Sábado, 14 de Junho, 2008


Mas se alguém me sugere o Samba Pa Ti, está tudo estragado…

Eu estou-me nas tintas para coisas como «O Dia da Raça», tenha a expressão sido um equívoco, um lapsus linguae ou outra coisa pior.

Agora já me aflige que um político eleito democraticamente como Presidente de uma espécie de República diga ali à frente de todos nós que o tratado europeu é demasiado importante para ser referendado pelos povos europeus.

No entendimento de Cavaco Silva, “o Tratado de Lisboa é demasiado importante para a Europa e para os seus cidadãos para que possa ser colocado na gaveta”.
(…)
Uma vez mais, o Presidente mostrou-se pouco partidário de referendos sobre tratados internacionais. “Um erro”, considera.
“Os tratados internacionais nunca deveriam ser objecto de referendo e tivemos agora a prova disso”, afirmou Cavaco.
O Presidente da República evocou mesmo o chumbo, em 1992, na Dinamarca, do Tratado de Maastricht. Cavaco Silva assumia então, enquanto primeiro-ministro de Portugal, a presidência do Conselho Europeu.
“Coube-me fazer a coordenação da resposta a dar perante o não da Dinamarca”, lembrou. “Logo que conheci os resultados, falei com os chefes de Estado e dos governos da Europa, com o primeiro-ministro dinamarquês e disse que o Governo dinamarquês era responsável por encontrar uma solução para ultrapassar a dificuldade que acabava de ser criada”. Em seguida, prosseguiu Cavaco Silva, o ministro português dos Negócios Estrangeiros foi incumbido de se reunir com todos os homólogos. Todos reiteraram que o Tratado de Maastricht, instrumento fundador do euro, seria levado a bom porto.
“Reuniu-se o Conselho Europeu passado poucos dias e reafirmou-se a determinação e a vontade dos Estados-membros de não voltar atrás e seguir em frente”, disse Cavaco. “Passado pouco tempo, a Dinamarca fez um novo referendo e foi aprovado. A Europa continuou o seu caminho e o Tratado entrou em vigor na data prevista”.

Este tipo de declarações e as condutas preconizadas são exactamente a razão porque a maioria dos cidadãos europeus, na maioria dos 27 países votaria Não ao Tratado Europeu: porque é um documento cozinhado na secretaria, por gente que se considera detentora de uma espécie de visão incompreensível pelo vulgo; porque ninguém está verdadeiramente interessado em explicá-lo ás populações; porque são poucos os que acham interessante que o mesmo seja legitimado directamente pelos detentores da soberania num regime democrático parlamentar moderno; porque caso a votação não agrade há sempre um truque na manga.

Só falta agora traçar-se uma linha para decidir o que é importante demais para ser objecto de expressão popular nas urnas e o que é corriqueiro e passível de consulta eleitoral ou referendária. Pelos vistos eleger um Presidente ou um Parlamento é aceitável. Referendar tratados nem por isso.

É o triunfo do argumento da Razão de Estado sobre a vontade dos indivíduos. Do interesse colectivo definido pela superestrutura política sobre a opinião individual dos cidadãos, ela própria formando um colectivo plural.

Mais do que Real Politik isto é No Politik.

E não adianta usarem a táctica canhestra de dizerem que só neoliberais (Sarkozy não é neoliberal e favorável ao Sim?), comunistas e neonazis estão alegres com o Não. Isso é apenas uma imenso desrespeito pelo funcionamento da Democracia. Em especial porque na Irlanda o único partido parlamentar que defendeu o Não foi o Sinn Fein. A menos que na coligação anti-Tratado também se incluam os «terroristas». E digam que há armas de destruição maciça alojadas nas casas dos activistas pró-Não que preparam o derrube da Torre Eiffel, da Torre de Londres e da Torre de Pisa.

Todos sabem, não o saudei entusiasmado, mas achei que o Entedimento ME/Plataforma Sindical foi a saída possível para o imbróglio que existia então.

Acho que, desde então, o ME tirou dele mais proveito que os sindicatos, mas isso já é a minha admissão de equívoco quanto ao que esperava ser a capacidade dos sindicatos manterem a pressão do lado do campo do adversário.

Perante os protestos de muita gente, nota-se agora por parte das federações sindicais mais representativas do sector uma espécie de necessidade de demonstrar as vantagens práticas do dito Entendimento. Não é má ideia, em especial se passarem da demonstração das vantagens para os sindicatos para as vantagens para todos nos docentes. A questão da preparação do próximo ano lectivo é a esse respeito interessante, pois no site da Fenprof lê-se que:

Pela primeira vez na Legislatura, o ME foi obrigado a negociar com a FENPROF as normas sobre organização de um ano escolar – o próximo -, incluindo as regras para a elaboração dos horários dos docentes. Isto só foi possível na sequência do Memorando de Entendimento, que o ME teve de subscrever com as organizações sindicais em 17 de Abril, p.p., no qual ficaram previstas algumas normas gerais, designadamente quanto ao número de horas de componente não lectiva de estabelecimento, bem como a obrigatoriedade de dedução anual, nessa componente, das horas de formação contínua que o docente tiver de frequentar.

Agora resta que isso se traduza não apenas numa coreografia negocial vazia de substância, mas em vantagens concretas e demonstráveis para todos nós,

Quanto à FNE, o seu Departamento de Informação e Imagem (!!!) informa-nos das reivindicações da organização, algumas delas muito razoáveis, acabando parecer alguém ter ficado satisfeito porque:

Perante este conjunto de observações, o Ministério da Educação comprometeu-se com a realização de nova reunião sobre estas matérias.

Ou seja, há o compromisso de uma nova reunião, mas nada mais. É curto. E pelo historial que conhecemos estas novas reuniões apenas mudam umas vírgulas, acrescentam um ou dois advérbios e acertam os tempos verbais em algumas frase.

Já sei, sou chato, sou muito crítico, estou sempre a protestar sentado no sofá (não é verdade e agora neste tempo quente ainda seria menos lógico) e tudo o mais. E os sindicatos é que são os únicos e legítimos representantes dos trabalhadores mesmo quando eles não se sentem representados.

Mas pensem assim, o que seria do Pinóquio (e uso esta figura sem exagerada malícia…) se não fosse o chato do minúsculo Grilo Falante?

Caricatura de Allan Cavanagh

De acordo com o nosso visitante JMDias, 56% dos irlandeses serão neoliberais, comunistas ou neonazis. Acho sempre estranho quando insistimos em demonizar os adversários e dpois desgostamos quando isso nos acontece a nós…

Mas pior mesmo é que aqueles que tudo fizeram para não explicar e demonstrar as vantagens do Tratado de Lisboa e tentaram por todos os meios subtraí-lo da consulta popular usem o mesmo tipo de argumentos daqueles que, outrora, achavam que o voto universal estaria mal entregue às massas ignorantes.

Porque se for para caricaturar é fácil afirmar que os defensores da ratificação parlamentar e extra-referendária do Tratado não passam de uma cambada de descrentes do regime democrático e da transparência da vida política europeia.

Este fim de semana estou numa de maníacos, por isso…

Lê-se o título do JN e respira-se de alívio que alguém parece ter bom senso:

Défice de atenção responsável pelo insucesso escolar

É impossível não concordar no papel que a falta de atenção e concentração nas actividades escolares tem na obtenção de maus resultados escolares, mesmo se não é o único factor. Mas depois lê-se o que vem a seguir e o espanto instala-se:

Os pediatras falam de uma “tolerância excessiva” ao mau ambiente escolar, desafiando os professores a mudar sua capacidade de estimular comportamentos na escola, para evitar problemas maiores e estimular os alunos.

Afinal a culpa é dos professores, num misto de «tolerância excessiva» e incapacidade para «estimular comportamentos». O brilhante defensor destas ideias apresenta assim a sua teoria:

Miguel Palha, pediatra do Desenvolvimento Infantil, deixou a ideia de que, presentemente, “há uma tolerância excessiva” ao ambiente escolar existente, pelo que desafiou os professores a terem uma nova capacidade de gerir comportamentos. Caso contrário, em sua opinião, toda a turma se torna hiperactiva. Aquele clínico vai mais longe ao considerar que “não existe contenção comportamental nas salas de aulas”, numa alusão a novas perturbações das crianças provocadas pela baixa de auto-estima, consumo de álcool ou substâncias ilícitas.

Claro que se lermos mais acima, ficamos a saber que:

O défice de atenção é hoje a principal causa de insucesso escolar, sendo uma perturbação que atinge cerca de 10 % da população escolar. Entre os principais motivos estão anomalias cerebrais congénitas, síndrome feto-alcoólico, tabagismo materno e toxicodependência materna.

Portanto, os professores são responsáveis pelas consequências de anomalias cerebrais congénitas, síndrome feto-alcoólico, tabagismo e toxicodependência das mães. Eles é que não «estimulam os comportamentos» e apresentam «tolerância excessiva».

Sinceramente, nem sei como se deve reagir perante tamanhos disparates ditos por senhores que se acham doutores mesmo a sério, iluminados à brava, nos seus gabinetes onde recebem uma criança de cada vez em ambiente controlado, enquanto os outros devem ser uma cambada de labregos incompetentes e ignorantes, incapazes de proceder a uma «contenção comportamental».

Sinceramente só me apetece – com todo o respeito e vénia – mandar catar-se a quem isto diz com cara de gente séria.

Na edição online esta maravilhosa prosa do editorial do DN não aparece assinada. Eu, por acvaso, teria vergonha de a assinar, mas já se sabe, tenho a mania que o voto é uma das armas do povo em Democracia.

A Europa resistirá ao ‘não’ da Irlanda

É irónico que seja o país que mais ganhou com o processo de construção europeia a pôr agora em causa o Tratado de Lisboa. Este “não” irlandês reflecte sobretudo razões de política interna, como muitas vezes tem acontecido nos referendos sobre a Europa. Mas é também um claro sintoma do afastamento entre os cidadãos e a aliança de políticos e burocratas que rege os destinos da UE a 27. Até pela abstenção que se verificou – votou apenas um milhão de pessoas. O que quer dizer que o projecto europeu é ainda muito mal percebido, mesmo por povos que lucraram, e muito, com a sua existência. E isso é mau.

Quando aderiram à então CEE, os irlandeses eram pobres. Seguiram-se décadas de prosperidade, com a boa aplicação dos fundos e a forte aposta na educação e na atracção do investimento externo. O resultado foi brilhante. Mas o Tigre Celta mostrou-se agora mal-agradecido. Felizmente, a Europa está habituada a ultrapassar estes percalços, como se explica nas páginas 4 e 5. E tudo indica que, após o susto inicial, a UE continuará a desenvolver-se. Nem podiam, os outros 26 países que dela dependem, aliás, ficar reféns de um milhão de votos de protesto por razões pouco claras.

No fundo a mensagem é: votem, que o vosso voto só vale a pena se for de acordo com o que nos interessa. Ou, já que se desenvolveram ficam obrigados a obedecer-nos para todo o sempre.

Só que a reacção que se vai espalhando em relação ao resultado do referendo na Irlanda é sintomático da forma anti-democrática de funcionamento da ficção europeia que vivemos e alimenta os milhares e milhares de eurocratas que vivem dessa ficção.

Quanto a Portugal é especialmente humilhante comparar o trajecto dos dois países nos últimos 20 anos.

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