Quinta-feira, 19 de Junho, 2008


… a crise é já a seguir.

O editorial de hoje do Público põe o dedo numa ferida agora visível para quase todos, mas que há três anos só alguns – poucos, pouquíssimos – conseguiram perceber fora da comunidade docente.

As medidas desta Ministra da Educação não visam, nem nunca visaram, mudar radicalmente o perfil das aprendizagens dos alunos e melhorar o seu desempenho ou mesmo transformar o nosso sistema educativo.

As suas medidas visaram apenas duas coisas: cortar a progressão salarial dos professores e fabricar sucesso.

A qualidade nunca esteve em causa.

Apenas a quantidade.

A quantidade de dinheiro poupado em salários.

A quantidade de sucesso estatístico para apresentar aos ingénuos, distraídos ou apaniguados.

A generalidade das políticas desenvolvidas visaram condicionar o trabalho dos docentes a vários níveis, cortando-lhes cada vez mais a autonomia que lhes restava, assim como criar mecanismos de pressão sobre esse trabalho – os novos modelos de avaliação dos docentes e de gestão escolar são os exemplos mais óbvios – de modo a levar os professores a colaborarem, mesmo que à força na produção em série de sucesso.

Como as coisas pareciam estar a demorar, este ano decidiu-se dar um salto em frente nesse processo, no sentido da sua aceleração para consumo eleitoral, só que o estratagema foi tão evidente que a máscara começou a cair em definitivo.

Alguém acredita que é possível reduzir para metade o insucesso em Matemática num ano apenas?

Só a consciência da alguma incredibilidade dos resultados torna necessário anunciar no site do ME que:

(…) as provas de Matemática e Língua Portuguesa, em 2008, são equivalentes em complexidade e dimensão às de 2007.

Quem analisar as provas percebe claramente que, no caso da prova de Língua Portuguesa os itens de resposta «fechada» e baseadas em cruzinhas e afins aumentaram desde o ano passado, assim como a estrutura da prova é bastante diferente, como logo aqui assinalei. Aliás escrevi que esta prova estava melhor estruturada do que a do ano passado, o que explica uma maior facilidade dos alunos na sua resolução. Assim como os critérios reais de classificação foram sempre evoluindo no sentido da condescendência.

No caso da Matemática, muitos dos exercícios eram de simples cálculo mental, exigindo processos próprios do 1º CEB.

Mas tudo isto já prevíramos, não apenas eu, durante 2005 e especialmente 2006.

Os chamados «pessimistas de serviço» que se recusam a comer gato por lebre e a não protestar com a cozinheira e os ajudantes.

Entre 2008 e 2009 iria ser apresentado sucesso fabricado na secretaria, assim como aconteceu há cerca de 15 anos, durante o primeiro período áureo da Peadgia do Sucesso, em parte correspondente ao mandato de Couto dos Santos no ME.

A história (sem maiúscula, obviamente) apenas se repete.

Os resultados dos próximos testes PISA só surgirão depois das eleições de 2009.

Até lá ficamos entregues aos números internos do Sucesso.

Acredita neles quem quer.

Para quem se lembrar…

Na sua prestação de ontem na SIC, a Ministra da Educação usou de um argumento fulminante para calar todas as críticas à qualidade ou facilidade dos exames e provas de aferição que o ME forneceu às alunas e alunos deste país.

Em sua opinião, e ao que parece na do director do GAVE que ela invocou, existem métodos estatísticos sofisticados para determinar se uma prova é fácil ou difícil consoante a quantidade de indivíduos que conseguem atingir o desempenho correspondente ao intervalo mais elevado dos resultados, neste caso o Xxcelente, Muito Bom ou mais frugalmente a letra A nas provas de aferição.

O número mágico que determina a qualidade da qualidade é o de 5%.

O problema é que, aplicando essa regra aos resultados das provas deste ano deparamos com um problema: se nas de Língua Portuguesa o nível A foi atingido por 5,6% dos alunos do 4º ano e 4,6% do 6º ano, já nas provas de Matemática esse nível foi alcançado por 15,4% no 4º ano e 8,9% no 6º ano.

O que, de acordo com as palavras e fórmulas de Maria de Lurdes Rodrigues demonstra com clareza a facilidade evidente da prova de Matemática do 4º ano e a razoável facilidade da do 6º ano.

E reparem que eu estou a usar apenas os argumentos de Maria de Lurdes Rodrigues. Os tais que remetem para modelos sofisticados e análises estatísticas que suplantam a opinião de qualquer perito encartado.

É com base neles – e no facto de os valores de excelência do 4º ano em Matemática terem triplicado o valor mágico – que sou obrigado a declarar que a prova de Matemática do 4º ano estaria com algumas deficiências em termos de concepção. Até porque não há curva de Gauss que resista quando 50% da distribuição fica nas duas (de cinco) categorias com valores mais elevados, enquanto menos de 9% ficam nas duas de valores mais baixos. É que assim o sino fica todo tortinho. Na prova de 6º ano o desvio é menos substancial, mas não deixa de fugir com clareza à formula ministerial para medir a qualidade das provas.

Mas isto sou apenas eu a aplicar os conceitos de Maria de Lurdes Rodrigues à realidade.

Se teoria e factos não batem certo, a culpa está longe de ser do escriba…

Confessemos que a estratégia nem estaria mal pensada…

Estes resultados caem nas escolas e no regaço dos professores (falo de alguns do 1º e 2º CEB, por enquanto, bem entendido) como uma espécie de bálsamo. Níveis de sucesso inauditos. Então em matemática deu-se o milagre da multiplicação do sucesso e tudo.

Depois de um ano amargo, de muita confusão, os professores sentem-se recompensados pelo seu trabalho e quase acreditam que vale a pena trabalhar.

E arrumam os dossiers do ano com maior ânimo, enquanto o sol disfarça o congelamento e as férias acenam convidativas.

Não seria uma má estratégia do ME, mesmo não o admitindo, aproveitar estes níveis de sucesso para amenizar as coisas. Distribuiam-se uns elogios – que até podiam ser mais ou menos sinceros, mas de preferência com ar convincente – ao trabalho dos profes e até poderia ser que eles engolissem com menos protesto o que lhes vai cair em cima no prózimo ano.

Mas a verdade é que Maria de Lurdes Rodrigues parece ser incapaz de um acto de simpatia e pede para si e o seu ME todos os louros pelos resultados. O sucesso nas provas de aferição resulta directamente das medidas do ME e acho mesmo que se não fosse o novo Estatuto da Carreira Docente ou o novo modelo de gestaõ escolar, nada disto seria possível.

Fosse ela uma mediana comunicadora e alguém com um avo de flexibilidade na sua postura e poderia conseguir agora uma janela de oportunidade para seduzir umas franjas dos docentes.

Mas, felizmente, ontem foi igual a si mesma.