No plano político, poder-se-ia dizer, mesmo, que boa parte da política do executivo se caracteriza pelo chico-espertismo (taxa moderadora na Saúde, certas cláusulas do Estatuto do Aluno e muitas outras medidas na Educação, como certas iniciativas da reforma fiscal que retiram pequenos privilégios aos contribuintes, cêntimo a cêntimo) com que o governo aparentemente facilita a vida dos portugueses sem lhes dar a substãncia correspondente, tornando-os oficial e legalmente verdadeiros chicos-espertos. Assim, a governação de Sócrates institucionalizou práticas e um espírito geral que se caracteriza pelo desvio á lei, pelo «desenrasque» mais ou menos clandestino. Mais: toda a máquina de propaganda do Governo, vital para o regime, se funda no chico-espertismo. Apresentam-se estatísticas que nada dizem sobre a substância a que se referem, ou modificando as suas fontes (por exemplo, um relatório sobre o Ensino Básico em Portugal feito por uma agência privada, segundo as regras da OCDE, como se tivesse sido realizado pela OCDE), manipulam-se os números não os contextualizando, etc. Neste sentido, não é exagerado afirmar que o chico-espertismo está genuinamente a infectar a execução das reformas, retirando-lhes visão, alcance e coragem. (José Gil, Em Busca da Identidade – O desnorte, 2009, pp. 31-32)

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