Os presentes sabem que foi tudo ainda melhor e que as intervenções da colega Rosário Gama foram o ponto alto da noite (e eu também sei que ela me pediu para não esticar a corda, mas a verdade é a verdade… 😉 ).

Porque estou aqui

Antes de fazer referência ao livro, quero começar por contar como fiz a adesão ao blog com o mesmo nome e que, desde que o “descobri” foi de consulta diária. Achei interessante o nome.

Ouvia falar da “Educação do Meu Umbigo” e pensava, que ao escolher este o nome para um blog, o blogger ou era narcisista, ou de uma grande humildade: narcisista, tendo em conta que, mitologicamente, “umbigo” era visto como “o centro do mundo, o ponto mais importante” e nesse sentido, o Paulo teria como finalidade tornar-se o centro da Educação; Humildade porque essa formação umbilical, que representa simbolicamente o último elo físico de ligação maternal, mais ou menos “afundado”, remete para a sobrevivência solitária, em que a reflexão intimista  é mostrada aos outros e aguarda julgamento.

E o julgamento não poderia ter sido melhor: O Blog do Paulo foi, na verdadeira acepção da palavra, o “orientador” diário dos professores, daí a designação de “blog bandeira” pois através dele, para além da divulgação da legislação, apresenta um olhar crítico à mesma, foi uma espécie de vasos comunicantes (amizades que se estabeleceram), reuniu uma classe dividida, foi um blog catártico (fuga ao desespero de inúmeros professores), foi o indicador da autonomia do pensamento dos professores, levando-os a pensar por si próprios, (e quando se destacam, logo mos associam a pretensões políticas) foi, em suma, uma forma de generosidade e partilha com os outros, para além de uma excelente escrita, com adesões em crescendo e que culminou com acessos na ordem dos 30000 diários, o que significa que poucos professores lhe foram alheios.

O livro, que “antes de ser já o era”, relato de uma história triste, transmite-nos uma análise lúcida e sequencial dos pressupostos que têm sustentado as medidas educativas do ministério e das consequências da aplicação dessas mesmas medidas. Tal como o Paulo também eu sou contra o Estatuto da Carreira Docente, mas o modo como o autor utiliza o humor no meio da tragédia que este normativo representa para os professores está bem patente no modo como o apelida – Estatuto da Escravidão Docente! Este tema é transversal a  toda a obra com direito a vários posts, quer antes da sua publicação, quer após a mesma; Em 30 de Maio de 2006 a análise feita ao estatuto por essa altura posto à discussão é premonitória ao alertar para os equívocos, erros, omissões, injustiças profundas, incongruências e factores de distorção que o mesmo contempla.

Encontramos no livro uma visão desmistificadora de um mundo de gabinete suportado pela inquérito/mania criada no Mistério da Educação, alheio à vivência da realidade escolar, e, citando o autor, apoiado em “manigâncias estatísticas”  (confira-se na página 72 e outras…(pag. 257- Mascarar as estatísticas sobre o abandono escolar,  na sequência da  aprovação do Estatuto do aluno;  pág. 285 – truques administrativos para promover o sucesso;  Págs 170 e 291 – Violência nas Escolas – nunca existiu…(pág.345)”deu muito nas vistas…o sucesso nas provas de aferição, os resultados dos exames de matemática…

Avareza; inveja, soberba e preguiça, são segundo o Paulo, os 4 pecados mortais cometidos contra os professores o que leva necessariamente à urgência de uma ida confessionário, antes do julgamento que o tempo e a história farão.…(página 188).

Haverá ainda mais uns pecados (desta vez três) pelos quais somos responsáveis (pag. 255, só que estes não são pecados mortais…mas que nos desmoralizam!

Novamente premonitório o post colocado a 26 de Novembro de 2006 sobre o que nos espera em 2007. É referido o desânimo generalizado que se instalou na classe docente e nas consequências para a Escola resultantes da degradação do clima de trabalho devido à existência de quotas para titular. “Andamos cinzentos e tristes (pag181) “Uma classe à beira de um ataque de nervos”…(pag 69) Aulas de substituição. É o Requiem para o trabalho em equipa, quando os envolvidos estiverem em competição directa pelo mesmo tipo de recompensa final.

Mas depois também há os que andam menos tristes e neste grupo temos “os mais papistas que…” “os amigos do sempre foi assim”(182 a 184), os “adesivos” (pág 309)

Aliás, o Requiem é para a Escola Pública com o ambiente gerado pelo modelo avaliação de Professores, quer o inicial (2/2008, quer o “simplex” 1-A/09 apelidado e muito bem de “farsa” na pg  362. E coloca-se a questão: O bom Professor é …? (pag. 115) e daí podemos “saltar” para o post “O ministério da Eugenia” (pg. 77) (os docentes estão condenados a ter uma saúde de ferro para poderem progredir na carreira) “eugenia” essa a que regressamos na página 220 a propósito do concurso de titulares – o retorno eugénico.

E já agora… sabem que em 25 de Outubro de 2007, o Paulo dizia que “em 2009 até as galinhas terão dentes?!”” Ainda não desesperei de encontrar no Continente de Coimbra galináceos com essa mutação mas acredito nela (pág 284) pois os truques administrativos para promover o sucesso e mascarar o abandono já andam por aí…

Praticamente todos os temas que envolvem os problemas da escola são abordados neste livro sob títulos de “posts” muito sugestivos que sugerem uma leitura descontraída e ao mesmo tempo reflexiva. Já agora que referi os pecados, tenho que me render aos “dez mandamentos do formador adesivo” (pag. 374) que vos convido a professar…

Para além das análises, o livro “Educação do meu Umbigo, apresenta sugestões e alternativas “porque a missão da crítica não se deve limitar à anotação do que está errado no que existe e levantar obstáculos à mudança, mas têm como objectivo demonstrar que há algo para além dos modelos extremados que entraram em confronto mais aberto durante o ano de 2008 (pag380).

Temos que agradecer a este cronista do nosso tempo que sem ele muitas coisas teriam passado ao lado dos professores. Para além do interesse que tem na perspectiva da Educação é um documento sobre a crónica de uma morte que não foi anunciada mas que se adivinha relativamente à Escola Pública.

Professores como o Paulo surpreenderam o país e sobretudo o Ministério que julgava que comandava uma massa acrítica, cuja única contestação/expressão era feita pela via corporativa/sindical.

Maria do Rosario Gama