A INVEJA

Antes de falar sobre a inveja, convém esclarecer o leitor que faço parte dos cem por cento de invejosos que existem à face da terra. E até ando a pensar que isto que sinto por certos senhores e senhoras que nos governam não é outra coisa senão inveja.
Mas sendo a inveja, como é, um sentimento ruim, e, portanto, ilegítimo, então não me parece que este azedume que nutro por Sócrates e outro(a)s que tais, se possa catalogar da mesma maneira. Acho que não. Acho que se trata, neste caso, de INVEJA LEGÍTIMA , pois é compreensível invejar alguém com um alto cargo político quando é visível que quase tudo o que faz redunda em absoluto fiasco.
Espero, com isto, não ofender os que acham que não são invejosos. Talvez esses tenham a sorte de fazer parte do grupo restrito daqueles que, embora invejosos, são os que menos sofrem de azia com o bem – estar ou sucesso dos outros.
Mas voltando à inveja, em abstracto, olhando bem, no estranho mundo em que vivemos, tudo parece funcionar em escala ou em grau. A régua, o cronómetro, a balança ou o termómetro não foram inventados por mero acaso ou divertimento. O mais e o menos ou o muito e o pouco existem no mundo e graduam-no de tal forma que tudo nele é relativo. E, assim como a temperatura do corpo sobe ou desce no termómetro de mercúrio, consoante a febre de cada um, também a temperatura da alma sobe ou desce no termómetro da inveja, conforme a moral de cada qual.
Se olharmos para alguém de “sucesso” e, subitamente, sentirmos um estranho tumulto invadir-nos as vísceras, estará, provavelmente, a irromper dentro de nós um estranho e azedo sentimento a que se convencionou chamar de inveja. E se esse tumulto for tal que venha a rondar os “cem graus” na escala da inveja, eis-nos perigosamente caídos no abismo emocional do INVEJOSO PRIMÁRIO ( ou I.P.).
E quem é o INVEJOSO PRIMÁRIO?
É, por exemplo, aquele adolescente, que não pode com o seu melhor “amigo” , só porque este caiu nas boas graças da bela e desejada moça que os acompanhava ao cinema, e, “ainda por cima, o único amigo, com aquelas orelhas, e aquela testa crivada de espinhas” e ,ele, pasme-se Deus e o mundo, “normalíssimo de orelhas e sem uma única espinha !” Ou ainda aquele outro que odeia, com todas as letras, o colega de carteira, que tem notas altas “porque é marrão!”, enquanto ele “é inteligentíssimo e não passa de um aluno medíocre!”
Mas o INVEJOSO PRIMÁRIO, de tão cego que fica, na escuridão da inveja, nem a própria família poupa na sua investida invejosa, e basta o irmão ou o tio andarem de “burro”, enquanto ele anda a pé, ou a prima e o primo andarem a “cavalo”, enquanto ele anda de burro, para , tanto uns como outros, serem liminarmente acusados de terem roubado o “burro”, ou desviado o “cavalo”.
Mas a inveja, a meu ver, só é autêntica e verdadeira, quando se veste de saia. O grau máximo da inveja não está no tipo que é INVEJOSO PRIMÁRIO. O superlativo da inveja encontramo-lo, com maior e mais saliente frequência, na INVEJOSA PRIMÁRIA.
A INVEJOSA PRIMÁRIA não é apenas primária e invejosa; é as duas coisas mais o máximo que pode existir dentro delas. E isto porquê?
Porque a I.P. não inveja apenas a amiga que lhe arrebatou o namorado, pois, para além de invejar a amiga, ela injuria-a com o que há de mais infame e rasteiro no seu vernáculo ; e, pior do que isso, ela difama-a perante amigas e conhecidas, destruindo-lhe o carácter. A I.P. não diz apenas que a colega de carteira tira boas notas porque é marrona. Diz também que ela copia nos testes; que engraxa as professoras e se “vende” aos professores.
A I.P. é tão primária e tão invejosa que é mesmo capaz de adulterar o carácter do namorado, do companheiro ou do marido, transformando um normal ou inofensivo invejoso, num perigoso INVEJOSO PRIMÁRIO, tal qual ela é.
E, para acabar, diria que se há alguém em quem a INVEJA mais e melhor se manifesta, e mais e melhor encarna o seu poder destruidor, alguém que exemplifique a suprema incorporação da inveja, então só pode ser a Ministra da Educação, que parece ter vindo ao mundo com o exclusivo intuito de destruir o ENSINO, em Portugal, e apenas porque visceralmente inveja a CLASSE que melhor o poderia defender – os professores deste país.

CUNHA RIBEIRO