Sexta-feira, 21 de Março, 2008



Is it worth it?
A new winter coat and shoes for the wife
And a bicycle on the boy’s birthday
It’s just a rumour that was spread around town
By the women and children
Soon we’ll be shipbuilding…….

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É de notar em especial a transição da culpa (se chega, por vezes, a existir) para a racionalização e daí para o reiniciar do processo, que passa a ser tido como «normal».

Ministério diz que novo Estatuto do Aluno permite combater violência

O secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, disse hoje, em entrevista à TSF, que o novo Estatuto do Aluno permite combater os casos de violência nas escolas e lamentou o caso da aluna que agrediu a professora na escola Secundária Carolina Michaelis por causa de um telemóvel.
Valter Lemos lamentou o caso que ocorreu no Porto e frisou que o Governo, ao aprovar o novo Estatuto do Aluno, deu às escolas um instrumento para reforçar a autoridade dos professores, bem como a proibição do uso de telemóveis nos estabelecimentos de ensino.

E já agora de que Estatuto falamos? Do de 2002 ainda em vigor na generalidade das escolas ou do «novo» que foi atirado para as Escolas sem as ter avisado para alterarem os Regulamentos Internos?

Se é do novo que falamos julgo que o senhor Secretário de Estado estará a pensar naquela parte em que os alunos indisciplinados e absentistas poderão passar a fazer férias permanentes da frequência das aulas, aparecendo de quando em vez para fazer uma provazinha para provar que, afinal, não está bem a par da matéria.

A Lei 3/2008 está aqui. Agradeço que alguém me demonstre que neste articulado existe uma medida nova que permita às escolas e docentes combater mais eficazmente situações de desrespeito pelas regras básica de convivência num espaço escolar.

Não conta virem com a alínea q) do artigo 15º da dita lei, pois isso era o que a docente do porti estava a tentar fazer cumprir.

Agora há quem a ache «impreparada», enquanto devemos «compreender» o comportamento da aluna.

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E escuso-me a fazer comentários retrospectivos sobre ilustres alunos da Instituição em causa, que não tem culpa disso.

Ao contrário de muitas boas almas, que abriram os olhos de espanto e de incredulidade, foi com alguma normalidade que vi o célebre “vídeo do telemóvel”… Se calhar, porque apesar de nunca ter vivido uma situação destas (ainda?), sou professora e não vivo no mundo alternativo em que muitos à minha volta parecem viver…

Ultrapassadas a perplexidade e a estupefacção que não tive, encontro um lado positivo na exposição pública de uma situação que mosta como todos nós estamos a falhar como sociedade.

Assim, se conseguirmos ultrapassar as leituras simplistas, redutoras e na maior parte das vezes puramente idiotas (as crianças não se sentem motivadas, os professores não se conseguem impor, são fenómenos das periferias, blah, blah, blah…) espero que sirva para que todos abramos os olhos para o tipo de sociedade em que vivemos.

À escola tudo é pedido, culpa da pressão das CONFAPs, pais desresponsabilizados, negligentes, indulgentes até ao absurdo, EE de educação sem tempo para os filhos, por mais que queiram, empresas que obrigam os seus funcionários a horários de trabalho desumanos, ministérios, governos e etc e etc e etc… Os Conselhos Executivos e as escolas, cada vez mais pressionados com rankings e taxas de sucesso, nada fazem ou podem fazer.

Os Daniéis Sampaios e os Eduardos Sás que nos rodeiam têm ajudado à festa. Porque a escola não compreende os jovens, porque as crianças não podem ser traumatizadas… Tudo isto a mim, que sou professora mas também mãe e EE, me enjoa até à náusea…

E todos acham tudo muito normal. Vivem-se hoje condições de trabalho piores que no século XIX, há aqueles para quem o sucesso é passar muitas horas a trabalhar, muito dinheiro ao fim de mês, uns dias de férias com os “piquenos”…

Habitua-se esta geração a ter sem fazer por isso, a ganhar sem esforço, tudo é um direito adquirido, a palavra NÃO é proibida, tiram-se cursos sem estudar, fazem-se cadeiras do curso com um papel mandado de casa, em licenciaturas relâmpago mais fáceis que saltar à corda.

Os melhores vão-se embora, devo dizer que sem pena minha. Se possível, com todo o meu incentivo. Somos um país adiado, estamos a hipotecar décadas do nosso futuro.

Aqueles que se dão ao trabalho de denunciar, alertar, são visto como os “maluquinhos” que só querem privilégios ou profetas da desgraça que não sabem o que dizem.

Mas uma coisa sei eu: aquilo que vejo, a que assisto, aquilo que vivo todos os dias, aquilo que sinto ao ter de viver neste Portugal, como diria Pessoa, “a entristecer” e não no mundo alternativo de que falam os políticos, as revistas e os jornais cor de rosa, os fazedores de leis (que, para sorte de muitos deles, parecem viver acima das mesmas), os Miguéis, os Rangéis, os Albinos, as Lurdes, os Josés, os Artures e todos os outros “Dantas” que nos rodeiam…

Só não percebo porque não se dignam descer dos seus poleiros de digníssima sapiência e virem-nos mostrar como fazer mais e melhor. Assim, porventura evitaríamos situações como a do “vídeo do telemóvel” ou o que aconteceu no último dia de aulas do 2º período,a uma já experiente professora da minha escola, numa turma de ensino geral de 11º ano, que foi mandada levar no c* depois de ter avaliado o comportamento de um aluno como fraco. A queixa foi imediatamente feita às entidades competentes, eu aguardo para ver… Ou uma outra situação que se verificou no ano passado, com outra colega minha, numa destas novas turmas de CEF ou profissionalizantes ou coisa do género (só me permito desconhecer a terminologia correcta destas novas “turmas” porque tive a imensa sorte de, até agora, não ter tido que lidar com elas), as tais que enchem de orgulho os nossos governantes ufanos das novas oportunidades que proporcionam, que foi ameaçada e mandada mais do que uma vez para o c*****! E não estamos a falar duma escola com tradição de violência ou problemas de indisciplina…

Outros exemplos poderia dar, mas alguns deles poderiam até ferir mentes mais susceptíveis….
Esta é uma grande parte da escola que temos. Continuem a enterrar a cabeça na areia, continuem a relativizar, a desvalorizar, a dizer atoardas, a achar que a culpa é dos outros, a esperar que a escola (e aqui a escola são os professores, pois claro!) resolva os problemas sociais de toda uma sociedade doente…
E espero que, quando perceberem que esta não é a ESCOLA que temos mas sim a SOCIEDADE que criámos e continuamos a criar, não seja já tarde demais!!!
“Perdoai-lhes, Senhor, [porque muitos deles] sabem o que fazem!!!”

Ana Mendes da Silva, professora

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Público, 21 de Março de 2008

 

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