Uma espécie de Carta Aberta

A situação que aqui vou reproduzir (recebi-a por e-mail e confirmei por telefone) é verdadeira e passou-se com uma mãe – minha amiga há muitos anos – que sente que a Inclusão é uma treta… na boca e na prática de muita gente importante!

A mim, pessoalmente, chocou-me muito saber que isto sucedeu!

Não conhecesse eu esta mãe há tanto tempo (e o filho dela desde que nasceu…) e eu diria que é tudo mentira! Mas conheço a história em pormenor… e como acredito piamente que é verdadeira, não posso deixar de a denunciar!

Obviamente, a responsabilidade do conteúdo é de quem assina… mas eu estou profundamente solidário… e – acrescento – indignado!

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A situação descrita não é fantasia, passou-se comigo na sexta-feira (12.09.2008).
Desloquei-me ao Pavilhão de Portugal (Coimbra) para obter informações sobre as aulas de Expressão Musical aí ministradas pelo Maestro Virgílio Caseiro, para poder inscrever o meu filho.

Do atendimento efectuado com uma senhora (Directora?), resultou a informação de que não saberia se o senhor Professor aceitaria.

Eu retorqui: “O Doutor Virgílio não aceita deficientes?” e saí…

Passado 4 a 5 minutos recebo uma chamada telefónica do Sr. Professor Virgílio Caseiro, Maestro conceituado e respeitado que se disponibilizou a telefonar-me prontamente!!!

Fiquei surpreendida! Contudo, nos primeiros segundos percebi a intenção: descartar-se o mais rapidamente possível de um “problema… e bastou ouvir esta frase: “aconselho a não inscrever o seu filho!”

Obrigada, senhor Professor, pela frontalidade. Marketing dissuasor… funciona!

O senhor Professor tem um currículo notável com 10 anos de experiência de trabalho com deficientes mentais. (Ver site Orquestra Clássica do Centro).
No decurso do telefonema fez uma dissertação sobre Trissomia 21 como se estivesse num Congresso como orador e como se eu fosse o público nessa plateia.

Eu também sei muita teoria sobre Trissomia 21, mas como mãe quero o melhor para o meu filho. Pensava eu que poderia encontrar uma boa resposta nas suas aulas.
Enganei-me!

Não sou da área, mas sei o que são Pedagogias Musicais.
Fiz dois cursos com o Pedagogo Belga JOS WUYTACK, que também cita no seu Currículo.
Que fantástico ouvi-lo dizer: “O menino seria um problema para o grupo de 24, prejudicaria o desenvolvimento da aprendizagem, considerando que não acompanharia o grupo”. Maravilhoso ouvir que “também seria prejudicial para o menino integrar um grupo de crianças “normais” porque elas seriam muito cruéis com a diferença”.

Não estava a acreditar no que ouvia!… Um discurso incongruente, definido nas primeiras palavras.
É duro demais para uma mãe que ao longo de 9 anos tem integrado o seu filho na sociedade como um igual!

Afinal, pergunto eu: quem faz a diferença, quem exclui? São as crianças ou são os adultos e os profissionais que educam para a exclusão?

Não quero “caridade” como falou, nunca pedi caridade. Quero apenas igualdade de oportunidade. Mas apercebi-me a tempo que nas suas aulas não existe.

Obrigada por me ter poupado a uma noite ao relento para conseguir vaga para as suas aulas.

Obrigada por me acordar para o preconceito! Estamos no Séc. XXI e ainda funcionamos com o preconceito, porque o senhor não me conhece nem conhece o meu filho, mas sabe que é Trissomico e isso basta-lhe para fazer uma dissertação… e exclusão.

O preconceito é uma arma forte, poderosa!

Coimbra, cidade do conhecimento… nunca pensei!

Lamento que os meus impostos contribuam para o desenvolvimento de projectos com princípios elitistas de desrespeito e intolerância!!!

Bem-haja às instituições desta cidade e a todos os profissionais e colaboradores que têm uma visão mais alargada e contribuem para a Integração.

Bem-haja ao Colégio Santa Maria, ao Clube Náutico de Coimbra, ao ABC dos Tempos Livres, ao Hospital Pediátrico de Coimbra, à Catequese da Paróquia de São José, à Caritas Diocesana de Coimbra, ao Espaço Bolas e Rebolas, ao Agrupamento Martim de Freitas, ao Conservatório de Música de Coimbra, ao Rancho Folclórico das Salineiras de Lavos e a todas as instituições e pessoas que desde o seu nascimento o tratam como um igual, sem diferença ou preconceito.

Descanse o Sr. Professor e os Encarregados de Educação: não vou inscrever o meu filho, não que me faltem as forças, mas percebi a tempo que o espaço não é para nós!…

Seguiremos em frente, a música toca, as cabeças enterram-se na areia, a batuta sobe e o público aplaude de pé. Está tudo certo, a harmonia paira no ar!!!

Natércia Mirão

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