Sexta-feira, 24 de Abril, 2009


Maximo Park, Apply Some Pressure

Aparelho de alarme dá resposta ao xixi na cama

Foi cá uma andorinha que me sussurrou. O que tem a sua graça, atendendo a este meu post de dia 19 e à sua conclusão:

Discutir a sério, meus caros, nunca é sinal de fraqueza ou divisão. Discutir a sério é sinal de força e vitalidade. Não discutir ou evitar o confronto público é que é sinal de fraqueza. Aprendam com o passado recente alguma coisa.

Mas espero – com toda a sinceridade – estar errado e a consulta de 20 a 24 de Abril me demonstrar que tudo está em aberto.

Nesse caso, darei a mão à palmatória. Nem que marquem a manifestação para dia 15 ou 23, só para mostrar imensa abertura à opinião dos professores.

Eu gostava de dar a mão à palmatória, mas que não fosse apenas com a mudança de data da manifestação.

Por duas razões, que nem me vou alongar muito a expor, por causa das coisas.

  • Porque a participação na semana da consulta está a ser muito abaixo do esperado e qualquer decisão baseada na amostra em causa será sempre muito frágil. Aliás, penso que seria bem mais útil reflectir sobre as causas da baixa participação  e, em vez de estarem a preparar o cenário da retirada no final do ano lectivo nos bastidores, tentarem perceber onde está a origem do problema.
  • Porque a classe docente não pode funcionar como primeira linha e carne para canhão de uma estratégia mais global de confronto político, sem que estejam garantidas contrapartidas caso ela resulte. Lamento mas – sou tacticista e para além disso realista – actos de sacrifício colectivo em nome do bem comum não se devem fazer apenas em troca de elogios no momento do funeral. Para bons entendedores…

E agora não me venham dizer que estou a alinhar com isto e aquilo, porque já expliquei que não foi à minha custa que este Governo chegou ao poder, nem será com ele que o primeiro fax continuará. Mas também não gosto que usem o meu grupo profissional como isco ou diversão…

Só com papel passado e garantia…

Nem me digam que é por causa dos textos e comentários de um ou outro blogue que houve baixa participação na consulta. Como o presidente do CCAP pretendeu quanto à contestação em torno da ADD. Nem eu tenho tais delírios de grandeza.

Não é devolução de simpatias, coisa que raramente pratico, mesmo em situações convenientes, o que me fez ganhar alguma fama (e proveito) de mal educado.

Mas o Almocreve das Petas foi sempre um dos meus blogues de estimação, por muitas razões, a principal das quais o amor evidente pelos livros. Não é por acaso que fez parte da primeira selecção de links do umbigo. Não remeto muito para lá, porque é mesmo um prazer muito pessoal.

Ser objecto deste post é algo inestimável.

blushing1

Mail enviado ao grupo parlamentar do PSD:

Ex.mos. Srs.
No dia 22 de Abril, na AR , no debate com a presença do primeiro ministro, o senhor deputado Paulo Rangel comparou o estado do ensino à violência doméstica: “o governo a bater nos professores, os professores a bater na escola… (sic)

Não querendo discutir a metáfora (pouco feliz, de resto, na minha perspectiva), e esperando que tenha sido apenas um lapso, queria deixar claro que os professores (perdoem-me a arrogância do plural) se estão a bater PELA e não “contra” a escola pública.

Aproveito ainda para lamentar que o GP do PSD não se tenha disponibilizado para se associar aos GP que se uniram para subscrever um pedido de fiscalização sucessiva do modelo simplificado de avaliação, que se encontra em vigor.

Grata pela atenção dispensada e esperando o esclarecimento possível:

Ana Mendes da Silva, cidadã, encarregada de educação e professora do GR 300 na Escola Secundária da Amadora

Comentário: Eu até gosto do Paulo Rangel, que acho rapaz (é quase das minhas idades, acho que me posso dar a estas liberdades…) inteligente, civilizado e mais umas quantas coisas. O problema é que há coisas que, em determinadas circunstâncias, mais valia serem pensadas antes de ser ditas.

O individual e o colectivo

Somos seres pensantes e seres sociais. Em condições “normais” conseguimos pensar/ reflectir sobre o que nos rodeia, mas o nosso pensamento sofre várias influências da sociedade em que nos inserimos.
Ainda assim, quando estimulado, o pensamento  leva-nos a equacionar e até criticar algumas ideias de outros com as quais, simplesmente, não estamos de acordo.

Serve isto como preâmbulo para o que tenho andado a pensar.

Quando praticamente toda uma classe profissional (os professores dos ensinos básico e secundário) se dispos a unir-se numa luta contra o ECD e o modelo de avaliação imposto, isto significa que, apesar das influências dos do lado, havia uma unidade de pensamentos. Ao fim de vários anos de conformismo, houve uma lei que despoletou a indignação geral. Penso não existir um único professor ( ser pensante) que possa concordar com esta divisão da carreira, que, quase aleatoriamente, estabeleceu 2 categorias e responsabilizou uma pela avaliação e progressão da outra.

Conceber formas de luta com que todos concordem é bem mais difícil.
No entanto, julgo ser um acontecimento histórico ( e não só em Portugal), que uma classe profissional se tenha manifestado na sua quase totalidade 2 vezes no mesmo ano; ainda mais notória foi a disponibilidade de mais de 90% terem aderido a uma greve.

Uma força destas consegue-se uma vez por geração, talvez nem isso.

Nessa altura, o individual era também o colectivo.

O que “esvaziou” essa luta?
Ainda em jeito de pré-balanço, parece-me que todos devíamos reflectir sobre isto, porque TODOS somos responsáveis: os que desistem, os que julgam ser os detentores da razão, os que se perdem nas lutas pelos protagonismos, os que militam e os que são “amadores” nestas lides ( como eu).

Pela minha parte, senti necessidade de avançar no terreno ( escola) com a contestação que via nas ruas. Não entreguei os Objectivos, porque me parecia o único contributo individual coerente. Não quis ser avaliada por um modelo que rejeito absolutamente. Em coerência, gostava de poder levar isto até ao fim, não entregando a ficha de auto-avaliação.

Mas a luta não é só individual, embora tenha de ser sempre, também, a luta de cada um que, fazendo parte de um todo, contribui para o colectivo.

Não critico ninguém, mas penso que, por uma questão de honestidade, este assunto não devia ser tratado com ligeireza.
Posso aceitar argumentos estratégicos de quem, mais habituado a estas “lutas”, reconhece não haver condições para tal. Teria havido em Março ou em Novembro? Talvez…
O que não aceito é ouvir/ ler de companheiros de luta que o que não quero é ser avaliada.
Isso não é um argumento sério. Eu aceitaria ser avaliada num modelo justo e nunca por alguém a quem não considero competência para tal  foi isso que este modelo criou: a injustiça de atribuir a uns a missão de avaliar os seus pares, mesmo que sem diferenciação entre as partes).
A minha luta individual contra ESTE modelo começou quando não entreguei os Objectivos  e devia terminar quando não entregasse a Ficha de Auto-avaliação.

Reb

O triunfo dos animais

Um conto de Abril

“Quatro patas bom, duas pernas mau”.

George Orwell

Era uma vez uma quinta habitada pelos diferentes animais que vivem numa quinta. Num passado remoto eclodira aí uma revolução que devolveu a todos os animais da quinta a democracia, isto é, a liberdade para se exprimirem e para escolherem aqueles que deviam representá-los e orientá-los na gestão colectiva da quinta. Muito depois desses tempos gloriosos e míticos, a quinta passou a ser administrada por um regedor que foi eleito pela maioria dos residentes da quinta. Antes de assumir tão grandes responsabilidades, o dito regedor comprometeu-se a trabalhar pelo progresso da quinta e pelo bem-estar de todos aqueles que aí viviam. Mas, após a eleição, esqueceu-se das obrigações e promessas então celebradas e foi transformando, paulatinamente, a quinta que era de todos numa reserva sua.

O tempo foi passando, a maioria das quintas vizinhas prosperando e a reserva do regedor definhando. A falta de trabalho aumentou produzindo um desventurado cortejo de calamidades sociais; as infra-estruturas caducaram; muitos dos melhores ou mais jovens obreiros, não vislumbrando perspectivas de futuro no território da reserva, migraram para paragens mais promissoras; as relações entre o regedor e os restantes animais da reserva deterioraram-se.

Indiferentes aos deprimentes sinais do tempo, o regedor e os seus mais fiéis servidores, irremediavelmente extasiados pelas fragrâncias inspiradas na casa grande da reserva, interiorizaram e publicitaram a sua representação do seu pequeno mundo. Para eles, a reserva era uma espécie de oásis celeste exemplarmente governado, embora minado por perpétuas e tenebrosas conspirações.

Depois chegou o inevitável tempo das purgas a adversários e a velhos aliados, que sulcou um fosso ainda mais profundo entre a pequena elite de animais que fruía do poder, dos meios de produção, dos rendimentos e mordomias da reserva e a maioria dos animais sem poder que trabalhavam arduamente e desse modo contribuíam para os proveitos materiais e espirituais da reserva.

Apesar do declínio evidente da reserva e das manifestas incapacidades e iniquidades do regedor, o ambiente de “paz podre” entranhou-se. O medo, a subserviência, a resignação, o pragmatismo, a inveja, a falta de criatividade e de habilidade, tudo isto tolhia os animais entretanto considerados menos iguais a darem o corpo e a alma a um manifesto viável que reivindicasse, pela via democrática, a deposição do regedor. Por sua vez, este, orgulhosamente só, aprendeu, com a experiência e a sua refinada intuição política, a eliminar os putativos sucessores, a silenciar todos os opositores, e, sempre no momento oportuno, a conquistar, sub-repticiamente, o apoio das turbas.

Até que, num dia resplandecente de Abril, o destino, sempre tão ardiloso, resolveu alterar este status quo e devolver a esperança a todos os animais da reserva – os quais voltaram a acreditar na possibilidade de resgatar o legítimo significado cívico da ancestral, jovial e promissora quinta dos tempos lendários da revolução.

Luís Filipe Torgal

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