuriados.

Só que tudo isto vem tarde, sem se seguir a actos concretos de desagravamento da tal atitude hostil e entregando, a destempo, as cabeças da equipa ministerial numa salva de estanho prateado à opinião pública, para safar a imagem do partido e do seu Grande Líder, o principal responsável pelo descalabro da relação entre a classe docente, a tutela e o Governo.

O sacrifício público da actual ministra chegou ao ponto de existir já uma mais do que potencial substituta para um próximo mandato, Isabel Alçada de sua graça, figura que muito ganhou simbólica e materialmente com a acção deste governo na área da promoção da leitura e que, apesar das inegáveis semelhanças com Ana Jorge que conseguiu pacificar parcialmente a Saúde, só será aceite – como qualquer outra figura do PS e mesmo do PSD –  com confiança pelos docentes se estiver aberta a desfazer os nós górdios do conflito: divisão da carreira e quotas

O artigo de Marcos Perestrello não passa, neste contexto, de uma habilidade. Aparentemente dá um sinal de mudança da atitude do PS na área da Educação mas – em caso de aperto – poderá sempre ser apontado como um acto individual de liberdade e autonomia da opinião do autor.

É apenas um isco.

E é preciso mais, muito mais. Muito, mas mesmo muito mais, depois dos truques deste Agosto que mais não fizeram do que prolongar o que motivou a ferida ainda aberta e sem sinais de sarar.