Porque as grandes causas podem ser locais.
O concelho onde vivi 33 anos e actualmente lecciono é típico de uma suburbanização em duas vagas: a de meados do século XX, industrial, dependente do emprego nas grandes unidades fabris da zona: CUF, Siderurgia, Setnave; e de finais do século XX, terciária, de dependência do emprego em lisboa.
Os traços identitários foram desaparecendo aos poucos, o património gradualmente esquecido, destruído ou abandonado, tanto o natural, como o histórico.
Os espaços simbólicos da vilória onde cresci estão tapados com caixotes e mais caixotes de apartamentos, rotundas mal feitas, um urbanismo de 4º categoria que avilta que o promove ou o autoriza. Por isso me fui embora como tantos outros. Regressei há um par de anos para dar aulas, por opção e por prazer do reencontro com amigos.
Agora é a vez de quererem demolir a velha estão da CP, ponto de encontro e partida de tantos de nós, em tanto tempo, para o trabalho ou o estudo. No meu caso os anos 80 e boa parte dos 90.
A REFER decidiu desactivar a estação e transformá-la em apeadeiro e convidou a autarquia a assumir os encargos da sua manutenção, se nisso estivesse interessada.
A autarquia, na pessoa do seu presidente, professor aposentado com mais meia dúzia de anos que eu e uma carreira de política local de baixo relevo, achou que isso seria encargo excessivo e que para manter a estação de Alhos Vedros (bem perto do centro da vila) e a da Moita (mais excêntrica em relação ao núcleo urbano) os custos envolvidos não justificariam a preservação de algo que faz parte da memória colectiva da sua população, eventualmente não da dele por razões que desinteressa aprofundar.
Já no Barreiro, foi demolida de um dia para o outro uma estação, sem qualquer explicação á população.
Alguns amigos estão a animar a resistência a este acto de demissão de um poder político que recentemente gastou milhões em obras de aparato e escasso sentido.
Fica aqui a minha solidariedade para com eles e a ligação para o seu esforço, onde se faz o ponto da situação de algo que, infelizmente, já me diz pouco respeito mas continua a fazer revoltar.
E é a este tipo de sensibilidades que vão querer entregar a gestão da nossa Educação.
Triste sina.

Maio 28, 2008 at 9:55 am
É de lamentar a situação referida no post, bem como todas as outras que, ao serem listadas, nos deixariam muito apreensivos. Os atentados ao património não se confinam a zonas industriais, alargando-se ao abandono a que estão votados monumentos ou a atentados urbanísticos que vão ao encontro do (mau)gosto ou interesses financeiros de cada um- só no arquipélago dos Açores verifiquei, em diversas ilhas, um cuidado que constitui excepção.
Quando a vila de Sintra se candidatou à menção de património mundial, foi referido como aspecto negativo a urbanização circundante de localidades-dormitório. Na época, a autarquia dinamizou uma sessão de vários dias subordinada ao tema “património”. Os conferencistas presentes- escritores,historiadores, antropólogos e arquitectos- lançaram, na generalidade, um olhar lúcido sobre situações como a aqui apresentada. Ficou-me na memória a intervenção de um professor da universidade do Porto que alertou para o facto de estarmos a correr sérios riscos de nos tornarmos “um país de amnésicos invadido pelo betão”.
Maio 28, 2008 at 9:59 am
Muito obrigado pela divulgação da nossa luta no seu Blogue, aqui no AVP é com muito prazer que vemos que o mais conhecido e lido activista da Educação em Portugal, ainda se lembra das suas raízes Alhos Vedrenses, apesar de já viver noutro concelho.
Mais uma prova que a Luta contra a Destruição da Estação de Alhos Vedros é justa e relevante tanto a nível local como a nível nacional.
Os editores do AVP
Maio 28, 2008 at 10:01 am
O Avatar que o WordPress gerou, está bem caçado 😀
Maio 28, 2008 at 10:28 am
É esse o retrato destas bandas , mas não será certamente por acaso … a mediocridade, dos espaços, da transformação, dos “Eleitos” , tudo é tão mau que é impossível que tenha sido por acaso.
A destruição das memórias foi sistemática, aliás substituíu-se quem tinha memória dos sítios por sítios sem memória e por gente desenraízada e encaixotada.
Mas nada disto foi por acaso, e cada vez me lembro mais de Kundera…
Maio 28, 2008 at 11:19 am
Apoio inteiramente asua opinião.
Maio 28, 2008 at 11:26 am
Ó meu caro Paulo,
(o mais conhecido e lido activista da Educação em Portugal)
Mas que coisa! O que é que interessa a estaçãozita? Toda a gente sabe, (argumento imbatível, pá)que o desenvolvimento nacional passa por coisas grandes, pá. Aeroportos no deserto, comboios de alta velocidade em percursos curtos e outras ainda, assim como esta:
http://www.dolcevita.pt/centro_homepage.aspx?param=6xaQnimFh6ShIR4NKdOwDCacZ5OEoM0SGFmwjpakt/Lz3v1d7f+P1npoxAIrIcn5wYbe8W0rwzo=
Estes professores têm que ser recondicionados. Estão a ser agentes retardadores do “pugresso” ao transmitir estas ideias pequeninas, de coisas pequeninas, num país pequenino, com governantes pequeninos (ops).
Maio 28, 2008 at 11:34 am
(continuação)
Esse pessoal que anda aí a defender a estação, que ponha os olhos neste grande líder local, para ver o que são grandes ideias de desenvolvimento e “pugresso”:
http://jn.sapo.pt/2008/05/27/porto/gostariamos_gaia_fosse_a_capital_def.html
Isto é que era. Por “exemplos”: Alhos Vedros, a Capital da Indigência, ou da Toxicodependência, ou isso. Hã? O que acham desta ideia? E dada de graça, à borlix!
Maio 28, 2008 at 4:05 pm
Caso de perfeito assassínio de um património colectivo, único e de valor insubstituível é também o da LINHA DO TUA. Com um percurso de extrema beleza e riqueza , esta linha ferroviária vai ser agora arrasada porque os interesses económicos são hoje os únicos valores que comandam as cabecinhas dos nossos governantes do poder central.
Só nos resta resistir e solidarizar com todas as causas nobres, como é a da estação de Alhos Vedros.
PS: Façam uma viagem nesta linha do Tua e guardem memórias dum País encantado de que já pouco resta!
Maio 28, 2008 at 4:43 pm
Triste sina. É ver o que se passou com tantas outras.
Gostei do «baixo relevo»: está o país cheio disto.
Maio 28, 2008 at 5:58 pm
Escolas, estações da CP, estações dos CTT, hospitais… tudo fecha e desaparece e depois … era isto que andam há tempos a agoirar para Portugal – o deserto…
Maio 28, 2008 at 6:44 pm
Quem tinha razão era o “bêbado”!
São as “areias” a estenderem-se por todo o território nacional.
Maio 28, 2008 at 7:07 pm
Aqui no Alentejo há muitas estações de caminho-de-ferro, lindíssimas, que estão desactivadas. Estão completamente ao abandono e podiam ser vendidas a baixo preço para que os particulares as restaurassem e fizessem casas mantendo a traça original.
Não sei porque não pensam nisso.
Maio 28, 2008 at 8:07 pm
Ainda me lembro de quando a estação de comboios da Amadora era parecida com esta. Agora…totalmente descaracterizada…
Maio 29, 2008 at 1:20 am
Eu compro todas as estações de caminho de ferro à REFER, no Além e Aquém Tejo.