Não apenas a questão da luta política que levou ontem 2,5 milhões e italianos às ruas, mas em particular das reformas edicativas da ministra Mariastella Gelmini.
Corriere della Sera, 26 de Outubro de 2008
Chamo especial atenção para o facto de a mesma estar a ser dinamizada principalmente por alunos, ou em articulação com os professores.
Em causa, por exemplo, o facto de – após dez anos da experiência das equipas educativas no ensino elementar – se querer voltar ao professor único, o que tem alguns aspectos curiosos, se fizermos a comparação com a evolução prevista para Portugal.
Neste caso, o principal objectivo é diminuir em 87.000 o número de docentes.
Por outro lado é curioso (ver a parte assinalada do lado esquerdo da página) a forma como foi encarada como ofensiva a representação de uma peça por alunos em que Berlusconi aparecia com um nariz de Pinóquio, motivando queixa formal por parte de elementos do PdL (Il Popollo della Libertá).

Outubro 26, 2008 at 5:01 pm
Nós cá também um Pinóquio: chama-se Pinócrates e anda a distribuir os famosos cagalhães…
Outubro 26, 2008 at 5:02 pm
“Nós cá também temos”
Outubro 26, 2008 at 5:04 pm
e são os dois fascistas…:
A VITÓRIA DOS PORCOS
Baptista-Bastos
escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt
Não é surpreendente a vitória de Berlusconi. Ele representa o que há de pior na política: grosseria, ignorância, mentira, má-fé, soberba e desprezo. Mas o seu opositor mais bem colocado, o pusilânime Veltroni, não é carne, nem peixe, nem arenque vermelho. Além do que, com notória ausência de ideias e de ideais, contrabandeou como suas algumas das promessas eleitorais de Il Cavaliere. O caso italiano reflecte a crise ideológica na Europa, tanto à esquerda como à direita. Ambas demonstram ser incapazes de elaborar uma política de civilização, que se oponha a este tipo de aventureirismo e aos perigos daí decorrentes.
Retomo uma pergunta formulada por Elio Vittorini (Il Politecnico – Setembro de 1945) no debate que manteve com Palmiro Togliatti: “Que faz a cultura pelo homem que sofre? Procura consolá-lo.” As frases possuem uma actualidade excruciante: consolar é o contrário de resolver. Se convoco Vittorini para o texto é porque o grande escritor foi o chefe de orquestra de um pensamento aberto ao dinamismo das ideias, e a Itália intelectual o palco no qual se dirimiram questões fundamentais para o futuro da liberdade e da democracia.
Mas a Europa está exausta. E a Itália é um dos resultados dessa exaustão. Os debates sobre política e cultura ausentaram-se do tablado. A pobreza do pensamento europeu explica, em grande parte, a ascensão de uma classe dominante marcada pela incultura. O efeito nefasto deste vazio procriou governantes de incertas convicções e ambígua ideologia, incapazes de separar os diferentes aspectos da realidade. Veltroni proclama os estremecidos desejos de “renovar a esquerda”. Já sabemos no que vão dar essas aspirações: à mutilação das raízes.
Naturalmente, precisamos de uma “outra” esquerda; mas, também, de uma “outra” direita. O recenseamento das abdicações mútuas (da direita e da esquerda) produziu populistas sem escrúpulos e um rol infindável de crimes.
Nem revolta nem revolução. O que se nos propõe como realidade está repleto de logros, embustes e ilusões. Em nome da “democracia liberal” (que mais não é do que “democracia financeira”) há a intenção de se instaurar e consolidar uma ordem despótica. Não há alternativa, proclamam. Há. Desde que a regulação dos conflitos admita que as formas de infelicidade social têm origem nas deformações políticas.
Silvio Berlusconi reaparece por impossibilidade de uma esquerda cuja deriva ultrapassa qualquer capacidade de cálculo, e de uma direita doente de domínio e defensora de doutrinas obsoletas. O que nos remete para o problema da democracia. Que está em perigo, não só em Itália. Basta que olhemos em volta: a grosseria espezinha qualquer tipo de civilidade. É a vitória dos porcos, como escreveu Orwell.
http://dn.sapo.pt/2008/04/16/opiniao/a_vitoria_porcos.html
Outubro 26, 2008 at 5:07 pm
Em Portugal os professores estão exaustos também com a grosseria, ignorância, mentira, má-fé, soberba e desprezo deste Governo (dito) Socialista…mas a onda cresce…como em Itália serão os intelectuais a sair à rua e dizer: fascismo nunca mais!
Outubro 26, 2008 at 5:19 pm
A questão do professor único será interessante de acompanhar.
Uma coisa é certa, o sistema educativo Italiano no Pisa tem piores resultados que o nosso.
Outubro 26, 2008 at 5:24 pm
Domingo, 27 de Janeiro de 2008
Intifada
Já há muitos meses li um artigo de Miguel de Sousa Tavares em que ele atacava simultaneamente os professores, os médicos e os juízes. O artigo deixou-me, devo confessá-lo, duas impressões contraditórias. Por um lado verifiquei que o autor teve a perspicácia – caso único entre os nossos fazedores de opinião – de entender que há entre essas três profissões um elemento comum que atrai sobre elas a fúria da classe política pós-moderna, bem como da tecno-burocracia que a rodeia e sustenta. Por outro, verifiquei que essa perspicácia não chegava ao ponto de entender qual é e como se caracteriza esse ponto comum.
Para ler Miguel de Sousa Tavares e entender o que o faz correr, convém estar a par de um elemento central da sua idiossincrasia: por razões de educação ou de opção filosófica, ou por circunstâncias da vida impossíveis de destrinçar, o homem é um viciado em pogroms. Convoque-se um qualquer tumulto contra um qualquer grupo a que se possam apontar privilégios – e lá está o nosso Miguel, armado de um chuço, no meio da multidão e confundido com ela, pronto a espancar, a incendiar, a esventrar.
É a sua natureza: nada a fazer.
Mas o que há de comum, então, entre juízes, médicos e professores? Em primeiro lugar, é claro, os privilégios de que gozam ou de que têm fama de gozar. Não se trata de um elemento despiciendo: o discurso dos privilégios é hoje central, como é central há milénios, na retórica dos convocadores de pogroms. Serão reais, estes privilégios? Claro que sim. Como todas as profissões, também estas têm vantagens e desvantagens para quem as pratica. Varramos as desvantagens para debaixo de tapete, e presto: cá temos as vantagens transformadas em privilégios para fins de propaganda e arruaça política.
O segundo elemento comum é o facto de se tratar de corporações no sentido medieval e europeu do termo. Para quem deseja ver o mundo transformado numa imensa América, estas remanescências da História são intoleráveis. Na América tudo é simples. Cada um, ou é um homem de negócios, ou é um trabalhador. Como muitos trabalhadores aspiram a tornar-se homens de negócios, votam Republicano contra os seus próprios interesses.
A um europeu, nada o impede de ser um homem de negócios, ou um trabalhador, ou as duas coisas, tal qual como um americano; o que lhe complica e enriquece o estatuto é que é muitas outras coisas além disso. O europeu é membro da sua família, do seu clã, da sua rede de solidariedades, da sua hierarquia profissional ou académica, da sua corporação milenar. Tudo isto parcialmente à margem – e aqui está o que é intolerável para os políticos pós-modernos e para os tecno-burocratas – da estrita racionalidade económica pela qual gostariam que o mundo se ordenasse.
O terceiro elemento comum é o facto de serem profissões cuja identidade e função se construíram na História. Quando a praga dos gestores se abateu sobre a Europa depois de ter reorganizado a América, encontrou resistências com que não contava. Quis organizar os juízes para a mais eficaz defesa dos mercados – e encontrou-os teimosamente agarrados à ancestral convicção de que a sua função é fazer justiça. Quis mobilizar os médicos para que se encarregassem da manutenção duma mão-de-obra rentável, e encontrou-os convencidos de que a sua função é tratar das pessoas. Quis converter os professores às maravilhas da indústria transformadora – num extremo da linha de montagem entram pessoas, do outro saem recursos humanos – e encontrou-os obstinadamente agarrados ao preconceito medieval de que as pessoas são a razão última do seu trabalho, e não a sua matéria-prima.
Tudo isto deve ser horrivelmente frustrante para os políticos pós-modernos, para os tecno-burocratas, para os gestores ainda frescos de Boston. Esta Europa parece-lhes velha e sem emenda. Onde esperavam encontrar colaboradores entusiásticos, encontram a cada passo empecilhos, atavismos, cepticismos obstinados – intelectuais, para dizer tudo; e palavra nenhuma exprime, no vocabulário dos nossos tecno-burocratas, um extremo mais fundo de abjecção. Os tecno-burocratas traziam nas pastas de executivo um mundo novo, pronto para ser apresentado em Power-Point aos labregos embasbacados da Velha Europa – e ninguém quis saber dele. Veio-lhes ao de cima um ódio, uma vontade de justiça ou de vingança – e encontraram a estratégia que lhes é própria, que lhes está na massa do sangue, o seu Choque e Pavor: adoptaram, como instrumento de acção e ética de trabalho, a tortura.
Aos juízes, sobrecarregaram-nos de trabalho ao mesmo tempo que os impediam de fazer justiça. Aos médicos dos serviços públicos, reduzem-nos à exaustão física, emocional e psicológica – mas não os deixam tratar doentes. Aos professores, carregam-nos de tarefas inúteis, quando não nocivas, e despojam-nos de cada minuto que possam ter de tempo livre – mas não lhes permitem, em caso algum, que ensinem.
É a tortura de Sísifo. É por aqui que esperam vergar-nos. Mas não conhecem a natureza humana. Não sabem que os juízes, os médicos e os professores são seres humanos – e que a sua tendência, como a de qualquer animal, é odiar quem os trata mal. E que vão acabar por se unir contra o inimigo comum.
Mas os burocratas sentem, confusamente, que alguma coisa não está bem. Sabiam que iam ter a oposição de muitos – mas não contavam com a insurreição de quase todos. Os governantes e os seus séquitos evitam cada vez mais visitar os tribunais, os centros de saúde e as escolas. Quando não podem evitar lá ir, vêem algo de inquietante nos olhos dos magistrados, dos médicos, dos professores, dos funcionários, dos utilizadores, dos alunos. Alguns de entre eles, mais sensíveis aos ambientes, apercebem-se de que estão a ser figurativamente apedrejados. Num ou noutro caso, sê-lo-ão literalmente – e não precisarão de especial sensibilidade para entenderem o que lhes está a acontecer.
Os políticos portugueses e europeus entraram pelas instituições da sociedade civil como Bush pelo Iraque, esperando ser recebidos com flores. Agora perguntam: porque é que nos atiram pedras?!
Permitam que lhes responda: atiramos-lhes pedras porque não temos Kalatchnikovs.
Outubro 26, 2008 at 5:25 pm
legoergosum.blogspot.com/2008/01/intifada.html
Outubro 26, 2008 at 5:49 pm
(6)Livresco, espero que que o modelo importado dos Estados Unidos tenha fim nas próximas eleições presidenciais.
Como a Europa importa todas as modas que vêm do outro lado do Atlântico, espero que o “NEW DEAL 2” tenha por cá alguns reflexos.
Ou talvez esteja iludido!
Outubro 26, 2008 at 6:36 pm
Esta ideia dos professores terem privilegios, e relativamente recente.
Ha uns vinte e poucos anos nao era assim.
Lembro-me que no Alentejo muita gente conhecia os professores por: ” meia-dose e dois num quarto”.
Sobretudo no periodo da euforia da entrada na CEE, em que comecaram a surgir mais autoestradas, e em que estas se encheram de Fiestas, Corsas, Twingos e Unos zigzagueando por entre as faixas de rodagem, o que estava a dar era a “privada” e a opcao de ser professor, era comentada com um ligeiro sorriso e a frase: “Pois…e pouco, mas certinho…”.
Outubro 26, 2008 at 6:43 pm
O que é interessante é que, por um lado, temos vários governos (o português, italiano, francês, inglês) a destruir o ensino, trabalhando para objectivos (não por objectivos, duas coisas diferentes) irrealistas e absurdos. Por outro temos a decisão da Comissão Europeia de transformar a Europa na sociedade mais avançada da sociedade da informação, algo que parece estar a fugir para bem longe (alguém ainda se lembra que o objectivo era o ano 2010?). É claro que não se podia esperar outra coisa da Central Burocrática Europeia com sede em Bruxelas e delegações aguerridas no resto da Europa comunitária. Quando acordarmos será tarde de mais.
Outubro 27, 2008 at 1:07 am
Passar os olhos pelo que se passa na Itália ou na França tira-nos a esperança de que o poder político (português) esteja interessado em voltar atrás nas suas propostas. Aliás, no contexto da UE, tudo se quer uniformizado e não há grande margem para devaneios… Precisa-se de cortar despesas e reduzir custos? AGUENTEM!
Paradoxalmente, haverá alguma esperança de inflexão de rumo(aqui)se o repúdio pelas novas “propostas” for derrotado “lá”.
Não vejo os nossos tiranetes a quererem ir pelo caminho dos seus pares, se as coisas derem para o torto.
Outubro 27, 2008 at 1:11 am
«Silvio Berlusconi reaparece por impossibilidade de uma esquerda cuja deriva ultrapassa qualquer capacidade de cálculo, e de uma direita doente de domínio e defensora de doutrinas obsoletas.»
Eu não gastaria tantas palavras para tentar explicar Berlusconi. Bastava-me dizer “Berlusconi foi eleito porque a maioria dos eleitores italianos votaram nele”.
É exactamente como cá.
Outubro 27, 2008 at 1:47 am
Gostei de ver, na coluna da direita, a situação descrita com objectividade, coisa que não existe por cá. Substitui-se a informação por entrevistas, ao primeiro que aparece e a mais alguns notaveis, onde se encontram dados incompletos e que muitas vezes só fazem sentido para quem já conhece o problema.