Sobre os sapos sucessivos que nos obrigam a engolir

Basta, já chega de engolir sapos!

Primeiro, foi a saída do estatuto da carreira docente. Uma coisa muito bem edificada, sim senhores, do ponto de visto teórico, mas com resultados muito perversos e muita desadequação prática. Dir-se-ia que é como uma aula muito bem preparadinha, mas que, quando implementada, não resulta. Quando isso acontece, há que parar, suspender, analisar, redefinir o plano, as estratégias, adequar aos intervenientes todo o processo, etc., etc, etc.. Era o que devia já ter sido feito com o tal dito cujo.

Depois, o primeiro concurso para professor titular. Nem todos os cargos contaram, nem toda a participação na vida da escola resultou em pontos. Quem esteve fora da escola, por motivos válidos e para benefício da mesma e dos alunos, descontou. Valeu tudo, até pôr a língua de fora deu pontos. Foi uma corrida aos pontos, um ver-se-te-avias, se te sai o titular na farinha amparo. 99 pontos não foram suficientes, pois, no nono escalão, não bastavam 94 ou 95, ou lá o que era, e tinha de haver uma seriação por ordem decrescente (as tais queridas quotas). E nós a explicarmos às outras pessoas o que estavam a fazer connosco e elas a não perceberem (ou a não quererem perceber – esperem queridos, que quando vos bater à porta já é tarde!)

De seguida, ver colegas teus, a continuarem a progredir na carreira, porque passaram aos tais titulares (com menos habilitação académica que tu, mas isso é o que menos importa, para esta gente). E tu não. Tu estás encalhado, ou melhor, congelado (para não falar nos dois anos e meio em que todos estiveram). Agora tens que esperar, prestar a prova pública e ser aprovado, estar 6 (?) anos no escalão em que te encontras, ter sido opositor a outro concurso de titulares. Não falemos do concurso extraordinário para professores titulares, aquele que apareceu à escondidinhas, em Junho ou Julho. Esse foi de rir. Isso mesmo, uma piada.

Depois, a avaliação docente  (os mais crentes falam em ADD para cima, ADD para baixo, a torto e a direito), as mega manifestações (feitas por aqueles que supostamente estão contra quem chega a horas), os abaixo-assinados, as moções, os sindicatos a aproveitarem a boleia dos professores, o desentendimento nas escolas, os alunos a terem piores aulas, a ressaca com os alunos, o estatuto do aluno, os alunos a portarem-se pior, os professores a não entregarem e a entregarem objectivos, o Garcia Pereira a dar o seu parecer, a ministra a fazer dos conselhos executivos os carrascos, os conselhos executivos a não quererem desempenhar esse papel, a engolir mais este grande sapo, descalça lá essa bota, que não fomos nós que provocamos isto tudo.

Agora, os vínculos laborais, os concursos (pois é, está tudo ligado, não é?), o pairar no ar que este é o último concurso nacional, os professores a ficarem sem quadro, sem quadro de zona pedagógica, sem vagas, sem alunos, os Directores a poderem vir contratar directamente o pessoal, os professores a irem bater às capelinhas de currículo na mão (os mais velhos, mais desgastados e com mais falta de paciência para essa marmelada; os mais novos,  mais espevitados,  a darem mais jeito, por ganharem e reclamarem menos).

Depois, é dizer que vão todos para o raio que os parta, que eu estou farta de engolir sapos.

Rosa Henriques

Professora, Lisboa