A propósito do assunto que ontem à noite ocupou parte do noticiário da SIC – gravação da forma como uma professora se dirigia aos alunos numa sala de aula – e que foi abordado neste post, apercebi-me – caso já não o soubesse – que existe em muita gente um duplo padrão de conduta e de apreciação dos factos (alegados ou reais) em algumas matérias.

Vejamos:

  • Há quem ache que estar a expor este caso em praça pública está errado porque implica uma espécie de julgamento prévio da pessoa visada. Compreendo, mas discordo. Em especial quando quem defende isso, surge de forma inflamada a querer a exposição pública de outros casos, para outras pessoas, em especial quando ocupam cargos públicos de responsabilidade.
  • Há ainda quem considere que a SIC está em busca de audiências ao apresentar a dita gravação. Gostaria de saber a opinião dessas pessoas sobre a apresentação das gravações feitas sobre o caso Freeport pela TVI. Haverá quem alegue que são casos de natureza diferente mas, em minha opinião, o tratamento comunicacional é paralelo, com a diferença que ali temos uma gravação com a própria pessoa e em outro caso temos uma gravação em que falam sobre terceiros não presentes.

Em consciência, acho que qualquer dos casos merece divulgação pública. Se, como já disseram, a situação da docente – com ou sem estado de perturbação psicológica – já era conhecida na escola, mais grave é que a deixassem prolongar. Por isso, a denúncia é correcta. E, como escrevi, a docente deve ser suspensa enquanto se apuram os factos. Acho que é a forma correcta de proceder. Acho o mesmo, por exemplo, quanto ao caso do procurador Lopes da Mota.

Também em consciência, acho que nada justifica reacções de alarido, e aparente cegueira, por parte de quem acha que isto é tudo uma imensa tramóia e apontam timings suspeitos para a exposição deste caso. Poderíamos dizer o mesmo de muita outra coisa. Também não acho que eventuais actos incorrectos, fortemente incorrectos, por parte de uma colega professora possam ser justificados com comportamentos equivalentes de alunos ou encarregados de educação.

O erro alheio pode contextualizar o nosso mas nunca legitimá-lo.

Lamento a aparente impopularidade e não-corporativismo da minha opinião – que nãoi equivale a um linchamento público mas ao desejo de esclarecimento cabal dos factos, daí o “suspenda-se para averiguações” – mas não posso aceitar quem usa de duplo padrão para avaliar estas situações: a denúncia pública só é válida para os «outros», para os «adversários», mas para os «nossos» deve ocultar-se?

Tenho pena, mas a sala de aula também é um espaço público e eu gostaria que todos nós tivessemso padrões de exigência para com a nossa conduta superiores aos que são admitidos para os outros grupos profissionais, incluindo os políticos.

Porque, ao contrário do que se afirma, a imagem pública dos professores não está em baixa. Muito pelo contrário. Não estraguem tudo, ao querer varrer o que é incómodo para debaixo do tapete.

O silenciamento forçado nunca é a política certa.