Uma outra visão da avaliação

Quem deve ser avaliado? A resposta óbvia a esta pergunta é: todos nós! A questão centra-se então no como. A Ministra da Educação (ME) decidiu começar por baixo, os Professores, com os efeitos nefastos que são conhecidos e eram expectáveis.

Qual a alternativa? Começar por cima, tendo como base a prospectiva estratégica (conceber um futuro desejado e o caminho para lá chegar) e uma visão social (leia-se inclusiva) da avaliação. A ME cumpre, ela própria, o que sugere presentemente para os Professores, e apresenta a todos nós um plano (estratégia) para a Educação e o Ensino em Portugal. Nele deve incluir o recenseamento dos problemas da Educação e Ensino em Portugal, a sua missão como ME, a sua estratégia de resolução dos problemas e de desenvolvimento, e resultados expectáveis. Nós, todos nós, estamos cá para avaliar o seu projecto. Portanto, o exemplo vem de cima e a primeira a ser avaliada é a ME. Se o plano for aprovado, apresenta as tácticas para a sua boa execução, as quais devem ser amplamente discutidas.

De seguida, deve exigir aos Presidentes de Conselhos Executivos (PCEs) que elaborem estratégias para as suas Escolas, tendo em conta as realidades locais. Estes planos devem ser avaliados por especialistas e sancionados pela ME. Portanto, os segundos a ser avaliados são os PCEs.

O degrau seguinte devia ser o Professor Titular (PT) (na presente visão aquele que coordena uma equipa), comprometido a apresentar uma estratégia mais centrada, a da sua área disciplinar. Aqui levanta-se a questão de quem deve ser titular (coordenador). A resposta parece ser simples para quem está habituado a ser honesta e justamente avaliado: os mais competentes. E como se avalia a competência? Por avaliação curricular e de desempenho na sala de aula, a ser efectuada por especialistas.

E fica assim criada uma estrutura de responsabilização, em que os principais avaliados são os mais responsáveis: a ME, os PCEs e os PTs, por esta ordem.

O Professor tem como objectivo principal ser, cada vez mais, melhor Professor, com tudo o que isso implica. E não tem certamente que se perder em burocracias que não levam a nada mais do que o desespero de ver o seu tempo precioso ser desbaratado. Ele tem que se sentir integrado (motivado e implicado) numa estratégia Nacional e de Escola, ou seja numa equipa coesa e consistente com um objectivo comum: formar jovens competentes, informados e criativos, que são ao mesmo tempo cidadãos socialmente correctos e activos.

A avaliação só deve acontecer se for inclusiva (leia-se social) e não exclusiva (leia-se anti-social). O avaliado não deve ser excluído por vontade de terceiros, mas sim por decisão própria. Ao avaliado deve ser dada a oportunidade de corrigir os desvios. Se este aceitar e melhorar o seu desempenho, ganha-se um bom professor; caso contrário, auto-exclui-se e abre-se a oportunidade para a inclusão de sangue jovem e motivado no sistema.

Fernando Ornelas Marques

Professor na FCUL

Curriculum vitae disponível em http://www.igidl.ul.pt/marques.htm