VOCAÇÃO OU MOTIVAÇÃO?

Há muito que me apetecia escrever sobre isto. Ao ler o Paulo Guinote sobre o assunto, senti que era a hora. Devia estar quietinho, pois dizer mais e melhor do que o Paulo é tarefa impossível. Mas vou tentar, pelo menos, acrescentar uma pedra ao paredão.
Em primeiro lugar, a vocação, a meu ver, quase nunca rima com profissão. E porquê? Porque a profissão é, por princípio, uma necessidade, uma obrigação ou imposição . Não uma necessidade, ou obrigação, de ser, mas uma necessidade de ter. ter dinheiro para poder comer, vestir, educar e formar os filhos, construir uma casa, etc.. A vocação, quando existe, é uma espécie de fulanização de uma actividade social num entidade pré- , pos- ou hetero-motivada . O médico, por vocação, é aquele que não se cansa de atender os seus pacientes , sempre com a mesma paciência e sem cansaço no seu cansaço; O Juiz , por vocação, é o que examina os processos até à exaustão, e se preocupa com as sentenças que lavra.
Mas quantos médicos , quantos juízes são assim? Bem sabemos que muitíssimo poucos.
É que os médicos ou os juízes que assim procedem não o fazem apenas por puro altruísmo. Fazem-no porque sentem que o seu esforço é reconhecido socialmente. E esse reconhecimento social tem hoje um paradigma, que é o carro de marca, o relógio de marca, a roupa de marca , a casa “de marca”…
E porque será que são tão poucos os vocacionados?
Não será por ausência de motivação?
Ninguém duvidará que a “profissão” onde as vocações mais e melhor se revelam é a de futebolista. Ninguém é profissional de futebol por imposição de quem quer que seja.
Mas vejam como o futebolista, quando não está motivado para um certo jogo em particular, vacila na sua entrega, e perde a sua alegria de jogar.
E já agora , conhecem algum arrumador de carros com vocação?
Para mim, a conclusão é esta: não há vocação sem motivação.

CUNHA RIBEIRO