Os últimos 2-3 anos foram, em matéria de avaliação do desempenho docente, tempo quase completamente perdido. Do ponto de vista positivo pode desde já afirmar-se que a principal consequência é termos ficado a saber como não fazer as coisas.

O Ministério da Educação tenta, de modo desajeitado, dar a entender que o relatório encomendado à OCDE valida as suas políticas. Para isso sublinha o elogio feito à tentativa de implementar um modelo de avaliação, mas esquece todas as críticas que são deixadas à metodologia desenvolvida, ao fraco envolvimento dos interessados, à polémica e às tensões despoletadas, à falta de ferramentas válidas e meios humanos qualificados para o efeito, etc, etc, etc. Das 24 conclusões alinhadas, as que o ME pode reclamar como suas são as genéricas, enquanto todas as específicas lhe são contrárias.

Já uma vez aqui escrevi que é obviamente meritório, perante uma porta arrombada, procurar substitui-la, mas que não é colocando qualquer coisa no lugar da porta que se resolve o problema.

Foi isso que o ME fez com a avaliação do desempenho docente. Assinalou as falhas do modelo anterior e quis substituí-lo. Só que o fez com fundamentos errados, uma metodologia mistificadora, hostilizando aqueles que teriam mais interesse num bom modelo de ADD e apostando numa estratégia comunicacional destinada a tentar aliciar a opinião pública contra os privilegiados professores.

Desde o início que muitos disseram, gritaram e desfilaram que o modelo era mau, não pelo que procurava fazer, mas como o procurava fazer. Porque os fins não justificam todos os meios. Não podem.

Agora, depois da incapacidade óbvia de implementar o que estava legislado no 2/2008 para além de umas dezenas ou uma ou duas centenas de escola, após duas simplificações forçadas do modelo para fingir que ele é implementado, ainda antes de se terem os resultados finais desta manta de retalhos, os estudos encomendados pelo próprio Ministério são unânimes na reprovação do modelo legislado.

O que é uma coisa fabulosa: três estudos encomendados pelo ME desdizem aquilo que o ME queria que fosse aplaudido.

Lembram-se quando diziam que os pareceres jurídicos que solicitámos, por serem pagos, diriam o que quiséssemos?

Pelos vistos não é assim. Afinal ainda há quem, apesar de uns manejos retóricos, seja incapaz de colocar a sua credibilidade em causa por algo de manifesta má qualidade.

Há que ser claro: a avaliação dos docentes não esteve nunca em causa. É residual a proporção de professores que contesta a sua necessidade. Acredito mesmo que alguns serão dos que, nesta versão, até se candidataram a classificações de mérito. Porque este modelo é óptimo para promover a mediocridade à excelência, desde que se aposte na representação da prática.

O que sempre esteve em causa foi a má qualidade deste modelo, a sua deficiente fundamentação teórica e a sua péssima forma de implementação.

Nesta matéria, o Ministério da Educação falhou fragorosamente.

Fez-nos perder dois anos em disputas desnecessárias, porque afinal são as suas próprias encomendas que provam o que os críticos do ME sempre disseram: este modelo de ADD está mal concebido e é um erro aplicá-lo, sem ser alterado.

Mas para salvar a face de Rodrigues, Sócrates, Lemos & Pedreira somos obrigados a sofrer os efeitos de uma medida errada que os estudos do CCAP, da Deloitte e da OCDE demonstram.

O que foi o corolário do trabalho dos homens de cinzento da Educação & Finanças é reconhecido como mera base de trabalho para a construção de um modelo sério de ADD.

Mandaria o decoro que quem apoiou desde o início o 2/2008 e o quis implementar à força nas suas quintas e feudos particulares – a começar pelo grupo dos 13, mas disseminado por caciques locais – viesse agora reconhecer que estava errado(a).

Só que esta gente não tem a capacidade de admitir que errou, que abusou dos seus poderes e competências, que coagiu colegas, que os ameaçou e se prepara para vendettas pessoais sobre quem estava certo desde o início.

Punir aqueles que desde sempre discordaram deste modelo, em especial quando feito por quem estava efectivamente do lado errado da História, é uma iniquidade. Mas é algo que só satisfará os tiranetes a curto prazo. Porque eles sabem , ou deveriam saber, que o tempo é o grande escultor. E quando acaba de trabalhar as excrescências desaparecem e fica à vista a essência radical de tudo.

Sic transit gloria mundi.