Violência contra professora fica por punir

Em Fevereiro, uma professora da Escola Secundária António Sérgio, de Gaia, foi agredida física e verbalmente por estudantes do 7.º ano no espaço de uma semana. Os casos, apesar de prontamente denunciados pela docente ao presidente do conselho executivo, continuam impunes.

A primeira agressão ocorreu a 19 de Fevereiro, depois de Fátima Freitas ter chamado a atenção de uma aluna sobre o seu comportamento na sala de aula. Esta ripostou, empurrando-a violentamente. A segunda aconteceu após a primeira agressão, com outra aluna da mesma turma a provocar a professora: “Foi a stora que levou nas trombas de uma colega minha?” Indignada, Fátima Freitas – que conta 25 anos de serviço – pediu-lhe “cuidado com a linguagem”, ao que a aluna retorquiu: “Ah, desculpe! Levou no… focinho!” Aquando do toque de saída, é informada de que um grupo de estudantes daquela turma estaria a preparar-se para lhe fazer uma espera.

Antes que a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues, ministra, e o sociólogo João Sebastião, observador da segurança nas escolas, surjam a dizer que tudo isto são casos isolados e que não devemos ser alarmistas e que as escolas são dos espaços mais seguros do país, a seguir a todos os outros que são mais seguros e antes dos que o não são, convém deixar telegraficamente algumas ideias que julgo serem partilhadas por quem anda nisto há uns anos e conheceu mais de meia dúzia de escolas e conhece gente (alunos e professores) em muito mais:

  • Estas situações são razoavelmente comuns, mesmo quando não atingem estas proporções. Há, porém, casos bem mais graves em termos de violência física e psicológica sobre os docentes.
  • Muitas delas ficam sem qualquer tipo de registo, quer porque o(a)s docentes preferem não fazer uma escalada da conflitualidade na sala de aula, quer porque alguns órgãos de gestão aconselham a que as coisas se resolvam sem ir para as estatísticas de indisciplina na escola. E há, muitas vezes, vergonha em confessar o que outros aparecem a considerar «fraqueza» ou «falha na condução das aulas».
  • O Ministério da Educação não está verdadeiramente interessado em abordar com frontalidade este tema, preferindo «observatórios» que observam e pouco fazem para além de lançar mensagens-xanax para a opinião pública.

Também não vou exagerar: nos meus tempos de aluno as coisas não eram necessariamente melhores, pelo menos pelas minhas bandas. Só que, à época, existia um contexto de liberdade recém-adquirida que a todos parecia justificar alguns excessos, mesmo se todos pareciam saber onde estavam as fronteiras naturais que eram ultrapassadas. Agora existe um contexto de liberdade incompreendida, em que as fronteiras se esbateram, em que este tipo de actos surge de forma errática e arbitrária e em que os protagonistas sinceramente parecem não perceber que estão a agir de forma incorrecta.

Mais grave: têm uma panóplia de discursos e individualidades a repetir o discurso da «comprensão» e «motivação», ao mesmo tempo que os professores são diabolizados pelo Ministério pelo seu «insucesso».

Já uma vez fui, como DT, quase acusado de enviar para a prostituição uma aluna pelo facto de discordar e usar do meu voto de qualidade para desempatar e assumir a responsabilidade de ela ficar no 5º ano. quem me acusou sabia que a aluna tinha oito negativas (claro que a positiva, com nível 5 que depois baixou para 4, era de uma das minhas acusadoras) e que tinha graves problemas de assiduidade e pontualidade, mesmo quando aparecia na Escola. Espero que acreditem que fiz na altura todos os possíveis para contactar a família e as autoridades competentes para a situação, as quais revelaram uma inactividade pouco surpreendente. Já agora, espero que os leigos acreditem que era então possível passar de ano uma aluna com oito negativas, graças à legislação guterrista-benaventista na sequência da herdada do último governo cavaquista maioritário.

O problema fundamental é que se perderam muitos dos referenciais modelares para os comportamentos correctos a adoptar na escola e na sociedade. Temos semanalmente Rangéis, Sousas Tavares e Ribeiros Ferreiras, ou produtos derivados a qualificar os professores como «indignos», hooligans ou profissionais vergonhosos, sem que a tutela nos defenda perante aopinião pública, muito pelo contrário. Temos uma Ministra que afirmou recentemente que não foi ela que prejudicou a imagem dos professores, que foram eles próprios. Temos a ocupar altos cargos de responsabilidade nacional e internacional figuras que sabemos serem, mais do que marcadas por pequenas máculas, exemplos de «sucesso» alcançado por vias rápidas e curtas, muitas vezes faltando aos seus compromissos.

Temos um descontrolado apelo ao consumo de produtos razoavelmente dispendiosos (quem fica hoje feliz aos 12 ou 14 anos com menos que um telemóvel 3G, uma consola da última geração ou um qualquer outro gadget perfeitamente supérfluo?), cuja impossibilidade de alcançar gera frustrações que antes só os amores e desamores adolescentes conseguiam num passado não muito afastado.

E, como é natural, sendo o «sucesso» medido por esses padrões, o «insucesso» mesmo em coisas tidas como menores (a nota de um teste, a proibição do uso do seu aparelhinho de ligação à vida) gera reacções de descontrole que, ausentes muitas barreiras éticas e morais, se traduzem na banalização da violência.

E temos ainda uma certa cultura de irresponsabilidade alimentada por todos aqueles que, para evitarem mais «chatices», ou não fazem o papelinho, ou fazem por não receber ou papelinho ou bloqueiam o normal desenvolvimento do processo despoletado pelo papelinho.

E depois ninguém sabe de nada, embora todos saibam de tudo.