Para além das declarações da protagonista, a entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues ao Expresso é ainda notável ainda pela forma como é conduzida pelos entrevistadores, que se limitam a estender um tapete rosado para que a Ministra da Educação surja como uma justiceira reformista, objecto de uma contestação de rua movida por uma cambada de malandros, os docentes.

As 8ª e 9ª perguntas colocadas a MLR contêm em si todo um programa interpretativo e um juízo de intenções sobre os actos dos professores. Basta ler:

Como podemos ter confiança num sistema de ensino onde a quase totalidade dos professores não quer ser avaliada?

e

Esperava que os professores respondessem à exigência de serem avaliados com uma “manif” de 100.000 professores?

Repare-se que, em duas penadas, os entrevistadores dão como adquirido, sem o demonstrarem ou se fundamentarem em algo mais do que preconceitos pessoais (várias vezes alardeados por Henrique Monteiro nas suas colunas de opinião) que:

  • O sistema de ensino não merece confiança porque os professores não querem ser avaliados.
  • A «quase totalidade» dos docentes não quer ser avaliada.
  • A manifestação de 8 de Março foi motivada apenas pela recusa da avaliação.

Quando a desonestidade intelectual da pergunta é tamanha, à resposta nem é requerido que se esforce, como acontece com as declarações que se seguem de MLR.

Mas estes entrevistadores são os mesmos que, de tanta vontade de apresentar MLR como uma espécie de Pasionaria, não hesitam na primeira página e depois no texto em escrever que ela «foi o rosto da primeira grande manifestação contra o Governo».

Claro que a frase está mal construída, porque MLR não foi o rosto de nenhuma manifestação (pelos menos desde início dos anos 90, quando iniciou a rota de afastamento do ideário anarquista), mas sim o seu alvo preferencial.

Colocá-la como frontwoman da Marcha da Indignação só poderia ocorrer a espíritos muito planantes ou então a quem usa a Língua Portuguesa como se de um empecilho se tratasse.

Porque não deixaram que fosse o Comendador Marques de Correia a lavrar a prosa?