Já começo a ficar cansado com o recurso aos dados da OCDE para caracterizar a situação privilegiada dos docentes portugueses. Até parece que a OCDE não publica aquilo que o ME lhe envia e que, em boa verdade, deveria estar disponível publicamente no próprio site do Ministério.

Para os mais distraídos, a OCDE não recolhe dados de forma independente, apenas faz a compilação dos dados oficiais de cada país e compara-os, sendo que nem sempre as metodologias e contextos são comparáveis.

Mas mesmo que o sejam eu gostaria de deixar aqui uma pequena posta para explicar, por exemplo, porque o rácio alunos/professor é mais favorável entre nós na aparência do que em outros países.

O método usado é básico: divide-se o número de alunos pelo número de professores e já está. Temos um rácio. Vê-se que é operação sofisticada.

Mas o que é que isto não explica?

Não explica que em Portugal são os professores que desempenham muitas funções que em outros países estão atribuídas a outro pessoal qualificado, como assistentes sociais, psicólogos, terapeutas, etc.

No bendito rácio não estão apenas os professores que dão aulas, estão todos, incluindo os que não dão aulas por estarem no ensino especial a apoiar os alunos com NEE, na coordenação das bibliotecas com redução de horário, nos centros de formação, etc, etc.

Acaso encontramos nas estatísticas da OCDE o rácio de alunos por psicólogo educacional? Ou sabemos qual a relação entre o número de terapeutas especializados ou assistentes sociais nas escolas holandesas, finlandesas ou inglesas e os que existem nas portuguesas?

Quem anda pelas escolas sabe perfeitamente que há muitos milhares de professores a desempenhar funções que, num país civilizado e desenvolvido, não são as suas. Aliás, esta é uma das maiores falhas do sistema, a do uso dos professores para tudo e mais alguma coisa.

E isto torna-se evidente quando se olha para outros números, que os Henriques Monteiros, Fernandas Câncios, Joões Mirandas e Manuéis Serrões da nossa praça não vislumbram, umas porque não querem, outros porque não sabem.

Porque se vamos analisar um outro indicador, que é o de alunos por turma, Portugal deixa logo de estar numa situação favorável, pois temos turmas com uma dimensão superior à média.

Mas as e os inteligentes isso não vêem. Ou se o vêem não explicam o paradoxo. Que é simples de perceber. Há em Portugal um enorme défice de outros técnicos especializados nas área da saúde e assistência social nas escolas ou, pelo menos, em redor das escolas. Porque não é natural que uma colega minha passe horas num Centro de Saúde para conseguir uma consulta especializada de Pedo-Psiquiatria para os alunos e dependa dos humores de um enfermeiro para a conseguir em prazo útil.

Mas isso, claro, escapa aos números oficiais que o ME fornece à OCDE e que apascentam alguma douta opinião transformada em espaço nas páginas de alguns jornais.