Sábado, 29 de Março, 2008


E agora a musiquinha completa:

Para relembrar (um bocadinho) os tempos dos REM em vinil.

UMA BANDEIRA PARA AS ESCOLAS

(…)
Não devemos ter medo das palavras. Uma escola, para funcionar bem, precisa de conselhos directivos coesos e empenhados, que tracem linhas de orientação justas mas que também não tenham medo de enfrentar os problemas – e muito menos que os escondam; de professores a quem se dê condições para exercerem uma acção pedagógica serena mas onde esteja presente a indispensável autoridade; e de pais que, como a mãe da aluna do Carolina Michaëlis, tenham lucidez e coragem para admitirem os erros dos filhos.
Nas escolas públicas sempre houve e continuará a haver problemas, mas é tempo de terminar com a hipocrisia.
Os colégios particulares, cada vez mais procurados pelas famílias com posses, funcionam bem porque há disciplina. Desde logo, os pais não desculpam os filhos a quem vestem a farda – e as escolas, se desrespeitadas nos seus códigos, metem a criancinha à porta. Ora a escola pública tem de seguir este paradigma. Só assim recuperará o antigo estatuto de local privilegiado para transmitir saberes e cultivar o respeito.

O quase é porque a seguir, e sem aviso, salta para a parte do défice e por momentos pensei que ele estava a falar do mesmo.

Entretanto, já recolhi ou digitalizei os restantes materiais de editoriais da maior parte da imprensa de hoje que, de forma ordeira e previsível, decidiu quase toda abordar o mesmo assunto. Amanhã voltarei ao tema mais em detalhe.

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Denúncia de ontem n’O Inimigo Público. É importante manifestarmos toda a nossa solidariedade para com as vítimas de todas as formas de bullying.

Por muitas razões que tenha o agressor para se sentir defraudado, este tipo de atitudes não pode ser tolerado e a DREN – Direcção dos Recursos Éticos da Nação – já aceitou a medida disciplinar de transferência do prevaricador para um outro país da área continental de residência da família. Apesar das recusas de vários países em aceitá-lo, julga-se ser possível obter uma vaga se subsecretário de estado no Governo da Sildávia.

Vídeo do Wall Street Journal que pretende explicar o sucesso dos alunos finlandeses nos testes PISA por comparação com os americanos. Ligação aqui, porque é um formato que o WordPress não permite facilmente incluir como os do Youtube.

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Três editoriais da Grande Reportagem (Março de 1993, Janeiro de 1994 e Março de 1995), mas poderiam ser outros) quando ainda era inquieto e idealista enfant terrible e não repousado proprietário-caçador de monte alentejano, de charuto bem aspirado e obra ficcional pesada, acomodado às reformas em nome do «progresso».

Porque o que foi escrito há 15 anos, teria as mesmas razões para ser escrito hoje:

Nunca houve em Portugal um poder tão arrogantemente inculto, tão incapaz de pensar o país para além de uma simples lógica de merceeiro suburbano. É um poder que confunde a cultura com o Passa por Mim  no Rossio, que confunde a economia com a taxa de inflacção, que confunde o novo-riquismo com a riqueza do país. (Grande Reportagem, 2ª série, nº 24, Março de 1993)

Saudades, pois, desse Miguel ainda não convertido ao novo-riquismo, mesmo se já com as evidentes snobeiras que não melhoraram com tempo.

Saudades desses editoriais curtos e eventualmente pouco rentáveis mas quão mais concisos e certeiros que os longos e repetitivos parágrafos que agora nos servem ao abrir o Expresso.

Ficaram os tiques, desapareceu a alma.

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telemovel_fernanda_cancio.jpgO teor da crónica da jornalista Fernanda Câncio (FC) publicada no Diário de Notícias em 28 de Março de 2008, intitulada «Adolescentes, inimputáveis e tevês», provocou-me tamanho desconforto que me vejo forçado a escrever-lhe manifestando as razões para esse sentimento.

A estratégia de FC, desastradamente exposta na chamada em texto com letra maior «A birra da miúda é mais grave do que o crime das TV?» consiste em simultaneamente minimizar a falta da menor e escondê-la atrás do empolamento ad nauseum dos abusos televisivos.

Concretamente, o que eu vi no YouTube e nas TVs foi uma jovem de 15 anos, por coincidência a idade actual da minha filha, HISTRIONICAMENTE AOS BERROS PARA COM UMA SENHORA DE 60 ANOS, abusando da sua já natural debilidade e impedindo-a física e objectivamente de exercer dois direitos: tomar posse de um telemóvel e sair da sala de aula.

Se João Miguel Tavares na sua crónica no DN de 25 de Março de 2008 também define o mesmo acto como «birra», fá-lo num registo diametralmente oposto: define-a como uma «miúda de 15 anos a fazer birras de 3», ou seja, ironicamente humilha-a ao estabelecer aquela comparação etária e, simultaneamente mas não menos importante, não a desresponsabiliza.

Fernanda Câncio faz algo inteiramente diverso: refere-se à birra aos 15 anos como se ela fosse uma ocorrência natural nessa faixa etária e não fosse de espantar tamanha histeria; põe em causa que «tenha existido insulto ou propriamente agressão», como se uma jovem de 15 anos a BERRAR ESTRIDENTE E REPETIDAMENTE A UMA SENHORA DE 60 ANOS não fosse um insulto (não por acaso, FC refere na sua crónica a idade da jovem mas nunca menciona qual a idade da docente, pois o fosso etário realça o escabroso da cena) e impedi-la pela força física de exercer os seus direitos (apoderar-se do telemóvel e sair da sala) não fosse um acto agressivo. Fernanda Câncio não quer que sejamos cegos, pede-nos apenas para sermos invisuais…

Depois, para fazer passar despercebida esta pequena habilidade na arte de distorcer a realidade, atira-nos com o abuso que as TVs fizeram do caso, insinuando até que à docente perturbará mais a retransmissão das imagens do que o que ela terá sentido dentro da sala de aula. Dizem-nos os media que a professora apresentou queixa da jovem e dos restantes elementos da turma, mas não das TVs. A incessante retransmissão das imagens não só entristece a docente, o que é naturalíssimo, como também lhe afectará o discernimento e a capacidade reivindicativa?

Aplicando o raciocínio enviesado exposto por FC, segundo o qual a gravidade do crime de retransmissão das imagens seria muito superior à gravidade do ocorrido dentro daquela sala de aula, chegar-se-ia à conclusão que a repetição das imagens do massacre do Cemitério de Santa Cruz ocorrido em Timor em 12 de Novembro de 1991, sem que tenha sido ocultada a face daquele ferido prostrado junto às campas, foi um crime maior que o cometido pelos soldados indonésios… Pois sim.

Por fim, uma palavra de apreço pela posição reiteradamente assumida pelo Senhor Procurador Geral da República, Dr. Fernando Pinto Monteiro, em relação aos ilícitos ocorridos dentro das escolas. A tese do Ministério da Educação e doutros protagonistas, a que FC parece juntar-se, de estarmos apenas perante problemas de indisciplina e, portanto, do foro do Ensino/da Escola, faz tanto sentido como afirmar que uns murros e insultos nos Hospitais são problemas de Saúde e pontapés e ofensas nas Repartições de Finanças são assuntos Fiscais. Meus caros façam-nos um favor: calem-se.

António José Matos Marques

Braga

Early to bed and early to rise
Makes a man or woman miss out on the night life
.

Resmas de materiais, próprios e alheios, para ir postando durante o fim de semana, antes do final da «interrupção lectiva».

Por agora, pausa para ouvir uma boa memória musical, não tão antiga assim.

Para que não digam que é embirração minha quando escrevo que entre nós a produção de estatísticas não passa de um artifício para mascarar a realidade atrás de uns gráficos e uns números recortados a gosto, ficam aqui duas notas recolhidas no Expresso de hoje sobre o modo como o ME encara a representação estatítica da realidade para consumo dos distraídos e para apresentar na forma de «resultados» em debates parlamentares, conferências de imprensas, entrevistas «confortáveis» e outras ocasiões igualmente irrelevantes:

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Agora fica aqui o destaque para a edição do Le Monde  – Dossiers & Documents deste mês, dedicada exactamente a demonstrar como se falsificam, distorcem e/ou manipulam os números para efeitos políticos.

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A roda já foi inventada há muito tempo. Parece é que há muita gente que ainda não percebeu como e continua a não querer perceber a enorme mistificação em curso com estes novos Observatórios de não sei bem o quê.

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Já perdemos demasiado tempo com avisos que caem em saco roto. Este Estatuto do Aluno, teoricamente retocado sob sugestão da Presidência, ficou uma lástima absoluta. Se sugestões existiram por parte de Belém, ou pouco de diferente tinham a acrescentar ou pura e simplesmente foram ignoradas.

Para Rainha de Inglaterra, já chega. O magistério de influência já se reparou que só funciona quando interessa.

Assim como é triste que seja preciso uma filmagem amadora de um adolescente mal-educado a idolatrar o comportamento de uma colega igualmente mal-educada, para as almas se inquietarem.

Os avisos sucessivos, durante três anos, por parte de quem está «por dentro» do sistema e sabe há muito os erros cometidos, neste período e antes, de nada serviram. São sempre tomadas de posição «corporativas», de quem quer «manter o poder» e os «privilégios».

Chega um caso singular e o copo parece que de repente está cheio e a transbordar, quando antes parecia ainda estar meio vazio. No caso dos docentes há muito que transborda. Para as almas subitamente inquietadas é que parece que agora chegou o momento de reclamarem.

É triste. Repito-o.

Este episódio e o que significa mais não é do que o corolário de um processo, que vivemos há anos, de destruição da imagem e fundamentos da Escola como instituição para ser levada a sério e do trabalho que lá se desenvolve como fulcral para o país.

O declínio da Educação não é culpa nem dos alunos, nem das famílias, nem dos professores.

É culpa, pura e simplesmente dos políticos.

Há que dizê-lo sem rodeios.

Foram eles que forneceram o roteiro para o descalabro do aspecto essencial e ventral da Educação que é a transmissão de competências e saberes, na forma de aquisição de aprendizagens e preparação para novas descobertas.

Não é demagogia, apenas a pura realidade objectiva. A culpa é dos políticos que (verdade seja dita) ajudámos a aleger, por acção ou omissão. Dos mesmos políticos que delapidaram, sem vantagens evidentes, os dinheiros do FSE e agora vão fazer o mesmo com as Novas Oportunidades. Milhões e milhões se perderão nas canalizações e filtros burocráticos que lucra(ra)m com estes fundos comunitários. Quanto ao país e à população em geral, servem-se-lhe qualificações e certificações em forma de canudo.

Mas o actual Presidente da República também tem as suas responsabilidades e talvez por isso se expliquem certas hesitações.

No seu primeiro mandato maioritário permitiu que Roberto Carneiro lançasse uma reforma demasiado ambiciosa para o nosso país (não estou aqui a evocar afinidades ou diferenças globais ou específicas com a dita reforma). Depois, no segundo mandato, deixou que a retalhassem por completo e dela deixassem ficar quase só o lado negativo. Foi então – quando os ministros da Educação se sucederam entre coutos, durões e leites – que floresceu a Pedagogia do Sucesso, o húmus de onde brotaram as benaventes que vieram a seguir e os valteres que agora aturamos a completar o serviço que deixaram inacabado nos anos 90.

Nas escolas públicas, a generalidade dos alunos e professores fazem o que podem para sobreviver e dar um mínimo de dignidade a esta charada legislativa. Mas cada vez observam que esse é um esforço não recompensado, nem sequer socialmente gratificante. Os bons alunos são em muitas circunstâncias amesquinhados e maltratados física e psicologicamente pelos campeões dos pátios, os rebeldes que não sabem o que é uma causa nem que a vejam pintada de cor de rosa, em forma de elefante, num corredor iluminado. Os professores que se esforçam apoucados no seu trabalho por uma tutela que só gosta de autómatos acríticos, geradores de sucesso estatístico.

Não há que recear ser claro, nem sob ameaça de processos disciplinares ou judiciais: a culpa foi e é de políticos seduzidos pelos resultados de curto prazo. Pelos efeitos mediáticos fáceis. Pelas estatísticas para consumo interno e externo. Pelas fórmulas retóricas tonitruantes mas de conteúdo nulo.

Foram muitos os ME’s neste últimos 20-25 anos. pois foram. Mas foram globalmente (sendo muito escassas as excepções e quase singulares os casos que aliaram qualidade e obra efectiva) medíocres. Nisso não deparamos hoje com novidades. A única diferença é que no actual ME os defeitos refinaram e as qualidades perderam-se quase por completo.

O Presidente da República está chocado.

Seja bem-vindo ao clube.

Pelas minhas contas é um clube vasto com centenas de milhar (ou mais) de alunos, encarregados de educação e docentes responsáveis e que a cada dia que passa se questionam sobre o que terão feito para serem obrigados a suportar isto.

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Ainda não fui confirmar à papelaria da esquina se saiu a versão 3.0 na edição de hoje do Sol. Como foi um texto pedido, a versão final teve de ser encaixada no espaço disponível. De qualquer modo eu confessei a quem mo pediu que depois publicava aqui a versão correspondente ao segundo rascunho.

O episódio é já acontecimento nacional e o ruído em seu redor bastante estridente. Todas as posições já foram ensaiadas, a maior parte dos argumentos imagináveis já foram aduzidos, as responsabilidades foram assacadas a toda a gente, os diagnósticos multiplicaram-se, assim como as soluções. Neste contexto é difícil trazer algo de novo à discussão. Por isso, mais do que o episódio em si, convém analisar algumas questões que o rodeiam e as epidérmicas polémicas que o envolvem.

  • A indisciplina e violência nas escolas são fenómenos normais ou excepcionais?
  • São fruto de práticas ancestrais de contestação à autoridade ou são comportamentos novos, resultantes de factores recentes como a fragmentação familiar e uma crise de valores?
  • São resultado de comportamentos disruptores individuais ou manifestações de uma cultura de irresponsabilidade de grupo?
  • São epifenómenos a que devemos responder de forma tolerante, relativizando a sua gravidade, ou devemos encarar a sua punição como exemplar?

A resposta a estas questões não é tão simplista como muitos gostariam, para melhor enquadrarem a realidade nas suas ideias confortavelmente pré-formatadas.

Comecemos pela frequência: estes actos são razoavelmente frequentes nas nossas escolas, embora variando de escola para escola e de turma para turma. Não são excepcionais, singulares, ou «casos dramáticos individuais», mas também não são a regra em todas as turmas, todos os dias, em todos os estabelecimentos de ensino. Mas são frequentes. Não me importo com o que dizem as estatísticas recolhidas por qualquer Observatório. Elas dizem muitas vezes o que deixamos que elas registem.

E quanto à novidade dos actos? Será isto coisa nova, ou apenas a ponta de uma longa cauda? Verdade seja dita que isto tem pouco de novo, embora existam ciclos de maior ou menor incidência destes fenómenos (e do interesse público e mediático por eles). A indisciplina e a violência (que representam pontos não muito distantes de um continuum de comportamentos) existem no quotidiano escolar, assim como a gritaria nos corredores, os atropelos nas filas para o almoço, a falta de civismo nos WC’s. Todos o sabemos. Fomo-nos habituando. Porque é natural. Faz parte da idade. O professor nunca fez nada disso no seu tempo?

São condutas individuais ou de grupo? Na sua forma mais singular são condutas individuais, mas resultam tantas vezes da «pressão dos pares», da necessidade de demonstrar uma «atitude», de «marcar uma posição», de ganhar um virtual concurso de popularidade e respeito em grupos que se definem pela auto-imagem de rebeldia. Daí o rótulo de «o 9ºC em grande» que servia de título ao vídeo.

Como devemos reagir perante estes casos? Relativizando e pós-modernizando apenas na medida estritamente necessária. Não pactuando com políticas de silêncio e camuflagem destas condutas. Não culpabilizando a vítima pela agressão sofrida. Não querendo fazer crer que quem é violado(a) o é por sua única e exclusiva culpa. Havendo coragem de assumir as responsabilidades pelos actos. Pedir desculpa ajuda mas não resolve tudo. O pontapé depois de dado, não deixa de doer. Uma bala não retorna à arma depois de um instrumental «desculpe lá qualquer coisinha».

 

Mas existem três outros pontos que não queria deixar de sublinhar:

  • Para alguns a docente estaria «impreparada» para lidar com esta situação. Mas como é possível estar preparado? Ouvi sugestões de conduta alternativa que, a serem seguidas, motivariam outras críticas. Se desistisse da disputa revelaria falta de autoridade; se saísse da sala em busca de alguém, teria abandonado a aula. A ninguém ocorreu que a situação se tornou um beco sem saída quando os restantes presentes optaram por pactuar com a vergonha em curso.
  • Neste caso não está em causa apenas um tipo de violência, mas vários. A física, a verbal e a simbólica. Mas também a devassa da privacidade do jovem Copolla que decidiu gravar o episódio com a intenção de auto-glorificação do que se passava e não de denúncia.
  • E para finalizar o único aspecto verdadeiramente decorrente dos tempos: nestes dias a imagem impera. Apesar da violência que representou a repetição à exaustão das imagens em blogues e televisões, sem elas talvez tudo não viesse a passar de um impresso de ocorrência disciplinar que se deixaria guardado numa gaveta.

Parece que nos transformámos todos em S. Tomé, nesta idade onde só a imagem conta.

Fica para mais logo, que a manhã está apetecível para ir até à Grande Cidade, a recordação de alguns editoriais do Miguel Sousa Tavares de há 12-15 anos, quando era o enfant terrible de inspiração ambientalista (sem as conversas cinegéticas sobre as vantagens da caça), que não aderia às reformas do progresso só porque sim e que duvidava muito das capacidades do mesmo PS que agora nos governa, a começar pelo actual Primeiro. Enfim, na Grande Reportagem da primeira metade dos anos 90, parecia um Paulo Portas de Esquerda.

Porque esta malta já foi jovem e já teve ideais.

Depois veio o Sucesso.