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O mérito do próprio e as circunstâncias da vida fizeram de Rui Ramos professor universitário. Ainda bem que assim foi, pois percebe-se que desentende claramente os professorzecos menores, que analisa num molho igualitário e anónimo – para usar os seus próprios termos – e que aproveita para os desancar, misturando factos com opiniões ou mesmo inventando os ditos factos.

De acordo com ele:

Como já toda a gente compreendeu, porque os representantes dos professores fizeram questão de explicar, a questão não é esta avaliação, mas qualquer avaliação, seja qual for o modelo, que tenha como princípio diferenciar os professores. Os líderes da resistência à avaliação têm uma ideia do que deve ser a classe profissional que dizem representar: uma massa igualitária e anónima, onde ninguém se distingue e ninguém é responsabilizado pelo resultado do seu trabalho.

Não sei a que «representantes» Rui Ramos se refere, nem sei a que declarações ele se estará a reportar. Apenas percebo que Rui Ramos – de quem não tive a paciência necessária para ler a monumental resenha sobre a I República feita para o Círculo de Leitores, mas de quem li pelo menos um bom artigo sobre a alfabetização em Portugal – se deixou tentar pela tirada de fôlego demagógico e voluntariamente mistificador. Algo que fica giro nas conversas da tertúlia com os outros ex-putos-maravilha de uma Nova Direita que inexiste fora de três blogues, uma revista e a cabeça dos próprios.

Conheço a postura de Rui Ramos e a atitude com que analisa e escreve sobre este assunto. Já a encontrei em muitos outros antigos colegas que, pelo mérito e circunstâncias da vida, se tornaram «algo» e se sentem «alguém», acima da massa «igualitária e anónima» que trata da seguinte forma:

Os nossos licenciados, porém, só ultimamente começaram a rimar com desempregados. É que, durante muito tempo, o Estado lá os foi encaixando: a uma parte, aliás, como professores. A classe docente, numerosa e relativamente bem paga, é provavelmente ela própria o principal produto do investimento na educação em Portugal: antigos estudantes dos cursos de apontamentos e fotocópias, que o engenho nacional fez multiplicar, e a quem por via do Orçamento do Estado se deu um lugar à mesa da classe média.

Devia ser nesta altura que eu, que até fiz o mesmo curso que Rui Ramos, com poucos anos de diferença e que, inclusivamente – salvo erro – me especializei no mesmo período histórico, que conheço perfeitamente bem o seu percurso, incidências e dissidências, poderia ripostar no mesmo tom e ser injusto e mal educado para com a classe dos professores universitários, tantos deles colocados nas universidades por filiações partidárias, afinidades ideológicas e jeitos académicos.

Porque os conheci em primeira mão, não em segunda, e sei perfeitamente o húmus de desdém de que se alimentam a postura e atitude de Rui Ramos, notável historiador, aspirante a ideólogo de uma direita bem pensante e letrada, mas infelizmente um fraco aspirante a snob.

Eu gostaria imenso de saber o que pensam desta prosa os seus antigos colegas de turma, professores agora, outrora licenciados dos «cursos de apontamentos e fotocópias» que Rui Ramos já não deverá reconhecer quando se cruza com eles na rua. Também eu tive colegas assim, gente que ao elevar-se um pouco acima dos lugares à «mesa da classe média» porque um dia receberam uns bons milhares de contos com um bom negócio editorial, surgido de oportuna subserviência a um grupo de interesses, passa a dispensar aos professorzecos um olhar de comiseração.

Mais do que a truculência de um Ribeiro Ferreira, dos disparates de Emídio Rangel, dos desamores de Sousa Tavares, este tipo de prosa, formalmente elegante, aparentemente instruída, é a que revela pior educação para com a classe docente.

Porque não é uma postura de confronto ou sequer de luta contra… É uma postura que olha de cima para baixo, que se sente num pedestal qualquer, feito de mérito do próprio e circunstâncias da vida, a que outros não acederam, os que ele qualifica como tribo ancestral.

A tribo, como é compreensível, saiu à rua para zelar pelas suas prerrogativas ancestrais.

Tribo essa a que ele não pertence, sublinho, por mérito do próprio, mas também por muitas circunstâncias da vida, as mesmas circunstâncias que levaram muitos medíocres conformados ao lugar de assistentes universitários. Não o caso de Rui Ramos, claro, que ele nunca pertenceu à tribo. À dos ancestrais ou à dos medíocres. Sei disso. Lembro-me da aura.

Julgo mesmo que nunca foi licenciado, nunca tirou apontamentos e nunca leu uma fotocópia.

Ele foi directamente para doutor em modos de comer à mesa da classe acima da média. Pena que, quando nos cruzámos lá pelo quartel da Nova, não lhe termos afinfado uma bela canelada, que ao menos desse razão para tanta prosápia e pesporrência. Só que acho que Rui Ramos não deveria jogar futebol, ou então jogava mas agora já se esqueceu. Porque, ao que me consta, Rui Ramos até terá sido excelente quando estudante de «curso de apontamentos e fotocópias». Só que, como muitos outros, esquece-se do seu próprio passado e circunstâncias da vida.

E é pena que, em vez de argumentar com base nos factos sem os deturpar e assumindo como generalizada a atitude de uns quantos seus conhecidos, tenha optado pelo achincalhamento de toda a classe docente, de todos os professores minúsculos, de que ele não se sente parte porque, afinal, ele é Professor maiúsculo, instalado, não mero professor, de meia idade. Como os outros. Os do submundo não-superior.

Tal atitude mereceria resposta mais curta e grossa mas, lá está, depois acusar-me-iam de estar a fulanizar esta réplica.