Domingo, 29 de Junho, 2008


Não façam batota e digam lá quem é aquele senhor que parece estar, com muita calma, a ensinar o Eric Clapton a tocar guitarra?

O Fafe tem obrigação de saber, claro… Acho que a este nem ele consegue botar defeito…

Como episódio puramente anedótico, vou apenas dizer que foi dele um dos meus primeiros LP’s.

Com os devidos agradecimentos à Ana pelo envio, aqui deixo as quatro páginas do «Balanço e Observações Finais» do estudo feito, por encomenda de Maria de Lurdes Rodrigues a João Freire, acerca da reorganização da carreira docente:

Chamo em especial a atenção para alguns aspectos a desenvolver futuramente, caso assim o tempo livre e a paciência o permitam:

  • A forma como o autor do estudo parece tê-lo conduzido a pensar no que agradaria ao(à) autor(a) da encomenda, nomeadamente quando afirma que apesar de «partir de uma visão própria da situação» se julgar que a mesmo é «no essencial, partilhada pelos responsáveis do ME, tal como foi entrevisto na reunião inicial havida».
  • O modo como, apesar de se anunciar como um estudo comparativo, se conclui que «o esforço analítico da comparaçâo da situação actual dos docentes com outras profissões portuguesas e com as homólogas carreiras em certos países também não pôde constituir, verdadeiramente, uma fundamentação para as propostas de reorganização do estatuto profissional dos professores. A informação disponível não permitiria, por certo ir mais longe». Maravilhoso!!! Afinal o estudo feito não serve para grande coisa e a reorganização do estatuto da carreira docente não se deve basear em nenhum tipo de análise comparativa com outras carreiras nacionais ou com a estruturação das carreiras docentes em outros países. Ao menos, a admissão clara do que já se sabia.
  • O modo como estas reflexões finais se desfiam e desfilam mais como um guião para a condução da negociação (mesmo quando não o assume) com os sindicatos e para a imposição das novas medidas aos docentes, fornecendo um aparato ideológico e instrumental para conduzir a acção do Ministério, do que como conclusões de um estudo académico ou «científico» sobre a realidade existente. No fundo, João Freire explica à sua discípula Maria de Lurdes Rodrigues, com alguma sofisticação e muito cinismo, como deve agir sobre uma realidade que se quer mudar, mesmo se nada do que foi objecto do estudo parece fundamentar o sentido dessa mudança.
  • A proposta, quase a finalizar, de colocar uma espécie de «espiões» do ME a controlar o funcionamento das Escolas, considerando-se para isso como mais adequados os elementos da Inspecção Geral da Educação.

Este documento é essencial, na minha opinião e não só, para compreendermos que o Estatuto da Carreira Docente não foi mudado por se percepcionar que o anterior estava mal ou porque a mudança visava compatibilizar a docência com outras carreiras da Função Pública ou a carreira docente em outros países (como tanto o ME anunciou), mas apenas porque a sua organização se revelava incómoda para o poder político. Por questões organizacionais, orçamentais mas, pelo que transpira de muitas das páginas deste estudo, principalmente por questões de controle do exercício da doc~encia, visto como uma profissão demasiado livre e horizontal.

No entanto, e apesar de afirmar que «o diagnóstico que foi feito da situação pode parecer menos rigoroso e fundamentado do que aquilo que seria desejável ou expectável», este estudo serviu claramente como a base de acção do ME durante o ano de 2006.

Que o seu autor e a executora tenham o lastro curricular e ideológico que lhes conhecemos só torna tudo isto mais lamentável e tortuoso.

Give me your hungry, your tired your poor Ill piss on em
Thats what the statue of bigotry says
Your poor huddled masses, lets club em to death
And get it over with and just dump em on the boulevard

Uma vénia para o mestre e para o último álbum dele que ainda comprei em vinil.

Marinho recebe 40 mil euros em 2011

Bastonário deliberou em pleno conselho geral uma regra que lhe garante receber seis ordenados no final do mandato, em 2011, ‘de uma vez só’, descrito como um subsídio de ‘reintegração’ na profissão.
António Marinho e Pinto chegou e cumpriu. Ao décimo dia em que exercia o cargo de bastonário da Ordem dos Advogados (OA), a 18 de Janeiro de 2008, decidiu instituir uma remuneração fixa mensal para o cargo pelo qual tinha sido eleito em Novembro de 2007. O valor? Equivalente ao do procurador-geral da República, cerca de 6 mil euros.
Mas não ficou por aqui e levou a votação, no primeiro Conselho Geral a que presidiu, uma cláusula que obriga a que “aquando a cessação de funções exercidas no regime de exclusividade de bastonário, este receberá o equivalente a metade da compensação anual referida”.

Ou seja, em 2011, quando deixar o cargo de bastonário dos 25 mil advogados de Portugal, Marinho e Pinto, eleito pela larga maioria de uma advocacia “deprimida e não de luxo”, conforme ele próprio explicou em plena fase eleitoral, irá receber quase 40 mil euros, de uma vez só, definido como um subsídio de reintegração na função de advogado.

A vidinha é a vidinha, meus amigos… Coerências à parte…

Começo a encarar com uma inusitada ironia e condescendência as prosas domingueiras de Daniel Sampaio. Houve o período em que as li para discordar, um período em que pura e simplesmente as deixei de ler por enfado e agora estou no período de lê-las para ver até que ponto o autor consegue mudar de posição, não mudando, ou melhor, como consegue não mudar de posição, mudando aparentemente de discurso. E vice-versa. Ou vice-versa. Ou antes pelo contrário.

Esta semana a crónica chama-se «Sem sentido» (desculpem-me mas o meu scanner está já em período estival e corta-me parte da página pelo que o título ficou de fora) e destina-se a demonstrar como «é  estéril ou desajustada» a discussão em torno dos exames e do seu eventual «facilitismo».

Daniel Sampaio critica o ME por reagir com «acinte» às críticas e critica os críticos por desvalorizarem as estatísticas que o ME exibe. Afiram DS que «é tempo de Portugal poder apresentar dados numéricos válidos sobre os diversos sectores de actividade».

Ora o que os críticos das estatísticas educacionais mais apontam é exactamente a sua falta de rigor. por se subordinarem os critérios técnicos da recolha de dados aos interesses políticos. O que não é exclusivo da Educação, tendo sido nos últimos anos visível em matérias como o apuramento dos dados sobre o nível de vida, défice das contas públicas, inflacção e desemprego. Ou seja, em matérias com evidentes repercussões políticas.

Mas depois, ao desenvolver o seu raciocínio, DS acaba por admitir que se calhar, talvez, quiçá, porventura, provavelmente e quase com toda a certeza, por cá as estatísticas não são assim muito fiáveis, atendendo ao modo como se registam as ocorrências, como as mesmas são transmitidas e depois trabalhados os dados numéricos.

Em suma, dá razão aos críticos das estatísticas.

E culmina afirmando que a melhor maneira de sabermos como isto está a correr é esperar pelas «comparações internacionais, em testes validados para alunos em condições semelhantes», que até ao momento não têm corrido nada bem para Portugal.

Pois…

Mas não é isso que os críticos do ME, aqueles que a senhora Ministra chama «pessimistas de serviço», estão cansados de repetir?

Que os exames e estatísticas de produção interna e para uso propagandístico estão longe de ser (con)fiáveis?

O que não tem sentido nesta prosa de Daniel Sampaio é ele não assumir claramente aquilo que defende. Ou se apenas acha que devemos esperar pelos testes feitos lá fora para sabermos se as coisas estão a correr bem ou mal.

Mas nesse caso está a admitir, de forma quase explícita, que os nossos instrumentos internos de avaliação e monitorização do sistema educativo de pouco servem.

Não seria melhor ser claro a esse respeito?

Lá por fora, em especial no mundo anglo-saxónico, é muito habitual que jornalistas de carreira abracem certas causas políticas e apoiem abertamente determinados candidatos e políticos no activo, muitas vezes colaborando em campanhas e funcionando como biógrafo(a)s de personalidades tidas como notáveis. Na maior parte dos casos, não se trata de jornalistas no activo com cargos em órgãos directamente dependentes do poder político.

Entre nós essa prática é menos comum, tanto por escassez de personagens notáveis como pelos equívocos que se levantam, num meio tão pequeno, sobre eventuais promiscuidades político-jornalísticas.

Hoje pela manhã Eduarda Maio, subdirectora para a Informação (desde 2003) da estação pública Antena 1 apareceu na SIC-Notícias a apresentar a biografia que realizou para a Esfera dos Livros sobre o actual Primeiro-Ministro, José Sócrates, que critérios editoriais, de marketing ou outros, consideraram designar como «o menino de ouro do PS».

Confesso que não li ainda o livro e acho difícil que venha a lê-lo, tanto pelo desinteresse da matéria-prima, quanto pelo preço disparatado do volume atendendo ao aspecto anterior. Pelo que percebo é uma daquelas biografias «autorizadas» em que o visado colabora sem contrariedades de maior e mantém relações amistosas com a produção e autoria da dita.

Ora a mim, como ponto prévio, colocam-se-me algumas dúvidas sobre a conveniência da subdirectora para a Informação de uma estação radiofónica pública, para mais sem antecedentes em matéria de produção biográfica ou outra similar, fazer a biografia do Primeiro-Ministro em exercício, para mais uma biografia pacífica e razoavelmente panegírica.

Estarei a ser demasiado picuínhas?

Estarei a duvidar da lisura de processos e da ética profissional da jornalista envolvida, como certamente afirmarão so que acham tudo isto o mais normal possível?

Quer-me parecer que não. Quer-me apenas parecer que à mulher de César não basta…