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Conheço S. Miguel há cerca de 15 anos. Acho que conheci os últimos tempos de um período mais natural da ilha, antes da chegada do Desenvolvimento Cesarista, parente insular do Desenvolvimento Cavaquista que o antecedeu no continente.

  • Onde antes existia casario de traça tradicional, a especulação imobiliária fez construir blocos aterradores de apartamentos incaracterísticos, numa zona onde este tipo de construção sreria obviamente desaconselhada.
  • Onde existiam estradas e caminhos rodeados de vegetação natural que eram um regalo para o olhar começaram a rasgar coisas à moda dos nossos IC’s e IP’s, com alargamentos periódicos que cada vez os desfeiam mais e mais. Acredito que com alguns ganhos funcionais em termos de rapidez nas deslocações, mas em muitos casos sem grande nexo que não um sorvedouro de subsídios.
  • As colinas antes cobertas de vegetação e arvoredo com destaque para as criptomérias, vão continuando a ser raspadas até ao tutano para pastagens, resultado da aposta numa monocultura com destino a prazo.

Mas tudo isto traz Progresso, Desenvolvimento, e quem viveu a insularidade e todas as suas dificuldades, nem sempre tem capacidade crítica para perceber que estão a destruir a sua especificidade e um dos seus maiores trunfos. O eixo Ponta Delgada-Ribeira Grande assemelha-se cada vez a qualquer espaço urbano continental e isto não é um elogio. E a doença vai-se espalhando para todos os pontos onde começam a pulular os espaços comerciais abarracados à moda dos nossos subúrbios.

A imagem usada corresponde a uma dessas aberrações nascidas ao lado de um dos passos (usados na procissão do Senhor dos Passos na sua evocação do Calvário) da Ribeira Grande, numa zona caracterizada por diversas outras aberrações consentidas por um poder local modernaço.

Uma dor de alma.