Sábado, 22 de Março, 2008


And if you don’t co-operate
We’ll cut off your supply lines

But You’ll be free
To re-connect
If you beg our forgiveness

You say I
Over simplify
Well yes, so did
Albert Einstein

Neste caso, Robert Wyatt a pedido do Francisco Trindade.

Enquanto as minhas duas equipas verdes favoritas disputam pelos Algarves, de forma um bocado enfadonha, uma taça patrocinada por uma cerveja igualmente verde, vou passeando por outros canais e em plena SICNotícias dou de caras com uma Ministra da Educação algo desalinhada e abespinhada com uma jornalista.

Aproveitando as palavras de Valter Lemos ontem, a jornalista perguntava-lhe se o novo Estatuto do Aluno iria diminuir este tipo de ocorrências. Algo irritada, MLR perguntou-lhe se já tinha lido o Estatuto e criticou a pergunta formulada. A jornalista insistiu que estava a usar o raciocínio que o Secretário de Estado tinha expressado ontem – que o Estatuto do aluno é um instrumento para combater estas situações – mas MLR não desarmou e atacou dizendo que o Código da Estrada também não evita os acidentes. Pois, não evita, mas define as regras a serem respeitadas.

Pouco satisfeita com a forma como ia intimidando a jornalista, MLR ainda continuou recomendando que a jornalista fizesse bem o seu trabalho e revisse as peças sobe o tema, pois de acordo com ela Valter Lemos falara depois «do deputado do CDS» e do «deputado do PSD», de quem MLR parece não conhecer os nomes (PauloPortas e Pedro Duarte, no caso). No que isso era relevante para a matéria não explicou.

Perante tamanha investida e desafio, a jornalista foi rever as peças e constatou que afinal a Ministra baralhara a sequência das intervenções e, transmitindo as declarações de VL à TSF, demonstrou que são contraditórias com a da teórica superior hierárquica.

Não sei o que se seguirá: se um pedido de retractação pública a alguém (quem?), se a admissão do erro (impensável!). Ou se, tal como com os sindicatos, MLR passará a recusar-se a falar com a SICNotícias ou com aquela jornalista em particular.

O interessante é notar como alguém que detém um cargo público de responsabilidade se mostra sempre profundamente irritada quando as questões fogem ao guião previsto e enveredam por terrenos incómodos.

Há a quem, realmente, falte uma certa e determinada vontade (ou vocação) para suportar as agruras da vida pública em democracia.

A parte boa é que a irritabilidade e falta de tolerância começam a romper a máscara e a transbordar para a vista de todos.

E depois não chega ter amigos bem colocados nos OCS.

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Este episódio da Société Générale continua a fascinar-me. Mais de uma década depois do colapso do Barings estas coisas ainda acontecem naqueles que se afirmam ser os sistemas de controle e monitorização mais sofisticados do mundo empresarial.

Por isso mesmo aqui fica esta notícia retirada do sempre acutilante Le Canard Enchaîné desta semana.

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Não há fórmulas exactas ou infalíveis, mas é sempre interessante compreender as experiências alheias. O manual em causa tem 40 pp e fica aqui (safeguide.pdf).

The Challenge of School Violence

(…)
This Issue of Service-Learning NETWORK offers methods and materials to help schools deal with school violence by introducing this critical problem into the education agenda.

Escolas vão desobedecer

As escolas do distrito de Coimbra uniram-se e apelaram ao Ministério da Educação para suspender o processo de avaliação de professores até ao final do ano lectivo. A falta de “suporte legal para uma avaliação simplificada dos professores contratados” é um dos principais motivos invocados pelos presidentes das mais de 20 escolas secundárias e agrupamentos que subscrevem o documento, contrariando as directrizes do Ministério da Educação (ME), que não permite a suspensão ou adiamento do processo.

No pedido, que já foi entregue na Comissão Parlamentar de Educação, os professores referem não conhecer as ponderações nem terem “indicações sobre como funciona o sistema de quotas”. Os dirigentes escolares, que representam mais de 200 escolas e 20 mil alunos, referem que se sentem “num processo sem directivas legais”, propondo à ministra a suspensão da aplicação do processo de avaliação até ao final deste ano lectivo e o reatamento “imediato” do diálogo com os sindicatos.
Entre as escolas que pedem a suspensão do processo de avaliação, contam-se duas que figuraram entre as 20 melhores no ranking das escolas secundárias elaborado pelo CM em Outubro: a Infanta Dona Maria (melhor pública e terceira no ranking geral) e a José Falcão (18.º lugar no ranking). Os presidentes dos conselhos executivos vão voltar a reunir a 2 de Abril.

No meio disto tudo só estranho a relativa modorra que sinto por terras mais a sul, tradicionalmente associadas a posições mais radicais de contestação mas que, ou estou a ver mal, ou andam muito pouco firmes.

Por outro lado, isto apenas prova que, com coragem e circulação da informação, este modelo de avaliação só avança se os professores e as escolas quiserem e deixarem.

Agora se há quem quer e deixe, é toda uma outra questão de adesivagem.

“O problema não é o castigo mas o significado que pode ter”, defendeu ao JN Rui Trindade. O professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto considera que um castigo exemplar – como o da transferência – poderá ter um efeito dissuasor. Pelo contrário, se a escola optar por um discurso tolerante, “que sinal é dado aos outros alunos?”. A sensação de impunidade pode crescer como bola de neve. (Jornal de Notícias)

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Tirou-me as palavras da boca. Porque os heróis e heroínas de pátio e sala de aula alimentam-se da permissividade e de algo que se afirma ser «tolerância» mas é outra coisa. É desrespeito puro e duro para com a verdadeira vítima.

E há pelo menos 15 anos que vivemos neste permanente equívoco causado, penso eu, por qualquer tipo de trauma sofrido por quem andou na escola nos outros tempos, quando contestar a autoridade era sinónimo de «coragem» e «emancipação» e ainda não compreendeu que os tempos mudaram e as teorias da «dominação» já podiam começar a ser revistas.

Escreve Ferreira Fernandes:

Não tenho soluções para os males do mundo, excepto a recusa de achar natural o que não é. Se a escola é aquilo que vi, pergunto: como é que uma classe que se revelou tão mobilizada ainda há dias suporta o fascismo recorrente que lhe é infligido por miúdos?

Porque é um fascismo (não gosto do termo, neste contexto, mas…) de baixo espectro, localizado, de tiranias instaladas, de silêncios impostos sob ameaça de…, com a conivência de…, alimentando-se do medo de represálias.

(afinal é capaz de ser fascismo mesmo) 

Por acaso é exactamente por isso que sou frontalmente contra o novo modelo de gestão escolar. Porque estes episódios irão multiplicar-se ainda mais quando todo e qualquer poder dos professores estiver completamente dissolvido e entregue a coligações de oportunidade entre autarcas «de sucesso» e mamãs/papás a cujos filho(a)s «ninguém levanta a voz», sob o risco de serem eles a darem directamente uns tabefes aos(às) professores(as) que esse(a)s sim, ou comem e calam ou são valiados negativamente e colocados no olho da rua.

Ou esperam o quê do novo modelo?

Manhãs radiosas?

Porque o abismo é já a seguir…

O artigo de José Manuel Canavarro do DN de hoje com o título:

AVALIAR PARA QUALIFICAR O PAÍS

Em resumo a teoria é que a avaliação é necessária, mas que o actual modelo está errado por ser muito centralista e regulamentado, para além de funcionar em circuito fechado seno necessário introduzir um factor de avaliação extrana.

Seria importante a criação duma agência de avaliação externa da Educação não superior, de composição independente e qualificada e na qual o ministério não tivesse presença maioritária nem a sua presidência. Um modelo capaz de produzir indicadores fiáveis e monitorizáveis sobre: as aprendizagens dos alunos; o exercício e desempenho profissional e o bem-estar dos professores, pessoal técnico e pessoal não docente; a opinião dos pais sobre as escolas; e o envolvimento de actores não tradicionais no ensino. Um modelo corajoso e forte e não uma iniciativa fortuita, por muito meritória que se afigure e por mais respeitado que seja o “chefe dos avaliadores”.

O sistema de educação necessita de estabilidade. Mas só haverá estabilidade quando tivermos informação. E só conseguiremos superar verdadeiramente o desafio da qualificação quando o sistema informar sobre a qualidade, a capacidade de gerar retorno e de produzir expectativas positivas nos indivíduos.

A ideia é estimável e tão mais estimável seria se Canavarro especificasse melhor como concebe a composição e funcionamento de tal agência. Porque eu tenho algumas dúvidas sobre a sua exequibilidade em termos de recursos humanos para a função. Mas estou disposto a perceber melhor a ideia, se explicada em maior pormenor.

Quanto ao resto assinalo com extremo gosto, que um ex-Secretário de Estado da Educação admite que não temos «indicadores fiáveis e monitorizáveis», ou seja, boa informação disponível sobre o funcionamento do sistema.

É essa também a minha plena convicção, em especial quanto a indicadores construídos recentemente.

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porque será que não estranho o facto das estruturas do ME (antes eram igualmente os CAE) desautorizarem com alhguma regularidade, nestas situações, as decisões tomadas a nível de Escola?

Lembro-me, já há uns anos, de um caso mais grave do que este em que foi necessário recorrer aos tribunais para tentar repor alguma justiça, pois já se sabia que qualquer tentativa de expulsão ou transferência esbarraria no muro do costume.

A notícia é do Público de hoje, da autoria de Mariana Oliveira, e merece leitura para nos apercebermos da teia que envolve a mistificação estatística em curso sobre a indisciplina e viol~encia nas escolas.

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Público, 22 de Março de 2008

Ao silêncio dos três M’s corresponde igualmente o completo silêncio sobre a Educação na edição de hoje do Expresso, excepção feita na primeira página a uma breve sobre a não aceitação de uma das providências cautelares interpostas pela Fenprof, e na última página de outra muito breve sobre o episódio passado no Carolina Michaelis.

O nevoeiro aproxima-se…

Os três M’s do Expresso (Miguel, Madrinha e Monteiro) decidiram que hoje não era dia de zurzir nos professores.

Embora cada vez que o coro afina até fiquemos a ganhar de tão descabelada (1ºM), parcial (2ºM) ou errática (3º M) ser a argumentação.

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Depois de alguns esforços para reencontrá-lo (devo certamente tê-lo arrumado algures em segurança e esqueci-me onde…), houve alguém amigo que me fez o favor de recuperar o meu primeiro texto produzido, em co-autoria, sobre temas educativos.

Fez ontem 21 anos que saiu no Expresso, entalado na página de opinião entre uma prosa de Carlos Tavares e outra de Rogério Martins, para surpresa dos dois finalistas em História que o subscreviam e que o tinham mandado sem grandes esperanças de divulgação.

O tema era então a reformulação curricular dos cursos de Letras, para obedecerem à exigência então apressadamente incluída na agenda da política educativa, no sentido de incorporarem o Ramo de Formação Educacional como saída profissionalizante quase única para todos eles. À época pertencia ao grupo daqueles que contestavam essa opção e recusaram fazer greve com essa finalidade.

Ao reler o que escrevi ficou com a ideia que, ou sou um tipo de ideias fixas, ou então não há remédio e estagnei por complemento nos meus esquemas mentais e intelectuais, desde então ocupados em combater as soluções totalizandes e padronizadas.

Não sei como se a imagem é muito legível, mas fica o seu final.

É insustentável e inadmissível que os estudantes de Letras se submetam, de livre vontade, à massificação da formação que se pretende ministrar-lhes, abandonando-se a um sistema uniformizador que em vez de fomentar a criação de novas modalidades de (expressão do) saber e sua pesquisa, se restrinja à transmissão de um saber adquirido e conservador.

Aceitar outra coisa significaria a renúncia definitiva de uma geração a um espírito de mudança e diferença. Queremos ser meras peças «standardizadas» duma engrenagem, ou indivíduos dotados dum espírito próprio?

Um vintena de anos depois, o que me tem feito novamente mover não é muito diferente: a recusa da imposição de modelos que limitam a liberdade individual (ou de grupo profissional, ou de escola) e reduzem de forma empobrecedora a formação do saber, no caso presente tanto de professores em exercício, como dos futuros candidatos a professores, não esquecenbdo todos os alunos dos vários níveis de ensino.