Por acaso já tinha pensado responder em forma de post a este comentário/questão da Rita L. sobre a relativa ausência de referências ao meu quotidiano escolar e relação pedagógica ou pessoal com os meus alunos.
O episódio do dia que deu origem ao post anterior e a outro antes, acabaram por adiá-lo um pouco e até por mudar o seu contexto.
As razões para uma relativa invisibilidade da minha vida diária profissional no blogue são várias, mas eventualmente sumariáveis de forma compreensível:
- O registo deste blogue não é do tipo confessional. Nada contra, poderia ser, mas não é.
- Mesmo que fosse, existem reservas de privacidade que aconselham que certos assuntos sejam abordados de forma não demasiado específica, permitindo identificações fáceis, sendo mais aconselhável abordá-las como ilustrações de argumentos.
- É necessário que quem tem um espaço que é razoavelmente público de exposição (mesmo que tenha só dezenas ou centenas de visitas) não o use de forma que pode ser abusiva para com aqueles com quem partilha uma relação semi-privada, como é o mundo do trabalho ou da sala de aula.
De qualquer modo, isso não me inibe de aflorar alguns casos ou situações que ache dignas de menção, ressalvadas as condições acima.
Aliás, os temas do quotidiano, pela sua maior humanidade e emoção, até são passíveis de abordagens eventualmente mais ricas em termos de escrita, podendo mesmo atrair certo tipo de atenção, como demonstram as vendas das obras desse tipo por parte de psiquiatras e psicólogos.
Embora só tenha lido excertos, por nem sempre me agradar o género, há coisas bem mais difíceis do que escrever um Pedro Strecht, um Daniel Sampaio ou mesmo um Eduardo Sá por trimestre, tamanha é a riqueza de casos que um professor regular encontra na sua vida profissional.
Basta acertar num estilo mais sofrido (PS), mais doutoral (DS) ou mais açucarado (ES) e apontar a um nicho certo de mercado.
Com a aceleração dos tempos e comportamentos até se pode ensaiar um Júlio Machado Vaz por ano. Estilo mais a oscilar entre o brilhozinho nos olhos e a pretensão mal escondida, com pitadas de situações de risco e sexo adolescente pelo meio.
Mas como digo, não faz bem o meu género, do ponto de vista da estética sentimental. Ou da estratégia exibicionista.
Não é inveja. Ou até é pela parte comercial, que os tempos estão maus e todo o cêntimo é necessário para a gasolina.
Feitios. Gostos.
Eventualmente maus uns e outros.
Os meus, entenda-se.
Nada de confusões.
Março 20, 2008 at 5:31 pm
Estou de acordo consigo, Paulo. Devemos ser, enquanto professores, muito cuidadosos. Nada do que se passa numa aula ou no trabalho com os alunos deve ser trazido pelo professor para a esfera pública . Mesmo aquelas colecções de disparates dos alunos, que muitas vezes circulam por aí, não deveriam ser publicitadas. Do ponto de vista deontológico, o segredo profissional do professor não é diferente do do médico ou, noutro âmbito, do do padre católico.
Aliás, este seu post poderia suscitar uma discussão que acho fundamental: a da deontologia da profissão. Esta deontologia sempre existiu de forma implícita, mas está na hora de se explicitar a deontologia do professor, as regras éticas às quais todos nos devemos submeter. A do segredo profissional é uma, a da igualdade de todos os alunos perante o professor é outra (só os desempenhos diferenciam os alunos). A do dever de ensinar quem procura aprender é outra, etc.
A discussão deontológica poderá mesmo reforçar a identidade e a autoridade dos professores. Deveremos ser nós a suscitar o problema e não esperar que um dia alguém legisle o código deontológico da profissão (aliás, este ECD já tem pretensões nada saudáveis…).
JCM
Março 20, 2008 at 5:41 pm
JCM, subscrevo as suas palavras.
A discussão deontológica “forçará”(?) reforçará a identidade do professor.
Talvez se esta discussão existisse há mais tempo este ECD nunca tivesse visto a luz do dia.
Março 20, 2008 at 5:42 pm
Mais “rua” contra a ME!
Esta, fora de portas!
Alemanha: Portugueses em Frankfurt e Estugarda manifestam-se em Abril contra política da educação
http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/b08b04e01f52f9cbff0941.html
Março 20, 2008 at 6:21 pm
Paulo, sobre o assunto do post perfeitamente de acordo. Só para lhe dizer que se calhar queria referir-se ao Júlio Machado Vaz e escreveu João. Será?
Março 20, 2008 at 6:36 pm
Já chegou á comunicação social o episódio da fedelha e da professora
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1323264&idCanal=74
Março 20, 2008 at 6:42 pm
Deveria ser criada uma associação, um Centro de Apoio ao Professor Vítima de Violência.
Março 20, 2008 at 7:39 pm
O dever de sigilo profissional parece-me um imperativo.
Contudo, constato, no seu post, que a “humanidade” e as “emoções” inerente aos “temas do quotidiano” aparecem conotadas pejorativamente.
Os sentimentos e/ou as emoções aparecem invariavelmente associados a discursos lamechas, delico – doces ou melodramáticos?
Je n’en suis pas sûre.
Talvez tenha feito uma leitura errada das suas palavras (?)
Março 20, 2008 at 9:14 pm
Ema,
A leitura foi equivocada talvez pela sequência do post e de alguma ironia sobre os expoentes do género.
Não.
Eu confirmo que escrever sobre o tema do quotidiano se presta a uma escrita até mais fluente e atraente.
Não é pejorativo.
O abuso do recurso a isso é que considero errado.