Quarta-feira, 11 de Junho, 2008


Eu compreendo as teorias que pretendem fazer intersectar na Educação agendas diversas, ao mesmo tempo de tipo transnacional/global e de tipo local, deixando a esfera central nacional numa espécie de ponto intermédio de gestão de interesses que lhe são algo estranhos.

Por um lado temos os parâmetros e padrões internacionais com os quais são feitas as comparações em matéria de desempenho do sistema educativo e por outro temos um desejável maior envolvimento dos actores locais na definição do que devem ser políticas educativas ao serviço das comunidades.

Nem sempre estas perspectivas são abordadas de uma forma muito clara. Este pequeno livro de um ex-Secretário de Estado e actual destacado e activo conselheiro do CNE tenta fazer essa ponte, por vezes perdendo-se um pouco no emaranhado complexo da questão, mas em outras vendo com alguma clareza os equívocos que vamos vivendo.

Aqui ficam dois parágrafos, que surgem seguidos nas páginas 118 e 119, que exemplificam essas duas formas de abordar o tema.

Primeiro a parte obscura:

Neste quadro de uma tão complexa articulação entre diferentes e importantes níveis de regulação da educação (transnacional, nacional e sociocomunitária) e em que a acção destes diferentes níveis está em recomposição acelerada, estamos irrecusavelmente diante de cenários de concepção e de acção socioeducativas bastante difíceis de prever e desenhar, contingentes, necessariamente sustentados na humildade política e numa preciosa e cuidada gestão estratégica, na esperança, na reflexividade contínua e na participação cidadã, e, por isso, “condenados” à necessidade de uma revisão permanente. (pp. 118-199)

Agora a parte clara:

A oportunidade para que o desenvolvimento e a melhoria da educação possam trilhar novos caminhos parece evidente. Resta saber como é que será viável escapar aos mandatos economicistas e ao referencial técnico-funcionalista e colectivista que tem comandado as reformas educativas nacionais, nas últimas décadas, num quadro de maior presença do sistema educativo mundial, de hesitação e de crise da legitimação dos Estados nacionais e dos ainda débeis níveis de participação cívica local. (p. 119)

Genial, como é timbre do Kaos, embora  me pareça que existem uns primos mais ou menos afastados do lado das esquerdas que ficaram fora do retrato.

Já usei esta citação aqui no blogue há uns meses, mas hoje começou a ficar mesmo calor e estou preguiçoso pelo que apenas lhe acrescento a interrogação.

Refiro-me à mítica «sociedade civil» cuja apatia tantos criticam, quase tantos quantos criticam a dita sociedade quando ela se agita e move de forma imprevisível.

Se no caso dos professores já se notara que as formas habituais de mobilização, com base nas estruturas organizacionais tradicionais, estão a cair em desuso para não dizer que estão obsoletas, no caso dos camionistas essa sensação começa a confirmar-se pois os protestos e as acções de luta voltaram a escapar, desta vez de forma quase total, ao enquadramento da estrutura tida como representativa dos agentes do protesto.

Claro que perante a imprevisibilidade de movimentos espontâneos deste tipo, mas com uma capacidade de funcionamento em rede que começa a mostrar-se interessante e eficaz, e a dificuldade dos poderes instalados para lidarem com esta nova situação, não era difícil adivinhar que ANTRAM e Governo chegassem a um acordo, um pouco como os sindicatos de docentes e o Me chegaram a um entendimento.

Este tipo de solução apressada e pressionada pelos acontecimentos que se sentem fugir aos espartilhos tradicionais tem uma parte boa, porque soluciona um problema imediato, mas uma outra perversa, pois tenta reconduzir os protestos à sua moldura institucional tradicional.

Porque os representantes querem recuperar o lugar que os representados parecem não lhes reconhecer, enquanto o poder precisa de alguém para se sentar ordeiramente á mesa das negociações institucionais.

De qualquer modo ficam os sinais que já dificilmente podem ser confundidos: as formas de protesto da «sociedade civil» começam a libertar-se dos figurinos previsíveis do passado e começam a ganhar contornos que incomodam os poderes. Há 15 anos tivemos o buzinão, mas mesmo esse teve em seu redor ainda o apoio de máquinas político-partidárias que enquadraram parcialmente o protesto. Basta lembrarmo-nos do PS de então a desfilar pelo garrafão da ponte 25 de Abril.

Agora, mesmo que com algumas infiltrações, os movimentos de protesto começam a funcionar por si mesmos, em rede, de uma forma cooperativa e não hierarquizada.

Pessoalmente, gosto.

Depois do epitáfio do Vasco Pulido Valente é a vez de José Carlos Vasconcelos na Visão que saiu hoje começar a teorizar sobre a forma do PS actual sair do cubículo em que se encerrou, fruto de uma conjugação letal de arrogância na postura e impotência prática em termos de governação para além da espuma dos efeitos comunicacionais ou dos apertos localizados a estratos bem definidos da classe média.

A visão de filas e filas de carros, hoje, junto aos postos de abastecimento de combustível e a audição das conversas de café ou transportes públicos sobre o assunto é algo que vale por mil sondagens encomendadas. O engenheiro falhou em toda a escala, mesmo com uma maioria absoluta que pretendeu triturar tudo e todos.

Resta saber se percebe que errou se apenas vai fingir perceber ter errado, para ter nova hipótese de errar. Para Bilderberg parece que já convidaram o seu suplente.

Ouvi há pouco no rádio que foi exactamente há 26 anos que estreou no E.U.A. um dos meus filmes favoritos de sempre e aquele que, como Pedro Ribeiro dizia na Comercial, quase todos que o viram pela primeira vez num cinema se lembram exactamente do local e das circunstãncias.

No meu caso, uma noite fria de Inverno, em Dezembro de 1982, no cinema da então Quimigal, num recanto cinzento do ainda não deserto da margem sul, numa sala apinhada e em absoluta sintonia fungante nos momentos adequados do filme, independentemente das idades, desde os 7 aos 77 anos, sendo que eu ia nos 17.

Se é certo que no top de sempre não está em risco o lugar do Janela Indiscreta, não é menos verdade que dificilmente o ET sairá do Top 5. E não me venham com as onversas que é filme para putos e Hollywood e não sei mais o quê, que o Spielberg tal e coisa.

Quem não se emocionou (ou emociona) com este filme é porque tem mais componente de cyborg e bypasses que o Dick Cheney.

Quando ontem li num comentário que Desidério Murcho teria atacado os professores numa sua crónica, estranhei, mas como não tinha acesso ao texto, não opinei. Entretanto, a Paula e o Rolando fizeram chegar-me as versões em imagem e texto da prosa em causa e percebo que DM realmente ataca, e nem sequer de forma muito directa, alguns professores, mas numa perspectiva que partilho, ou seja, a de que um professor deve ter uma sólida formação académica na área que ensina e que a partilha do saber deve ser uma exigência do ofício.

Acho o mesmo, tendo em algumas ocasiões sido mal visto por colegas que se acomodaram aos livrinhos com que fizeram o curso há 20 ou 30 anos e compraram a história do Mattoso para colocar na estante e assim achando que renovaram o seu saber de acordo com os tempos. Por isso não posso dizer que discordo substancialmente do que a seguir transcrevo, excepto na parte que atribui a exclusiva responsabilidade da excelência no ensino aos docentes; afinal os alunos precisam de fazer alguma coisinha, certo?

Ensinar é difícil. Exige virtudes que poucos seres humanos têm: paciência, humildade, curiosidade científica, sensibilidade pedagógica e didáctica, gosto em dar a saber a quem sabe menos, gosto pelo contacto humano com os estudantes. Acresce que não há métodos automáticos que garantam a excelência do ensino, tal como não há métodos automáticos que garantam a excelência da investigação. Exige-se perspicácia, maturidade, inteligência, criatividade, vistas largas.
A excelência do ensino depende exclusivamente dos professores. Algumas medidas do governo central podem potenciar ou estimular a excelência educativa, mas não podem criá-la por decreto. De modo que toda a intervenção do ensino que vise a excelência educativa tem de ser sobretudo um estímulo aos professores para fazer melhor.
E os professores não podem fazer melhor se não estudarem, pois o aspecto central da nossa falta de qualidade educativa é a pura falta de conhecimentos fundamentais que deviam ser solidamente dominados pelos professores. A mentalidade portuguesa não facilita as coisas. Mal se tenta corrigir um colega, isso é encarado como arrogância, e não como um gesto de partilha. Mal se procura divulgar bibliografias adequadas, isso é encarado como tentativa de imposição ideológica de uns autores em detrimento de outros. Com esta mentalidade, é difícil criar ensino de qualidade.
Ao longo dos anos, e sobretudo ultimamente, o papel do Ministério da Educação tem sido largamente guiado pelo único tipo de coisa que os políticos e os burocratas conhecem: a realidade virtual. Não importa se os estudantes realmente aprendem, desde que se finja que aprendem e desde que não sejam reprovados. Também não interessa se os professores realmente ensinam, desde que preencham grelhas e formulários infinitos, para dar a impressão de que estão a trabalhar.
É que para a mentalidade burocrática e política, segundo a qual a realidade só tem densidade se estiver organizada num formulário, passar duas horas a ler um livro deve ser o cúmulo do desperdício de tempo dos professores. No entanto, para se dar uma revolução no nosso ensino bastaria que os nossos professores estudassem diariamente, durante duas horas, livros cientificamente sólidos sobre a sua área de actuação.
Um bom professor, seja de que matéria for, tem de dominar até à letra H se leccionar até à letra D. Não pode dar-se o caso de andar a leccionar até à letra H dominando apenas as matérias até à letra D. Mas não se deve encarar como escandaloso que um professor não tenha os conhecimentos que devia ter. Afinal, o mundo não é perfeito e as universidades que os formaram também não. O que importa é partir dessa realidade e fazer algo que seja construtivo.
E o que há de construtivo a fazer é, cooperando, criar estruturas que permitam que quem sabe mais e conhece melhor as bibliografias relevantes possa partilhar os seus conhecimentos com os colegas. Enquanto na escola não houver uma atitude de genuína partilha de conhecimentos, o ensino será só a fingir.