Maria de Lurdes Rodrigues usou ontem uma argumentação que alguns analistas consideram válida, a começar pelo editorial do DN de hoje.

De acordo com ela e seus pressurosos seguidores na imprensa, os professores «apenas» têm de preencher uma ficha, ou formulário, ao que parece com duas simples páginas.

Este tipo de argumento é objectivamente falso em muitos casos e, mesmo nos casos em que o impresso em causa tenha só duas páginas, isso não é significativo do trabalho de preparação para o respectivo preenchimento.

Eu explico-me: está por apurar qual o modelo dominante da ficha de objectivos individuais a preencher pelos docentes porque as há de 1 ou 2 páginas, mas as há de 5, 6 ou 10 páginas. Já divulguei aqui no blogue e também sei que alguns assessores passam por cá, portanto podem informar devidamente a senhora Ministra para não cometer erros factuais tão básicos.

Mas não é sequer a extensão da ficha que está em causa, mas sim o que ela pode implicar de trabalho preparatório. Algumas das escolas, que a MLR afirma estarem a avançar com o modelo de avaliação do ME, exigem que no preenchimento dos dados dos objectivos individuais estejam contidas informações de tipo estatístico sobre todo o universo de alunos de cada docente.

Ora quem anda pelas escolas sabe que a maioria dos docentes, em especial de algumas disciplinas com menor carga horária semanal têm 6, 7, 8 ou mais turmas a multiplicar por 25 alunos. Isto significa, em mais casos do que o editorialista do DN parece supor e MLR parece disposta a confessar (porque o saberá, pelo menos se quiser ter o trabalho de consultar dados públicos e acessíveis com facilidade) muitos docentes precisam de pesquisar em pautas de anos anteriores a informação estatística do ano lectivo anterior, sendo que as turmas não transitam em bloco de um ano para outro.

Pior, quando se trata de anos em que os alunos mudam de estabelecimento de ensino, até que os processos individuais os acompanhem e cheguem à nova escola passam-se semanas e mesmo meses. Dou como exemplo um caso concreto: no ano lectivo transacto recebi em pleno 2º período os dados muito sumários de uma aluna transferida em meados de Setembro, nos primeiros dias do ano lectivo, apesar dos repetidos pedidos feitos. Mas isto pode multiplicar-se por dezenas nos casos de docentes com 200 alunos sobre os quais necessitam de determinar o percurso escolar na respectiva disciplina. Conheço fichas em que é necessário singularizar quantos alunos obtiveram no ano anterior a classificação de 2-2-3 nos três períodos. Em outros casos – e não raras vezes nos mesmos – é necessário calcular as taxas de retenção no ano anterior para o conjunto dos alunos de cada turma, mesmo que eles venham de turmas ou mesmo escolas diferentes. E indicar quantas retenções tiveram no seu percurso escolar ou quantas negativas tiveram na disciplina em causa. Quantos tiveram apoio na disciplina. Ou abrangidos pela educação Especial. Ou a idade. Ou se têm direito a subsídios da ASE.

Esse é um trabalho que acarreta bastantes horas de preparação e só não o sabe quem não quer ou não sabe do que fala ou escreve.

Um simples quadro estatístico numa ficha de objectivos individuais, de um docente com 200 alunos, pode significar muitas horas de preparação.

Maria de Lurdes Rodrigues e em consonância com ela alguns editorialistas como o de hoje no DN reduzem isso a um impresso com duas páginas.

Gostaria de os ver fazer isso: MLR a procurar informação sobre o trajecto profissional de 200 funcionários do ME e o editorialista do DN sobre 200 jornalistas ou outros empregados do seu jornal, se é que chegam a tantos.

Mas é claro que fica bem, para consumo público, deturpar a realidade, reduzi-la e simplificá-la como se pretende fazer com a avaliação-simplex que o ME acena como tentação às escolas.

É possível que transmita a ideia que os professores se recusam a preencher um boletim do tipo Euromilhões com base em palpites.

Só que a verdade é outra. MLR sabe-o. O editorialista de hoje do DN se não o sabe poderia ter procurado saber. Ou então ter evitado pronunciar-se sobre o que não sabe. Eu sei que hoje não era essa a sua missão. Mas deveria ser. A bem da verdade. Um editorial de jornal pode conter opinião, mas essa opinião deveria basear-se em factos.

De quando em vez, dá jeito.

Já que se fala tanto em rigor…