É claro que a ideia de instituir prémios de mérito para os alunos é boa.

Claro que traduzir esses prémios em dinheiro é duvidosa.

Para esta equipa do Ministério da Educação tudo parece rodar em torno de números e, se possível, traduzir-se em euros. De “poupança” nos gastos com os docentes. De “investimento” nos gastos com operações de propaganda e outras medidas do género.

São não sei quantos milhões para os computadores. São não sei quantos milhares de livros para o 1º ciclo. São não sei quantos para os quadros interactivos. E assim por diante.

É uma espécie de ideologia de contabilidade de mercearia, ou melhor, de grande superfície.

Claro que de gente que pensa desata maneira só se pode esperar que premiar o desempenho escolar dos alunos se traduza em dinheiro e não em qualquer outro tipo de recompensa de natureza mais pedagógica ou educativa.

Toma lá 500 euros e não se pensa mais nisso. Gasta-os como quiseres. Fizeste o 12º ano, entraste para as boas estatísticas. Mereceste. Toma lá um dinheirinho.

O problema é que, com este tipo de sinais, a mensagem enviada para os alunos é de que tudo isto não passa de um negócio. Ao contrário dos docentes, que devem trabalhar mais pelo mesmo dinheiro, ou menos, os alunos devem trabalhar para ganhar dinheiro.

Claro que, por enquanto, não se vai notar muito, mas as potenciais «ondas de choque» poderão ser demolidoras, mesmo no plano das relações familiares. Porque não há razão para que a miudagem não comece em casa a pedir – como já acontece – compensações monetárias pelo seu desempenho. Dá-me cá 5 euros por cada nível 5 ou por cada positiva nos testes. Exagero? Delírio? Nem por isso. Só quem não tem o seu tirocínio feito pelas nossas escolas é que não sabe que, quem pode, já é muitas vezes assim que motiva a descendência, na incapacidade de desenvolver outros arguemntos e incutir um mínimo de ética nisto tudo.

MAs agora passa a ser a política oficial do ME. Boas notas em trocas de umas notas. O «negócio» até acaba por sair bem barato, porque fica por meio milhão de euros, uma ninharia perante as «poupanças» que o ME tem feito.

Bem podem os especialistas ouvidos por Natália Faria, autora da peça do Público, insurgir-se contra este tipo de mercantilização do desempenho escolar.

Bem pode Rita Xarepe afirmar que:

Tudo isto é uma deturpação dos valores que a escola deve passar e que devem ir no sentido de criar cidadãos conscientes e intervenientes na sociedade porque querem ser felizes. E isto não se faz pondo as crianças a cumprir tarefas a troco de dinheiro.

Ou Sérgio Niza que:

É um truque ridículo que assenta na brutal ignorância dos governantes acerca das questões da Educação [e lamento que]  as pessoas que gerem a Educação tenham esquecido que esta é um contrato de natureza social, onde adultos e jovens se comprometem entre si a atingir metas de conhecimento.

O que interessa é que o ME irá dizer que gastou X euros a recompensar o «mérito» e poderá fazer uma operação mediática coma  entrega dos cheques. Quanto às famílias não sei o que pensarão. Algumas «famílias», como é habitual, devem achar bem.

Já agora, para quando um prémio para os professores que derem melhores notas em cada escola, departamento ou grupo disciplinar?

A bem do combate ao insucesso escoler, que tal um suborno generalizado em vez do chicote?

É que premiar só um Professor ou meia dúzia por ano é pouco!

Eu não estou à venda, mas há muito adesivo que merece a devida recompensa.