Como convém deixar clara a minha posição e as todas declarações feitas, aqui ficam as questões que me foram colocadas pelo jornalista Jorge Pinto do Jornal de Notícias e as minhas respostas. O material foi usado com rigor mas, como é natural por questões de espaço e perspectiva, de forma lacunar.
Questões:
Como lhe disse na nossa curta conversa telefónica, a ideia do trabalho é tentar responder à pergunta “Por que se manifestam tanto os professores?”. Partindo dessa ideia genérica, gostaria que me desse a sua opinião sobre algumas questões:
– Considera, ou não, que há uma vulgarização das manifestações ou protestos por parte dos professores que gera uma descredibilização das suas reivindicações?
– Em que medida os sindicatos têm contribuído para essa vulgarização, no caso de entender que existe?
– A educação, em geral, e os professores, em particular, têm sido utilizados como arma política, quer pelo Governo quer pelos sindicatos?
– Que repercussões têm essas manifestações no sistema de ensino e em que medida afectam, ou não, os alunos?
– Que imagem têm os professores junto da opinião pública?
– O aparecimento de movimentos de professores à margem dos sindicatos e a utilização, por exemplo, de blogues ou de SMS para “fazer passar a mensagem” traduzem uma divisão da classe. Se sim, é resultado de quê?
Respostas completas:
Respondendo por pontos:
Ponto prévio: exercendo a docência, com intermitências, desde 1987, mas de forma contínua desde 1992, só em 2008 participei em manifestações de professores, uma na capital de distrito onde resido e lecciono e a de 8 de Março. Nunca fui sindicalizado, nem pertenço a qualquer dos recentes movimentos de professores. Pelo que as opiniões que expresso são puramente individuais e são as de alguém que está longe de ser um tradicional activista da contestação.
1.
Os protestos e manifestações de professores não podem ser todos enquadrados da mesma forma. É certo que durante algum tempo assistimos ao que eu classificaria como a coreografia ou ritualização da contestação sindical, por ocasião da entrada de um novo governo e ministro(a) em funções ou nos períodos ligados às negociações salariais. Esta situação durou talvez desde final dos anos 80 até ao início desta década.
Mas houve sempre outro tipo de protestos, nem sempre com o mesmo impacto em termos de participação que tiveram efeitos positivos na resolução de outro tipo de situações, mais específicas, que afectaram grupos mais ou menos restritos de docentes ao longo dos tempos.
A frequência deste tipo de acções compreende-se, em grande parte, pelo facto dos docentes constituírem o grupo profissional qualificado mais numeroso a trabalhar para o Estado e pelas condições em que desde há muito grande parte se viu obrigada a trabalhar (precariedade do vínculo laboral de muitos milhares durante vários anos, instabilidade nas colocações, inexistência de apoio em caso de desemprego).
A descredibilização das suas reivindicações nunca poderá ser encarada pelo ponto de vista da frequência dos seus protestos, mas sim da justeza dos mesmos. Se são justas são justificadas.
Ora, se é certo que a tal coreografia da contestação, muito marcada durante os anos 90 e aceite tácita ou mesmo activamente pelos sucessivos governos, poderá ter conduzido a uma saturação por parte de quem está “de fora”, não é menos certo que também cansou muitos docentes que se foram desafeiçoando das tradicionais “formas de luta” e só nestes últimos tempos demonstraram estar de regresso a uma intervenção mais activa nos seus próprios destinos. É o meu caso, por exemplo.2.
Os sindicatos contribuíram para isso na medida em que, incapazes durante muito tempo de uma renovação de mentalidades e metodologias, se deixaram adormecer por essa ritualização negocial baseada em acções de rua seguidas de umas quantas reuniões de gabinete em que as coisas lá se resolviam, com as assinaturas dos acordos a variarem conforme o partido no poder. Mas, mais grave do que isso para a imagem do movimento sindical foi a sua progressiva atomização na década de 90, com a criação de micro-sindicatos de escassa representatividade e cujos objectivos a larguíssima maioria dos docentes nunca entendeu. Uma coisa é recusar uma unicidade sindical, outra criar sindicatos com 500 membros reais numa classe de 140.000 profissionais.3.
A Educação é, neste momento, a arma política por excelência deste Governo. Aliás, tudo o que se tem passado desde o início do actual ano lectivo, com uma evidente promiscuidade de iniciativas do Governo com os interesses do partido no poder, é absolutamente reprovável. O uso das escolas como locais para uma despudorada pré-campanha eleitoral, é algo que choca qualquer observador neutro, quanto mais aqueles que nelas trabalham.
Quanto aos sindicatos, em particular os de docentes, é natural que a sua razão de existir passa pela representação e defesa dos professores como interlocutores do Ministério da Educação e, por isso mesmo, a sua acção assenta na mobilização do descontentamento dos docentes quando ele existe. O problema, contudo, é quando à lógica da representação dos docentes e dos seus interesses se sobrepõem outro tipo de estratégias, as quais passam muito pelas afinidades político-partidárias das suas cúpulas e pelos seus calendários de acção política.4.
As manifestações de docentes não têm especial repercussão no trabalho quotidiano com os alunos, para além do facto desses alunos passarem a saber, também pela comunicação social, que existe a expressão pública de um descontentamento pelas condições de trabalho que os próprios alunos conhecem.
Aliás, se houve evolução positiva nos últimos dois anos de recrudescimento da contestação docente às políticas ministeriais foi o cuidado extremo em não prejudicar o desempenho profissional e não prejudicar os alunos.
Iniciativas como as greves rituais à sexta-feira desapareceram felizmente do horizonte e espero que só voltem mesmo como último recurso não como ferramenta ideológica ao serviço de estratégias externas aos interesses da classe docente ou de uma sua facção.5.
Com base em todos os estudos nacionais e internacionais que têm sido conhecidos nos últimos meses (e foram vários) os docentes são uma das classes profissionais mais apreciadas, estimadas e confiáveis para a população portuguesa, o que revela duas coisas para mim muito importantes: a primeira, que apesar do esforço do ministério para acusar os docentes dos males do sistema educativo, quem de mais perto convive connosco sabe que isso é mentira; a segunda, que existe um enorme desfasamento entre a opinião da população e a opinião publicada e os desafectos pessoais e particulares de um grupo restrito de opinadores residentes na comunicação social.6.
O aparecimento de movimentos de professores e de iniciativas independentes de organizações preexistentes representa uma renovação da mobilização da classe docente que veio pressionar as metodologias anquilosadas e rotinadas de funcionamento dessas organizações, cada vez mais viradas para dentro e numa lógica do “venham ter connosco”. Não é um problema de divisão, mas sim de agregação à contestação de muitos dos desiludidos com a forma como as coisas tinham entrado num remanso ineficaz perante um poder político mais agressivo. No fundo todas estas movimentações, que também têm surgido em outras paragens como em Itália na última semana, visam contestar as políticas educativas em curso, mas também demonstrar ao movimento sindical que se deve mostrar mais dinâmico e aberto às aspirações de toda a classe docente e não apenas aos seus indefectíveis. Que alguns transformem críticas naturais em democracia em ataques anti-sindicais é apenas sinal da posição defensiva em que se colocaram e um erro estratégico enorme.