A manobra de branqueamento e relativização já está em marcha envolvendo os protagonistas do costume.

Perante uma ocorrência que deve ser liminarmente rejeitada e condenada, a tentação de certas correntes de opinião – que por acção ou omissão pactuam há muito tempo com o descalabro disciplinar – é salientar a «impreparação» da professora que se viu envolvida no lamentável episódio.

Gostava de ver muitos destes analistas de bancada, sem ser em visita com pergaminhos de VIP, a lidar todos os dias numa sala de aula com dezenas de jovens, numa daquelas dinâmicas de grupo sem rede que fazem o nosso quotidiano.

Daniel Oliveira, sempre um apressado defensor de todos os martirizados deste mundo e avesso a qualquer cheirinho de autoridade, afirma com aparente conhecimento de causa:

Basta ver como a professora (a adulta e a profissional que tem de garantir o normal funcionamento das aulas) lida com o problema para perceber que estamos perante alguém sem preparação para cumprir as suas funções. Uma professora não fica dois minutos a disputar um telemóvel com uma adolescente. Não o faz, ponto final. Chama outra pessoa, manda a aluna para a rua, interrompe a aula… Qualquer coisa.

Basta ler como Daniel Oliveira lida com este tema, para perceber que estamos perante alguém que deveria pensar antes de escrever. Ou informar-se. Sabe Daniel Oliveira se a professora tinha quem chamar e como? Sabe Daniel Oliveira se a professora conseguiria «convencer» a aluna a sair da sala? Não percebe Daniel Oliveira que a aula já estava interrompida? Perceberá Daniel Oliveira aquilo que indirectamente justifica, quando envereda por caminhos tortuosos como este:

Ser professor é difícil. Recebem-se na sala de aulas todos as falhas familiares, todas as falhas sociais, todas as falhas do sistema. E no fim, o mais provável é ser-se maltratado por quem falha em casa, por quem falha na sociedade, por quem falha no sistema. Mas é esta a profissão que se escolheu e todas as profissões têm partes difíceis.

Ou seja. Escolheram essa profissão, aguentem-se Será que Daniel Oliveira, tendo escolhido a vida política e da exposição mediática, estará disposto a arcar com todas as consequências desse facto?

Por exemplo divulgarem imagens suas recolhidas por telemóvel sem autorização no Youtube e num blogue, como fez de início Daniel Oliveira, antes de perceber o erro clamoroso em que caiu?

Mas a tese da impreparação da docente também assoma na imprensa. A finalizar o seu editorial de hoje no Público, Paulo Ferreira também escreve sobre a «impreparação da professora para lidar com a situação».

As palavras são quase as de Daniel Oliveira e aplica-se aqui o mesmo tipo de contradita. Será que Paulo Ferreira nos pode indicar onde se aprende a lidar com estas situações? Saberá Paulo Ferreira em que cursos ou cadeiras da Universidade se aprende a gerir este tipo de situações? Acha mesmo que é assim tão fácil como dizê-lo?

Perceberá Paulo Ferreira que são estas condutas, aliadas a uma desconsideração permanente por parte da tutela e dos analistas sabedores de tudo, que estão a empurrar centenas de professores experientes e com carreiras de grande mérito para fora do sistema de ensino, fartos de tanta agressão (a física, a verbal e a mediática)?

Mas claro que não poderíamos concluir este mini-périplo sobre os pedagogos de bancada sem irmos dar àquele que é o maior defensor do «novo paradigma» para a nossa Escola. Escreve-se a páginas tantas do Jornal de Notícias que:

Já Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), “repudia o comportamento da aluna”, solidariza-se com a docente, mas ressalva ser preciso ouvir os argumentos de ambas as partes para ajuizar. “Se além de apresentar um comportamento indesculpável e inaceitável, a estudante for culposa e dolosa, ou seja, se não tiver razões que justifiquem o telemóvel, deverá ter uma pena das mais graves – mas nunca a expulsão”. E explica porquê “Se não estiver na escola, a aluna estará na rua em perigo. As sanções a aplicar devem obedecer a uma estratégia de reinserção, levando-a a reflectir sobre a sua conduta”.

Lá está a necessidade de ouvir as duas partes e aferir se, afinal, a docente deveria cumprir as suas obrigações ou não e se a aluna tem o dever de ter um comportamento de civilidade básica (tal como a generalidade da turma) ou se teria justificativos para o telemóvel. E depois a extraordinária afirmação de considerar que a aluna não deve ser expulsa, porque se não estiver na escola, está na rua em perigo. Mas então e a família? Não existe? As hipótese são escola ou rua? E não saberá o senhor em causa que a aluna pode ser transferida de escola e não expulsa? Não leu atentamente a legislação?

Este tipo de abordagens da questão são legítimas, mas para mim são parcialmente incompreensíveis. E tanto mais inaceitáveis quanto eu tenho quase a certeza que, fossem outros os intervenientes, qualquer das individualidades acima citadas acorreriam logo com reprovação célere.

Alguém imagina Daniel Oliveira a considerar «impreparado» um militante bloquista atacado por um simpatizante neo-fascista?

Ou Albino Almeida a relativizar a agressão de um professor a um encarregado de educação?

Não me parece.