Reitero aqui uma perguntinha inocente que tenho andado a fazer em vários lados, na minha modesta qualidade de professor que se recusou a entregar os objectivos individuais: onde está a grande firmeza e a grande coerência de não entregar esses objectivos se, mais tarde, se aceitar proceder à auto-avaliação? Posso estar a ver mal o filme, mas… essa auto-avaliação não é, em termos formais, o momento decisivo deste modelo de avaliação? Então nós dizemos que rejeitamos o modelo e depois vamos, como cordeirinhos, caucioná-lo com a entrega da ficha de auto-avaliação? Nesse caso para que serviu a recusa de entrega dos objectivos individuais? Foi só para mostrar que essa entrega era absolutamente desnecessária para que o processo de avaliação pudesse funcionar em pleno? É que, não sei se já repararam, mas se, no final deste ano lectivo, todos os professores procederem à sua auto-avaliação, o Ministério da Educação poderá proclamar, em triunfo, que TODOS os professores foram avaliados. E, se assim for, a única coisa que será demonstrada é que os colegas que entregaram os objectivos foram uns tansos porque, afinal, todos os professores terão consentido na avaliação, com entrega ou não dos objectivos, e todos terão direito a progredir na carreira. MAS É ISTO QUE NÓS QUEREMOS? FOI PARA ISTO QUE ANDÁMOS A LUTAR E A SACRIFICAR HORAS E HORAS DO NOSSO PRECIOSO TEMPO? Meus amigos, a única posição coerente e digna é LEVAR A RECUSA ATÉ AO FIM. E levar a recusa até ao fim pressupõe NÃO ENTREGARMOS A FICHA DE AUTO-AVALIAÇÃO. Áh, já sei, mas ela é obrigatória por lei. Para essa objecção há, pelo menos, duas respostas. Em primeiro lugar, neste momento não é líquido que a não entrega dos objectivos individuais obrigue quem assumiu essa posição a proceder à auto-avaliação no final do ano lectivo, pois se a avaliação é um direito e se o professor prescindir do mesmo, fica desobrigado em relação aos deveres cujo cumprimento seria necessário para o concretizar. Sei que esta interpretação é controversa, mas palpita-me que o Ministério não estará interessado em abrir uma guerra com os professores que a perfilharem. Mas há outra resposta, um bocadinho mais radical: se estamos em luta contra uma lei injusta, não podemos estar preocupados em agir dentro do estrito cumprimento dela. Lamento muito, mas este combate não pode ser feito sem riscos. Sob pena de, no final deste ano lectivo, os professores terem cedido no essencial, mostrando firmeza apenas no acessório.

Já agora, deixo aqui uma declaração de interesses:
– Não entreguei nem vou entregar os objectivos individuais;
– Tenciono não proceder à auto-avaliação no final do ano lectivo;
– Tenho, neste momento, a perspectiva (ainda por confirmar) de deixar, por cinco anos, o ensino para encetar uma carreira de investigador;
– Não sei se o Ministério da Educação me poderá penalizar pela minha reiterada “desobediência”, criando entraves para essa transição.

Mário Machaqueiro