Começo a encarar com uma inusitada ironia e condescendência as prosas domingueiras de Daniel Sampaio. Houve o período em que as li para discordar, um período em que pura e simplesmente as deixei de ler por enfado e agora estou no período de lê-las para ver até que ponto o autor consegue mudar de posição, não mudando, ou melhor, como consegue não mudar de posição, mudando aparentemente de discurso. E vice-versa. Ou vice-versa. Ou antes pelo contrário.

Esta semana a crónica chama-se «Sem sentido» (desculpem-me mas o meu scanner está já em período estival e corta-me parte da página pelo que o título ficou de fora) e destina-se a demonstrar como «é  estéril ou desajustada» a discussão em torno dos exames e do seu eventual «facilitismo».

Daniel Sampaio critica o ME por reagir com «acinte» às críticas e critica os críticos por desvalorizarem as estatísticas que o ME exibe. Afiram DS que «é tempo de Portugal poder apresentar dados numéricos válidos sobre os diversos sectores de actividade».

Ora o que os críticos das estatísticas educacionais mais apontam é exactamente a sua falta de rigor. por se subordinarem os critérios técnicos da recolha de dados aos interesses políticos. O que não é exclusivo da Educação, tendo sido nos últimos anos visível em matérias como o apuramento dos dados sobre o nível de vida, défice das contas públicas, inflacção e desemprego. Ou seja, em matérias com evidentes repercussões políticas.

Mas depois, ao desenvolver o seu raciocínio, DS acaba por admitir que se calhar, talvez, quiçá, porventura, provavelmente e quase com toda a certeza, por cá as estatísticas não são assim muito fiáveis, atendendo ao modo como se registam as ocorrências, como as mesmas são transmitidas e depois trabalhados os dados numéricos.

Em suma, dá razão aos críticos das estatísticas.

E culmina afirmando que a melhor maneira de sabermos como isto está a correr é esperar pelas «comparações internacionais, em testes validados para alunos em condições semelhantes», que até ao momento não têm corrido nada bem para Portugal.

Pois…

Mas não é isso que os críticos do ME, aqueles que a senhora Ministra chama «pessimistas de serviço», estão cansados de repetir?

Que os exames e estatísticas de produção interna e para uso propagandístico estão longe de ser (con)fiáveis?

O que não tem sentido nesta prosa de Daniel Sampaio é ele não assumir claramente aquilo que defende. Ou se apenas acha que devemos esperar pelos testes feitos lá fora para sabermos se as coisas estão a correr bem ou mal.

Mas nesse caso está a admitir, de forma quase explícita, que os nossos instrumentos internos de avaliação e monitorização do sistema educativo de pouco servem.

Não seria melhor ser claro a esse respeito?