Lê-se o título do JN e respira-se de alívio que alguém parece ter bom senso:

Défice de atenção responsável pelo insucesso escolar

É impossível não concordar no papel que a falta de atenção e concentração nas actividades escolares tem na obtenção de maus resultados escolares, mesmo se não é o único factor. Mas depois lê-se o que vem a seguir e o espanto instala-se:

Os pediatras falam de uma “tolerância excessiva” ao mau ambiente escolar, desafiando os professores a mudar sua capacidade de estimular comportamentos na escola, para evitar problemas maiores e estimular os alunos.

Afinal a culpa é dos professores, num misto de «tolerância excessiva» e incapacidade para «estimular comportamentos». O brilhante defensor destas ideias apresenta assim a sua teoria:

Miguel Palha, pediatra do Desenvolvimento Infantil, deixou a ideia de que, presentemente, “há uma tolerância excessiva” ao ambiente escolar existente, pelo que desafiou os professores a terem uma nova capacidade de gerir comportamentos. Caso contrário, em sua opinião, toda a turma se torna hiperactiva. Aquele clínico vai mais longe ao considerar que “não existe contenção comportamental nas salas de aulas”, numa alusão a novas perturbações das crianças provocadas pela baixa de auto-estima, consumo de álcool ou substâncias ilícitas.

Claro que se lermos mais acima, ficamos a saber que:

O défice de atenção é hoje a principal causa de insucesso escolar, sendo uma perturbação que atinge cerca de 10 % da população escolar. Entre os principais motivos estão anomalias cerebrais congénitas, síndrome feto-alcoólico, tabagismo materno e toxicodependência materna.

Portanto, os professores são responsáveis pelas consequências de anomalias cerebrais congénitas, síndrome feto-alcoólico, tabagismo e toxicodependência das mães. Eles é que não «estimulam os comportamentos» e apresentam «tolerância excessiva».

Sinceramente, nem sei como se deve reagir perante tamanhos disparates ditos por senhores que se acham doutores mesmo a sério, iluminados à brava, nos seus gabinetes onde recebem uma criança de cada vez em ambiente controlado, enquanto os outros devem ser uma cambada de labregos incompetentes e ignorantes, incapazes de proceder a uma «contenção comportamental».

Sinceramente só me apetece – com todo o respeito e vénia – mandar catar-se a quem isto diz com cara de gente séria.