O secretário de Estado Jorge Pedreira deu-se hoje ao esforço de qualificar os professores que não entregaram os OI como os coitadinhos que não cumprem a lei.

Não vou entrar pela vereda de afirmar que os democratas também não cumpriam todas as leis do Estado Novo, sendo desse ponto de vista (e de outros) uns coitadinhos.

Nem sequer vou considerar novamente acintosa esta linguagem, como desrepeitosa a atitude muda e queda de Maria de Lurdes Rodrigues que, após dizer que ia «divir» as respostas com os seus auxiliares, ficou o resto do tempo sem responder a ninguém.

No trio da 5 de Outubro há uma imensa falta de cultura democrática, mas isso já sabíamos.

Mas o que me ocupa aqui é mesmo o secretário Pedreira, ele sim um coitadinho dos verdadeiros que, vendo-se detentor de um cargo político por obra e graça de jogos de nomeação política, é obrigado a ir ao Parlamento responder a deputados que – por muitos defeitos que a nossa democracia tenha – ainda foram efectivamente eleitos.

Porque o secretário Pedreira, tal como o secretário Lemos e a ministra Rodrigues, é um coitadinho merecedor do nosso dó pois interrompem a sua denodada acção governativa para se ir explicar ao Parlamento. O que me parece inconcebível.

Pior, fazem-no dar explicações sobre reles professorzecos que insistem em não fazer aquilo que a lei efectivamente não obriga a fazer. Coidadinho dele.

E coitadinho dele ainda mais porque, depois de achar que todos os zecos incumpridores devem ser castigados em termos de progressão e «concurso» [sic], acaba a declarar que até pode não ser assim, tudo depende dos órgãos de gestão porque a lei é geral e abstracta, mas depois é aplicada caso a caso.

Coitadinho de quem é obrigado a tamanho exercício de contorcionismo intelectual.

Quanto a todos nós, somos coitadinhos porque o temos de aturar, mas ao seu tom de escárnio constante para com aqueles muitos milhares de professores que ousam discordar das leituras arrevezadas que o secretário Pedreira tem das leis que emanam da 5 de Outubro, elas próprias uma manta de retalhos de escasso sentido.

E coitadinhos de nós porque ainda tivemos de levar com o secretário lemos a tentar ser jocoso com os deputados acerca dos dados da violência escolar.

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