É sempre um exercício complicado escrever, com um mínimo de distanciamento, acerca de uma questão em que estamos profundamente envolvidos e emitir juízos de opinião, quantas vezes implicando valorizações morais ou éticas, sobre pessoas envolvidas em confrontos muito a quente.

Mas há princípios gerais que dvem sempre servir de ponto de referência para a nossa conduta, tanto em termos de acções como de avaliações.

No meu caso, há alguns lugares-comuns e frases feitas que, apesar de o serem, contêm uma dose elevada de bom-senso e sabedoria.

Um desses casos é o do dito de origm indeterminada (quem souber que identifique o autor) que afirma que «quem não é parte da solução, é parte do problema».

Isto aplica-se neste momento de forma perfeita à situação de Maria de Lurdes Rodrigues neste já muito longo braço de ferro com a classe docente.

Não gosto de apelos, pedidos, gritos para a demissão de ninguém. Acredito que, quem sabe avaliar-se a si mesmo e ao seu papel numa determinada circunstância, terá a consciência e a grandeza de alma de saber afastar-se quando o momento chega. Se possível sem acrimónia. Se possível, sem amargura. Em especial quando se ocupa um cargo em que o interesse público está a cima de conveniências e orgulhos pessoais. Sei que é difícil, emocionalmente desgastante, mas é um sinal de grandeza reconhecer quando se falhou e se está apenas a ajudar a complicar tudo, em busaa de um possível recorde de permanência num cargo.

Qualquer analista exterior, mesmo que nutra simpatia por aquelas qualidades de valor indefinido que vulgarmente se atribuem à Ministra da Educação – «determinação», «firmeza», «coerência» – perceberá que entre ela e os professores não existe qualquer possibilidade de diálogo construtivo. E a responsabilidade por isso é de quem aturou a primeira pedra; e a segunda; e a terceira. Até pode queixar-se MLR que os sindicatos lhe atiraram um pedregulho de volta com aquela coisa da greve aos exames, sandice sem sentido. Mas MLR esquece-se que quem azedou o clima entre ela e os professores – e nisso há que dar-lhe razão, os sindicatos não são os professores, sendo que são os professores que estão efectivamente ofendidos e reactivos de modo quase visceral a MLR e à sua equipa de sidekicks, com destaque para o SE Lemos, sempre pronto para agravar os dislates em decurso – quem azedou o clima, ia eu escrevendo, foi Maria de Lurdes Rodrigues.

Seguindo à risca a estratégia delineada no «Estudo sobre a reorganização da carreira docente do Ministério da Educação» do seu mentor João Freire, MLR desferiu um fortíssimo ataque comunicacional contra sindicatos e professores, desrespeitando a posição institucional daqueles e a dignidade e brio profissional destes. Seria cansativo empilhar as declarações feitas, com acentuado tom acintoso e factualmente pouco correcto, em 2005 e 2006 (só para começar) a esse respeito. E agora as «falhas» na relação com a realidade continuam.

A ideia era quebrar a posição dos sindicatos, considerando que, cortada a cabeça, o corpo poderia espernear mas acabaria por acalmar e fenecer.

Estratégia errada, pois falhou na apreciação do estado da classe docente, muito longe de ser aquele grupo heterogéneo e amorfo de profissionais acomodados e indiferenciados. Se os sindicatos foram apanhados desprevenidos e levaram um par de anos ou mais a perceber onde tinham caído os suspensórios e ficado o cinto das calças, já os professores enquanto grupo profissional soube reagir e erguer-se contra a investida.

Neste momento, por muitas clivagens internas que possam existir, há um imenso factor de união da larguíssima maioria dos docentes, a começar pelos que abandonaram a carreira com enormes custos pessoais. Esse factor de união é a recusa do Estatuto da Carreira Docente. Em seguida existe outro que é a rejeição de Maria de Lurdes Rodrigues como interlocutora válida, pois é alguém que repetidamente fez (e faz) declarações incendiárias sobre os professores, chamando-lhes medrosos e agentes de actos de chantagem quando apenas exercem o direito à manifestação que a própria Ministra reconheceu em outros momentos.

A realidade é que, no presente, Maria de Lurdes Rodrigues é uma parte importante do problema. Verdade se diga que a sua responsabilidade não é exclusiva e que a própria se terá tomado por uma espécie de Pasionaria da Educação Nacional, crença que lhe terá sido alimentada por qum a incentivou e encorajou ao longo dos tempos, não tendo sido suficientemente amigo para lhe conseguir apontar os erros na forma como reage a críticas e bloqueia o diálogo com afirmações incompatíveis com o cargo que exerce.

Seria grandeza de alma que ela se afastasse pelo seu próprio pé. Não que a demitissem. Disso discordo. Seria uma desautorização pública que eu não gostaria que lhe acontecesse, pois sei o que custa sentir isso na pele, em especial desde 2005.

Não se afastando, resta esperarmos que possa ser ajudada por quem a tem protegido e aconselhado a acabar o seu mandato (para o qual foi cooptada ou designada e não eleita) com a dignidade possível. Sem lançamentos de ovos ou qualquer outro género alimentício. Esse tipo de atitude não é a correcta e é altamente reprovável.

Se Maria de Lurdes Rodrigues quer ficar até ao fim do mandato para quebrar um qualquer recorde de permanência, deixemo-la fazê-lo em paz. A História (da Educação) lhe fará o devido juízo.