Quarta-feira, 25 de Março, 2009


embrulho021

O embrulho final que o Teodoro me entregou… com o jardim dele em fundo.

Sobre os sapos sucessivos que nos obrigam a engolir

Basta, já chega de engolir sapos!

Primeiro, foi a saída do estatuto da carreira docente. Uma coisa muito bem edificada, sim senhores, do ponto de visto teórico, mas com resultados muito perversos e muita desadequação prática. Dir-se-ia que é como uma aula muito bem preparadinha, mas que, quando implementada, não resulta. Quando isso acontece, há que parar, suspender, analisar, redefinir o plano, as estratégias, adequar aos intervenientes todo o processo, etc., etc, etc.. Era o que devia já ter sido feito com o tal dito cujo.

Depois, o primeiro concurso para professor titular. Nem todos os cargos contaram, nem toda a participação na vida da escola resultou em pontos. Quem esteve fora da escola, por motivos válidos e para benefício da mesma e dos alunos, descontou. Valeu tudo, até pôr a língua de fora deu pontos. Foi uma corrida aos pontos, um ver-se-te-avias, se te sai o titular na farinha amparo. 99 pontos não foram suficientes, pois, no nono escalão, não bastavam 94 ou 95, ou lá o que era, e tinha de haver uma seriação por ordem decrescente (as tais queridas quotas). E nós a explicarmos às outras pessoas o que estavam a fazer connosco e elas a não perceberem (ou a não quererem perceber – esperem queridos, que quando vos bater à porta já é tarde!)

De seguida, ver colegas teus, a continuarem a progredir na carreira, porque passaram aos tais titulares (com menos habilitação académica que tu, mas isso é o que menos importa, para esta gente). E tu não. Tu estás encalhado, ou melhor, congelado (para não falar nos dois anos e meio em que todos estiveram). Agora tens que esperar, prestar a prova pública e ser aprovado, estar 6 (?) anos no escalão em que te encontras, ter sido opositor a outro concurso de titulares. Não falemos do concurso extraordinário para professores titulares, aquele que apareceu à escondidinhas, em Junho ou Julho. Esse foi de rir. Isso mesmo, uma piada.

Depois, a avaliação docente  (os mais crentes falam em ADD para cima, ADD para baixo, a torto e a direito), as mega manifestações (feitas por aqueles que supostamente estão contra quem chega a horas), os abaixo-assinados, as moções, os sindicatos a aproveitarem a boleia dos professores, o desentendimento nas escolas, os alunos a terem piores aulas, a ressaca com os alunos, o estatuto do aluno, os alunos a portarem-se pior, os professores a não entregarem e a entregarem objectivos, o Garcia Pereira a dar o seu parecer, a ministra a fazer dos conselhos executivos os carrascos, os conselhos executivos a não quererem desempenhar esse papel, a engolir mais este grande sapo, descalça lá essa bota, que não fomos nós que provocamos isto tudo.

Agora, os vínculos laborais, os concursos (pois é, está tudo ligado, não é?), o pairar no ar que este é o último concurso nacional, os professores a ficarem sem quadro, sem quadro de zona pedagógica, sem vagas, sem alunos, os Directores a poderem vir contratar directamente o pessoal, os professores a irem bater às capelinhas de currículo na mão (os mais velhos, mais desgastados e com mais falta de paciência para essa marmelada; os mais novos,  mais espevitados,  a darem mais jeito, por ganharem e reclamarem menos).

Depois, é dizer que vão todos para o raio que os parta, que eu estou farta de engolir sapos.

Rosa Henriques

Professora, Lisboa

aniv3

Ela ainda não escreve, mas parece que ditou o essencial, com mais uns retoques.

aniv2

Não desmerecendo ninguém, ao Teodoro que teve a missão de embelezar e entregar toda a encomenda, sendo que a obra do Antero já está encostada à parede que lhe foi destinada.

aniv1

O secretário de Estado Jorge Pedreira deu-se hoje ao esforço de qualificar os professores que não entregaram os OI como os coitadinhos que não cumprem a lei.

Não vou entrar pela vereda de afirmar que os democratas também não cumpriam todas as leis do Estado Novo, sendo desse ponto de vista (e de outros) uns coitadinhos.

Nem sequer vou considerar novamente acintosa esta linguagem, como desrepeitosa a atitude muda e queda de Maria de Lurdes Rodrigues que, após dizer que ia «divir» as respostas com os seus auxiliares, ficou o resto do tempo sem responder a ninguém.

No trio da 5 de Outubro há uma imensa falta de cultura democrática, mas isso já sabíamos.

Mas o que me ocupa aqui é mesmo o secretário Pedreira, ele sim um coitadinho dos verdadeiros que, vendo-se detentor de um cargo político por obra e graça de jogos de nomeação política, é obrigado a ir ao Parlamento responder a deputados que – por muitos defeitos que a nossa democracia tenha – ainda foram efectivamente eleitos.

Porque o secretário Pedreira, tal como o secretário Lemos e a ministra Rodrigues, é um coitadinho merecedor do nosso dó pois interrompem a sua denodada acção governativa para se ir explicar ao Parlamento. O que me parece inconcebível.

Pior, fazem-no dar explicações sobre reles professorzecos que insistem em não fazer aquilo que a lei efectivamente não obriga a fazer. Coidadinho dele.

E coitadinho dele ainda mais porque, depois de achar que todos os zecos incumpridores devem ser castigados em termos de progressão e «concurso» [sic], acaba a declarar que até pode não ser assim, tudo depende dos órgãos de gestão porque a lei é geral e abstracta, mas depois é aplicada caso a caso.

Coitadinho de quem é obrigado a tamanho exercício de contorcionismo intelectual.

Quanto a todos nós, somos coitadinhos porque o temos de aturar, mas ao seu tom de escárnio constante para com aqueles muitos milhares de professores que ousam discordar das leituras arrevezadas que o secretário Pedreira tem das leis que emanam da 5 de Outubro, elas próprias uma manta de retalhos de escasso sentido.

E coitadinhos de nós porque ainda tivemos de levar com o secretário lemos a tentar ser jocoso com os deputados acerca dos dados da violência escolar.

The Stranglers, Toiler On The Sea

Página seguinte »