Domingo, 26 de Outubro, 2008


Stevie Wonder, Superstition

GUANTANAMO DOS TITULARES

Tendo por base, o normativo referenciado na postagem anterior, podemos concluir a monitorização da respectiva linha de análise crítica.
Os Titulares, ainda que salvos, numa primeira fase, da futura turbulência que irá nortear a vida dos outros docentes, ainda não assimilaram que o futuro pode ser mais negro do que o previsto. Estão enganados e na minha escola, pouquíssimos são os Titulares que se dispõem a viajar até à Alface-mor.
Por um lado, esses titulares se tiverem duas classificações negativas poderão ser despromovidos, não estando explícito o grau de baixa de categoria.
Na realidade, esses penoseiros da treta, eventualmente irão ficar, ao contrário dos restantes, inibidos de aderirem aos actuais sistemas de mobilidade especial, como seja a de prestar assistência a familiares ou devido a doença do próprio, etc. Uma das soluções, seria a da renúncia de tal título de nobreza de sangue vermelho, mas o M.E. parece ter pensado nessas eventualidades e faz da satisfação desse desejo o regresso ao passado, vira maçarico do novo século, ou seja, passa a contratado, perdendo todas as regalias, anteriormente adquiridas.

Continua…

Uma absoluta vergonha. Tenho por aqui resmas de grelhas há quase duas semanas e nem tinha agradecido a quem teve a gentileza de me as enviar.

Em seguida fica uma amostra sortida, sem uma ordem especial, excepto terem chegado todas por volta do dia 16 de Outubro, que é a data que eu agora ando a verificar pois estou a ir no sentido descendente.

A identificação das escolas não surge sempre pelas razões sabidas, assim como a identidade de quem as forneceu. O WordPress franze o nariz às que estão em ficheiros do Excel, pelo que vou ter de usar outra solução para as incluir.

Anexos:
aeddgrelha_registo_objectivos_individuais
idhgrelhaobjindivii-infante
espficha_de_objectivos_individuais
espficha_de_objectivos_individuais_exp

Manuela acusa PS de humilhar

Manuela Ferreira Leite foi ontem ao congresso dos autarcas sociais-democratas para acusar o PS de “humilhar” professores, juízes e funcionários públicos. Uma estratégia, denunciou a líder do PSD, que os socialistas utilizam sempre que pretendem avançar com reformas em alguns sectores da sociedade.

Para Ferreira Leite , o objectivo do PS é “criar na opinião pública a ideia de que essa classe deve ser marginalizada e, nessa altura, entrar com toda a força e prepotência para resolver ou tentar resolver aquilo que encarou como problemas da classe”. Por exemplo, a presidente laranja destacou que a “ideia lançada [pelo Governo] sobre os funcionários públicos foi, pura e simplesmente, a de que são uns inúteis”.

Aguardam-se propostas alternativas. Não de humilhação, claro. De tratamento. Concreto. Não só de retórica. As palavras ajudam. Mas os actos neste momento começam a ser bem mais importantes…

Inspecção das Finanças leu e-mails de funcionários para tentar detectar fugas de informação

A Inspecção-geral de Finanças (IGF) analisou milhares de mensagens de e-mail de centenas de funcionários dos impostos e leu o conteúdo de muitas dessas mensagens, designadamente as enviadas para órgãos de comunicação social com o objectivo de identificar fugas de informação. A consulta, feita sem conhecimento dos autores, foi realizada no âmbito de uma auditoria da IGF prevista no seu plano de actividades para 2006, que mereceu a concordância do ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, em Novembro de 2005.

Estes dados fazem parte de um processo aberto no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa que o PÚBLICO consultou e que teve origem numa queixa feita à Polícia Judiciária pelo anterior director-geral dos Impostos, Paulo Macedo, em Outubro de 2005. O anterior responsável da máquina fiscal denunciou um conjunto de situações que, segundo ele, indiciavam fugas de informação por parte dos funcionários que, dessa forma, violavam o dever de sigilo a que estão sujeitos.

No âmbito das investigações, foram ainda detectadas várias situações anómalas dentro da Direcção-geral dos Impostos (DGCI), como o desaparecimento de documentos ou a existência de programas para decifrar as password dos funcionários. O DIAP tentou ainda saber quem é o autor, ou os autores, do Jumento, um blogue que se dedica, essencialmente, a escrever sobre situações passadas na DGCI.

lembram-se das afinidades do nosso modelo de avaliação de desempenho com o chileno? Então espreitem lá as instruções para os avaliados em 2008. Tem coisas interessantes, incluindo a filmagem de aulas.

E tem coisas sobre os porta-folhas e instruções para as runiões com os avaliadores.

Com o devido agradecimento à Francisca S. Lopes pela referência.

Apolo ou Febo talvez um dia!

Vivemos descompassados. Esgotadas as forças da resistência, parece já nada restar. E nada pior do que serem exauridos os valores do humanismo, substituídos que foram pelo pragmatismo das máquinas e pela rigidez das estatísticas.
Feridos de morte, os professores buscam um pouco de “ar onde a respiração é doce, um pássaro ou um bosque com a forma de um grito de alegria”. E tentam. Tentam ancorar-se desesperadamente a alguns rostos atravessados de juventude ainda muito limpa. Alguns alunos ainda os apelam para sonhos não conspurcados, mas o coração desfalecido estiolou o entusiasmo. Uma legião de vespas morde-os por todos os lados e não dá tréguas.
As interrogações sucedem-se sem que se vislumbre uma resposta justa e aceitável.

Continua…

… e porque já me chegaram múltiplos pedidos para que postasse.

Sócrates arrumou Fenprof

Sócrates arrumou Fenprof – II

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Talvez sim, mas não arrumou os professores… pelo menos por enquanto, pois prognósticos só no final do jogo.

Eis como o excelso SE Lemos resume a situação dos professores que contestam as políticas do ME em declarações ao JN:

Valter Lemos admite que houve, nesta legislatura, uma alteração significativa à organização do trabalho dentro da escola, que obriga a uma maior permanência do docente no estabelecimento de ensino, bem como a introdução do princípio de carreira, por ser a única classe que não o tinha. “São alterações profundas, estruturais”, reconhece, afirmando, por isso, compreender a “perplexidade, intranquilidade e estupefacção”.

Pois, até verdade.

  • Perplexos estamos pela forma como esta equipa chegou à 5 de Outubro sem passado digno de referência e, sem qualquer tipo de fundamentação empírica e/ou estudos que o demonstrassem (para além do famoso “estudo” de João Freire sobre o Estatuto da Carreira) mas muita habilidade comunicacional, impôs uma agenda pseudo-reformista eivada de equívocos, soluções erradas e formas encapotadas de promover um falso sucesso educativo. Tudo aconchegado num ataque sem precedentes ao desempenho dos docentes que se traduziu em repetidas declarações atentatórias da dignidade profissional da esmagadora maioria.
  • Intranquilos estamos porque sabemos que os efeitos negativos e perversos destas políticas se irão fazer sentir de forma bem grave a médio prazo, quando a tríade ministerial estiver bem resguardada em prateleiras douradas mas os professores que resistirem à debandada e ao cilindro compressor ainda estiverem no activo e forem obrigados a assistir à necessidade de rever tudo o que foi feito de errado.
  • Estupefactos estamos por ser possível a um secretário de Estado produzir legislação em forma de despachos sucessivamente desautorizados pelos tribunais sem que sofra qualquer sanção política e, pelo contrário, pareça beneficiar de uma imunidade especial concedida por uma qualquer afinidade com quem tem o poder de mando (repetição de exames, pagamento de aulas de substituição, etc).

Loucura ou Maldade?

Que o diploma sobre a avaliação docente é um verdadeiro monstro burocrático já todos constatámos. Que a esse monstro foram sendo implementadas mais cabeças, com os diferentes despachos e memorandos que lhe foram sendo anexados, em nome da regulamentação do monstro, transformando-o numa hidra de Lerna, também já todos nos apercebemos. Que os serviços intermédios do ME, com as suas estranhas interpretações, ainda, o “amostrenguem” mais, também já todos sabemos.

Que entre nós ainda consigamos aprimorar o “bicho” tornando-o ainda pior do que é, é que já ninguém entende.

Espanto-me, cada vez mais, como alguns elementos de uma classe diferenciada, portadora das mais altas habilitações académicas, revela a sua total iliteracia quanto à leitura, interpretação e aplicação de simples articulados de uma legislação.

Que a maioria das leis são mal redigidas é uma verdade. Que a maioria das leis são dúbias é outra verdade. Que nós não somos juristas também é verdade.

Por isso, o que temos que fazer é, apenas, ler. Ler como quem lê um texto. Ler, analisar e aplicar. Não temos que inventar. Não temos que devanear sobre… Não temos que inventar sobre…

Também sabemos que o considerar os resultados dos alunos, como um dos pontos chaves desta avaliação, é um dos maiores erros do monstro. Todos estamos cientes de que este item apenas visa a obrigatoriedade de mostrar resultados para as estatísticas e não o melhorar do ensino e ou da aprendizagem. Por isso mesmo, ainda se torna mais compungente o resultado da criatividade de que enfermam alguns “artistas grelhadores”.

Continua…

Não apenas a questão da luta política que levou ontem 2,5 milhões e italianos às ruas, mas em particular das reformas edicativas da ministra Mariastella Gelmini.

Corriere della Sera, 26 de Outubro de 2008

Chamo especial atenção para o facto de a mesma estar a ser dinamizada principalmente por alunos, ou em articulação com os professores.

Em causa, por exemplo, o facto de – após dez anos da experiência das equipas educativas no ensino elementar – se querer voltar ao professor único, o que tem alguns aspectos curiosos, se fizermos a comparação com a evolução prevista para Portugal.

Neste caso, o principal objectivo é diminuir em 87.000 o número de docentes.

Por outro lado é curioso (ver a parte assinalada do lado esquerdo da página) a forma como foi encarada como ofensiva a representação de uma peça por alunos em que Berlusconi aparecia com um nariz de Pinóquio, motivando queixa formal por parte de elementos do PdL (Il Popollo della Libertá).

Libération, 25/26 de Outubro de 2008

Para quem não conheça, os RASED – Les Réseaux d’Aides Spécialisées aux Elèves en Difficulté – constituem a rede de docentes de apoio a crianças com dificuldades de aprendizagem e NEE em França. Materiais sobre a questão aqui.

Muito melhor agora, depois da Teresa Marques a ter trabalhado como a minha preguiça não permite.

Por que protestam os professores?

Abordagem diversificada, mas com um ponto de partida ligeiramente enviesado, algo que desde logo referi ao jornalista. Para quem achar que as minhas declarações são demasiado lineares, no post abaixo tem a transcrição completa do meu depoimento escrito em resposta às questões colocadas.

Como convém deixar clara a minha posição e as todas declarações feitas, aqui ficam as questões que me foram colocadas pelo jornalista Jorge Pinto do Jornal de Notícias e as minhas respostas. O material foi usado com rigor mas, como é natural por questões de espaço e perspectiva, de forma lacunar.

Questões:

Como lhe disse na nossa curta conversa telefónica, a ideia do trabalho é tentar responder à pergunta “Por que se manifestam tanto os professores?”. Partindo dessa ideia genérica, gostaria que me desse a sua opinião sobre algumas questões:

– Considera, ou não, que há uma vulgarização das manifestações ou protestos por parte dos professores que gera uma descredibilização das suas reivindicações?

– Em que medida os sindicatos têm contribuído para essa vulgarização, no caso de entender que existe?

– A educação, em geral, e os professores, em particular, têm sido utilizados como arma política, quer pelo Governo quer pelos sindicatos?

– Que repercussões têm essas manifestações no sistema de ensino e em que medida afectam, ou não, os alunos?

– Que imagem têm os professores junto da opinião pública?

– O aparecimento de movimentos de professores à margem dos sindicatos e a utilização, por exemplo, de blogues ou de SMS para “fazer passar a mensagem” traduzem uma divisão da classe. Se sim, é resultado de quê?

Respostas completas:

Respondendo por pontos:

Ponto prévio: exercendo a docência, com intermitências, desde 1987, mas de forma contínua desde 1992, só em 2008 participei em manifestações de professores, uma na capital de distrito onde resido e lecciono e a de 8 de Março. Nunca fui sindicalizado, nem pertenço a qualquer dos recentes movimentos de professores. Pelo que as opiniões que expresso são puramente individuais e são as de alguém que está longe de ser um tradicional activista da contestação.

1.
Os protestos e manifestações de professores não podem ser todos enquadrados da mesma forma. É certo que durante algum tempo assistimos ao que eu classificaria como a coreografia ou ritualização da contestação sindical, por ocasião da entrada de um novo governo e ministro(a) em funções ou nos períodos ligados às negociações salariais. Esta situação durou talvez desde final dos anos 80 até ao início desta década.
Mas houve sempre outro tipo de protestos, nem sempre com o mesmo impacto em termos de participação que tiveram efeitos positivos  na resolução de outro tipo de situações, mais específicas, que afectaram grupos mais ou menos restritos de docentes ao longo dos tempos.
A frequência deste tipo de acções compreende-se, em grande parte, pelo facto dos docentes constituírem o grupo profissional qualificado mais numeroso a trabalhar para o Estado e pelas condições em que desde há muito grande parte se viu obrigada a trabalhar (precariedade do vínculo laboral de muitos milhares durante vários anos, instabilidade nas colocações, inexistência de apoio em caso de desemprego).
A descredibilização das suas reivindicações nunca poderá ser encarada pelo ponto de vista da frequência dos seus protestos, mas sim da justeza dos mesmos. Se são justas são justificadas.
Ora, se é certo que a tal coreografia da contestação, muito marcada durante os anos 90 e aceite tácita ou mesmo activamente pelos sucessivos governos, poderá ter conduzido a uma saturação por parte de quem está “de fora”, não é menos certo que também cansou muitos docentes que se foram desafeiçoando das tradicionais “formas de luta” e só nestes últimos tempos demonstraram estar de regresso a uma intervenção mais activa nos seus próprios destinos. É o meu caso, por exemplo.

2.
Os sindicatos contribuíram para isso na medida em que, incapazes durante muito tempo de uma renovação de mentalidades e metodologias, se deixaram adormecer por essa ritualização negocial baseada em acções de rua seguidas de umas quantas reuniões de gabinete em que as coisas lá se resolviam, com as assinaturas dos acordos a variarem conforme o partido no poder. Mas, mais grave do que isso para a imagem do movimento sindical foi a sua progressiva atomização na década de 90, com a criação de micro-sindicatos de escassa representatividade e cujos objectivos a larguíssima maioria dos docentes nunca entendeu. Uma coisa é recusar uma unicidade sindical, outra criar sindicatos com 500 membros reais numa classe de 140.000 profissionais.

3.
A Educação é, neste momento, a arma política por excelência deste Governo. Aliás, tudo o que se tem passado desde o início do actual ano lectivo, com uma evidente promiscuidade de iniciativas do Governo com os interesses do partido no poder, é absolutamente reprovável. O uso das escolas como locais para uma despudorada pré-campanha eleitoral, é algo que choca qualquer observador neutro, quanto mais aqueles que nelas trabalham.
Quanto aos sindicatos, em particular os de docentes, é natural que a sua razão de existir passa pela representação e defesa dos professores como interlocutores do Ministério da Educação e, por isso mesmo, a sua acção assenta na mobilização do descontentamento dos docentes quando ele existe. O problema, contudo, é quando à lógica da representação dos docentes e dos seus interesses se sobrepõem outro tipo de estratégias, as quais passam muito pelas afinidades político-partidárias das suas cúpulas e pelos seus calendários de acção política.

4.
As manifestações de docentes não têm especial repercussão no trabalho quotidiano com os alunos, para além do facto desses alunos passarem a saber, também pela comunicação social, que existe a expressão pública de um descontentamento pelas condições de trabalho que os próprios alunos conhecem.
Aliás, se houve evolução positiva nos últimos dois anos de recrudescimento da contestação docente às políticas ministeriais foi o cuidado extremo em não prejudicar o desempenho profissional e não prejudicar os alunos.
Iniciativas como as greves rituais à sexta-feira desapareceram felizmente do horizonte e espero que só voltem mesmo como último recurso  não como ferramenta ideológica ao serviço de estratégias externas aos interesses da classe docente ou de uma sua facção.

5.
Com base em todos os estudos nacionais e internacionais que têm sido conhecidos nos últimos meses (e foram vários) os docentes são uma das classes profissionais mais apreciadas, estimadas e confiáveis para a população portuguesa, o que revela duas coisas para mim muito importantes: a primeira, que apesar do esforço do ministério para acusar os docentes dos males do sistema educativo, quem de mais perto convive connosco sabe que isso é mentira; a segunda, que existe um enorme desfasamento entre a opinião da população e a opinião publicada e os desafectos pessoais e particulares de um grupo restrito de opinadores residentes na comunicação social.

6.
O aparecimento de movimentos de professores e de iniciativas independentes de organizações preexistentes representa uma renovação da mobilização da classe docente que veio pressionar as metodologias anquilosadas e rotinadas de funcionamento dessas organizações, cada vez mais viradas para dentro e numa lógica do “venham ter connosco”. Não é um problema de divisão, mas sim de agregação à contestação de muitos dos desiludidos com a forma como as coisas tinham entrado num remanso ineficaz perante um poder político mais agressivo. No fundo todas estas movimentações, que também têm surgido em outras paragens como em Itália na última semana, visam contestar as políticas educativas em curso, mas também demonstrar ao movimento sindical que se deve mostrar mais dinâmico e aberto às aspirações de toda a classe docente e não apenas aos seus indefectíveis. Que alguns transformem críticas naturais em democracia em ataques anti-sindicais é apenas sinal da posição defensiva em que se colocaram e um erro estratégico enorme.

CONTRA A ESPADA DE DÂMOCLES O MEU GRITO DE REVOLTA!

UNIDADE E LUTA É O CAMINHO!

João Vasconcelos (*)

Sou membro do Conselho Nacional da Fenprof e também faço parte do Movimento Escola Pública pela Igualdade e Democracia. Mas acima de tudo sou um modesto professor. Um professor que discordou – tal como todos os professores do meu Agrupamento que reuniram no Dia D – do Memorando de Entendimento assinado entre o Ministério da Educação e a Plataforma Sindical de Professores. E porquê? As razões encontram-se expostas num artigo que escrevi no passado dia 14 de Abril (antes do Dia D, 15 de Abril e em que a Plataforma já anunciara que aceitava o Memorando). Este artigo, com o título “Vitória Pírrica?”, circulou pelos blogues e até motivou a criação do blogue http://fenixvermelha.blogspot.com/, (aqui se encontra como 1º artigo), perante o grande descontentamento e revolta face à previsível assinatura do memorando. Na reunião do Conselho Nacional da Fenprof, de Junho, continuei a discordar do acordo e, a realidade dos últimos desenvolvimentos – com apenas um mês de aulas – estão a provar a justeza das minhas posições (e de todos aqueles que não aceitaram o memorando, um pouco por todo o país).

Escrevi em “Vitória Pírrica?” que o «Memorando (…) se transformará numa grande vitória de Sócrates e da Ministra e numa profunda e dramática derrota dos professores, se estes não continuarem vigilantes e mobilizados. Afinal o que se conseguiu com o Memorando? Muito pouco, tendo em conta que vieram 100 mil professores para a rua. A Marcha da Indignação do passado dia 8 de Março é a prova provada do descontentamento e da revolta de uma classe profissional como nunca se viu neste país. E tudo levava a crer que os professores estavam dispostos a continuar uma luta que só agora a iniciaram em força. Ficamos com um sentimento de vazio e com uma sensação de que era possível ir muito mais além. Conseguiram os professores uma vitória pírrica? Se assim foi, vão ser, nos próximos tempos, inevitável e clamorosamente derrotados. E a Escola Pública vai ser, inexoravelmente destruída».

Efectivamente, digo e reafirmo hoje que os professores conseguiram “uma mão cheia de nada” e a questão central – esta avaliação de desempenho – apenas foi protelada no tempo. Com uma agravante: bem muito pior do que julgou a Plataforma Sindical. Passou apenas um mês de aulas e os docentes estão fartos, já não aguentam mais. Tal como no início do ano, a sua revolta surda sente-se e ouve-se nas escolas e vai explodir de novo. É por isso cedo para Sócrates e a Maria de Lurdes cantarem vitória, pois os professores vão mobilizar-se de novo e voltar à rua, não obstante ter sido assinado um Memorando de entendimento. A próxima vitória não poderá ser à moda de Pirro – as consequências para a classe docente seriam desastrosas.

Voltando ao artigo, sublinhava a dado passo: «Só nos meses de Junho e Julho de 2009 – como prevê o Memorando – é que haverá ‘um processo negocial com as organizações sindicais, com vista à introdução de eventuais modificações ou alterações’ do modelo. Mas então não se trata de um modelo de avaliação altamente burocrático, injusto, punitivo, subjectivo, arbitrário, economicista, quer vai manter as quotas e assente numa estrutura de carreira dividida em duas categorias? É este o cerne da questão – o Estatuto da Carreira Docente tem de ser revisto, alterado, revogado e os professores jamais poderão aceitar estarem divididos, de forma arbitrária, em duas categorias. O grito dos professores mais ouvido foi: ‘categoria só há uma, a de professor e mais nenhuma’. Disto não podemos abdicar».

Reafirmo que aqui reside o cerne da questão – trata-se de um modelo de avaliação que divide os docentes em duas categorias e que é economicista, punitivo, subjectivo, arbitrário, injusto e terrivelmente burocratizado. Veja-se o que está a acontecer nas nossas escolas – são reuniões e mais reuniões, grelhas para tudo e para nada, objectivos individuais que não têm ponta por onde se pegue, mais instrumentos para isto e para aquilo, são os inúmeros planos de aula, as aulas assistidas por titulares com formação científica diferente dos assistidos, é o receio da não obtenção de créditos e a penalização daí decorrente, é a conflitualidade nas escolas a aumentar (e infelizmente há sempre os mais papistas que o Papa). São medidas que não promovem a melhoria pedagógica e científica, antes pelo contrário e que visam o controlo administrativo dos professores e a proibição de ascenderem ao topo da carreira. É a Espada de Dâmocles que se encontra suspensa sobre a cabeça dos professores e educadores deste país. Nunca, em caso algum, a Plataforma Sindical –e em particular a Fenprof, como a estrutura sindical mais representativa da classe docente – devia ter assinado um acordo que contemplasse a manutenção do actual ECD. E os professores estavam dispostos a continuar com a luta.

Concluía em “Vitória Pírrica?” que os professores «terão de continuar a lutar (…), mostrando à Plataforma Sindical que é possível obter conquistas bem mais significativas (…). A Plataforma deverá continuar a manter a unidade e continuar a ser a porta-voz dos anseios e reivindicações dos professores. Um passo precipitado ou mal calculado poderá deitar tudo a perder, depois será tarde demais para voltar atrás. Por mim não assinava o acordo e continuava com a luta. Há razões muito fortes para tal. Temos a força de 100 mil professores na rua. Este é o nosso ponto forte e, simultaneamente, o ponto fraco de Sócrates, de Maria de Lurdes e do governo».

Os 100 mil professores que protagonizaram a Marcha da Indignação no passado dia 8 de Março nas ruas de Lisboa, responderam em uníssono aos apelos dos Sindicatos e dos Movimentos. A unidade foi a razão da nossa força e todos compreenderam isso. Cometeu-se um erro com a assinatura do Memorando. Mas tudo isto pode ser ultrapassável continuando a apostar na unidade e de novo na luta. Um novo passo errado acarretará, certamente, consequências desastrosas para o movimento docente e para a Escola Pública, que perdurará por largos anos. Respondendo aos anseios, aspirações e revolta dos professores alguns Movimentos convocaram uma manifestação nacional, para Lisboa, dia 15 de Novembro. Mais uma vez os Movimentos se anteciparam aos Sindicatos, não havendo nenhum mal nisto. Já não vivemos nos séculos XIX e XX, a vida mudou, os tempos são outros – só não mudou a exploração e a opressão dos poderosos sobre os mais fracos, antes agravou-se. E os Movimentos hoje fazem parte da vida e das lutas dos Povos. Assim como os Sindicatos continuam a ser imprescindíveis – quem não compreender isto não percebe a realidade onde se movimenta.

A divisão será o pior se acontecer no seio dos professores e em nada acrescentam as declarações anti-sindicais ou anti-movimentos. Todos fazemos falta, tal como aconteceu no passado dia 8 de Março. Quem protagonizar a divisão só irá dar mais força a um governo que despreza, massacra e procura destruir a classe docente e a Escola Pública e, será meio caminho andado para, mais cedo do que espera, ficar arredado da marcha inexorável da História.

O meu apelo é para que todos se entendam – Sindicatos e Movimentos de Professores – chegando a um consenso para a realização, em conjunto, de uma poderosa Manifestação Nacional no mês de Novembro. Condição indispensável para a obtenção da vitória. Os professores irão provar que têm voz e que têm força. Entendimento sim, mas desde que se aniquile o “monstro” (esta avaliação de desempenho e o ECD). Caso contrário, seremos devorados. Contra a “Espada de Dâmocles” o meu grito de revolta! Unidade e luta é o caminho!

(*) Membro do Conselho Nacional da Fenprof, do Movimento Escola Pública e Delegado Sindical na Escola E. B. 2, 3 D. Martinho de Castelo Branco – Portimão

Nota: Caso considerem útil, agradeço a divulgação pelos vossos contactos e blogues