Há pequenos fenómenos que, lançados da forma certa, no timing correcto, causam sempre perturbação e desorientam as hostes.

Poderia ser o caso do anúncio da abertura do processo de candidatura à prova para acesso à carreira de titular por parte do Ministério da Educação.

Na sua origem percebe-se que foi esse o objectivo dos mandantes. Apresentar uma espécie de trunfo para aliciar os aliciáveis e, pelo caminho – ao exigir a existência de uma avaliação para poder concorrer – penalizar os mais rebeldes, castigá-los por não terem cumprido as ordens.

No entanto, neste período de descontrole comunicacional do Governo, do ME e do PS (haverá verdadeira distinção entre as três entidades em iniciativas como a das inaugurações das obras de remodelação das Escolas Secundárias?), as coisas não são bem assim.

A forma não foi a certa.

O timing é em grande parte errado.

E os cordelinhos estão à vista de todos.

Os mecanismos manipulatórios cada vez ficam pior disfarçados para todos os que se interessam por analisar estes fenómenos.

Desde logo convém esclarecer que a abertura destas candidaturas não corresponde à abertura de novas vagas para a carreira de titular. Corresponde apenas a uma espécie de sondagem de quem está disponível para concorrer. Quem se inscrever a agora, quanto muito, acede a uma prova que permitirá, em caso de aprovação, depois ir a concurso para titular.

É apenas uma fase inicial, uma primeira barreira, no percurso. A aprovação não significa o acesso a titular.

E sobre isto já se vem falando há um mês ou dois e isso quebrou o efeito de surpresa e o mal-estar na classe docente não diminuiu por causa disso, muito pelo contrário, pois mexe exactamente com os aspectos mais contestados pela larga maioria.

O ME falhou na análise desta situação.

A forma como deu a conhecer que algo existiria – comunicando às escolas a necessidade de membros para os júris das provas – foi canhestra, pois não causou surpresa, mas apenas um rumor de insatisfação que será cada vez maior, à medida que as pessoas se aperceberem que tudo foi feito nas costas dos sindicatos e a meio do período de férias.

E aqui entra a questão do timing.

Todos sabemos que nada disto estará pronto em vida deste Governo. Apenas querem recolher números para usar como arma de arremesso em Setembro.

Do tipo: ahhhh, vocês contestam a carreira, mas estão a candidatar-se.

E apresentar isso à opinião pública como uma domesticação dos professores.

Só que o tempo é curto, é fácil desmontar o truque e o ricochete pode ser fortíssimo.

Aliás, aliado ao conhecimento dos resultados finais da avaliação do desempenho, com todas as suas incongruências, discrepâncias e injustiças, a nível de escola e de escola para escola, o lançamento desta prova prévia pode ser apenas mais um rastilho para incendiar o arranque do ano lectivo.

Algo que o ME ou não previu ou pensa poder usar, em caso de extrema radicalização da luta dos professores, em seu favor na campanha eleitoral para fazer regressar ao PS parte de um eleitorado central flutuante não totalmente convencido pelo PSD actual.

(continua…)